Novos Medicamentos para Alívio da Dor
Serão Destaque do 6º Simbidor



Entrevista com o Dr. Claudio Fernandes Corrêa

Neurocirurgião Funcional e Diretor-Presidente do Instituto Simbidor.


Por Cláudia Mapa


Os novos medicamentos para alívio da dor que são mais potentes e apresentam menos efeitos colaterais serão uma das novidades a ser debatidas no 6º Simpósio Brasileiro e Encontro Internacional da Dor, que acontece de 8 a 10 de maio, em São Paulo. O evento, que é um dos pioneiros nessa área no Brasil, traz também como inovações a realização de curso voltado para várias áreas que lidam com o tratamento do fenômeno doloroso, como enfermagem, fisiatria, psicologia, além de atividades denominadas Primeiros Passos, destinadas aos profissionais de saúde que estão iniciando na profissão e que desejam obter informações sobre a dor, sua fisiologia e tratamento. Serão abordados os últimos avanços da medicina nesta área e os temas mais importantes da atualidade. Também serão destaques o 1º Encontro Latino-Americano de Dor e a divulgação de pesquisas na área da dor. Nesta entrevista à Prática Hospitalar, o Diretor-Presidente do Instituto Simbidor, Dr. Claudio Corrêa, fala sobre como será o evento, cuja expectativa de público é de 1.200 participantes, provenientes de todo o Brasil, além do Chile, Paraguai e Argentina.

Prática Hospitalar - Como será o próximo Simbidor?
Dr. Claudio Corrêa - Existe uma fórmula que foi usada nos simpósios anteriores que vamos tentar reproduzir. Tivemos, até então, cinco eventos. Progressivamente o Simbidor foi se firmando com um público cada vez maior e, a partir da avaliação dos conferencistas que é feita no final do evento, quando fazem críticas e sugestões, percebemos que o Simbidor agrada, não só pelo conteúdo científico, mas também pelo modo com que as pessoas são recebidas. Fazemos o evento num hotel cinco estrelas de grande categoria, todos são muito bem tratados, o programa é de alto nível, porque privilegia não só o que tem de melhor no país, mas também aborda as novas descobertas e os tratamentos que estão despontando no mundo inteiro. Este esquema de programação que seguimos passou a ser usado em outros eventos no Brasil, constituindo-se num bom modelo.

O Simbidor é um evento pioneiro. Quando iniciou, em 1994, havia poucos eventos sobre dor no Brasil. Isso tem um caráter muito importante, porque, como a dor não é ensinada na maioria das universidades nas diferentes áreas e especialidades, isto faz com que o profissional termine sua formação sem ter exata noção de como abordar a dor. Essa deficiência ocorre nas diferentes áreas: medicina, psicologia, enfermagem, etc. Os eventos passaram a ser uma das possibilidades de os profissionais poderem angariar conhecimentos e repartir experiências.

P. H. - O Simbidor sempre teve esse caráter multidisciplinar?
Dr. Claudio - Sim. Aliás, a base do tratamento da dor é ser multiprofissional e multidisciplinar. Envolve várias profissões e dentro da medicina muitas especialidades, como a neurologia e neurocirurgia, anestesiologia, fisiatria, psiquiatria e oncologia. São áreas da medicina que têm muitos profissionais voltados para o tratamento da dor.


O Simbidor na verdade é um congresso,
onde há trabalhos apresentados,
com palestrantes internacionais e
carga horária ampla


P. H. - Como será a programação?
Dr. Claudio - Este evento tem uma repartição de atividades. Ele ocorre durante três dias. Durante as manhãs, acontecem as plenárias em salas que vão comportar cerca de 1.200 pessoas. Trata-se de conferencistas nacionais e internacionais, trazendo os assuntos de ponta e de destaque. Os temas mais importantes da atualidade serão abordados nestas três manhãs em três salas simultaneamente, inclusive permitindo que um participante que esteja assistindo a uma aula numa das salas possa se transferir para outra sala onde ocorre outra conferência. Esta liberdade de escolha é interessante, pois um profissional, por exemplo, da área de enfermagem, pode ter alguns objetivos que não são os mesmos da área de fisioterapia. Então ele pode “mesclar” as palestras, conforme seu interesse, tanto num quanto no outro ambiente.

Na hora do almoço teremos alguns seminários de empresas acontecendo e depois temos uma atividade que é característica do Simbidor e que serviu de modelo para outros eventos: serão apresentados trabalhos simultaneamente nas três salas principais, cujos autores atuam em diferentes áreas e que vão concorrer ao prêmio Simbidor, no valor de R$ 5 mil para os três primeiros colocados.

P. H. - Quais são as atividades reservadas para as tardes?
Dr. Claudio - Serão realizados cursos destinados às diferentes áreas de atuação. Como por exemplo: cefaléia, enfermagem ligada à dor, além de temas relacionados a fisioterapia, fisiatria, odontologia, psicologia e psiquiatria. São cursos autônomos. Dentro do Simbidor também há um curso que é realizado no período da manhã e à tarde sobre Neurocirurgia Funcional e Estereotaxia, no qual, entre outros capítulos, a dor também é abordada. Este curso é destinado a neurocirurgiões funcionais e neurologistas e vai abordar movimentos involuntários, como a doença de Parkinson, neuroncologia (abordando temas como braquiterapia, radiocirurgia, ressecção guiada por neuronavegação, etc.), entre outros assuntos. Trata-se de um curso paralelo, que sai do contexto do programa oficial do Simbidor e que vem acontecendo há muito tempo. Quando começamos a realizar os primeiros eventos, pertencíamos à diretoria da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia Funcional e Estereotaxia. A partir daí, passamos a fazer este curso junto com a Sociedade. À noite haverá a abertura do evento, onde costumamos apresentar um show de música popular brasileira. Já tivemos apresentações de artistas como Toquinho, Jane Duboc e João Bosco. Ainda não está definido como será este ano.

P. H. - Qual é a média do preço da inscrição?
Dr. Claudio - Apesar de ser denominado de simpósio, o Simbidor na verdade é um congresso, onde há trabalhos apresentados, com palestrantes internacionais e carga horária ampla. Seu custo é muito baixo, porque é subsidiado pelas empresas. A média é de R$ 250,00 aproximadamente. Há uma diferenciação entre profissionais médicos, profissionais de outras áreas (como enfermagem e fisioterapia) e os estudantes. Também existe uma diferenciação relacionada ao tempo da inscrição. Assim, se for realizada meses antes, o valor será mais baixo. Nosso objetivo não é ganhar dinheiro com o evento e sim proporcionar informações atualizadas em um ambiente bastante agradável.


Todas as conferências, que sempre foram
publicadas em livro, agora também
vão estar disponíveis em CD,
que será distribuído
gratuitamente


P. H. - Quais são as novidades trazidas para este próximo evento?
Dr. Claudio - Neste ano estamos inovando, com a introdução da atividade denominada Primeiros Passos, destinada aos profissionais que estão iniciando na profissão. O Simbidor é um evento que traz informações de ponta, de última geração. Porém, queremos abranger também aquele profissional que está iniciando sua carreira e quer conhecer assuntos relacionados à fisiologia da dor, ao tratamento medicamentoso e operatório, etc. Trata-se de algo muito interessante, porque estudantes de sexto ano de medicina ou de outras áreas que já queiram ter uma idéia do assunto poderão contar com um material muito adequado para eles.

Outra novidade, que também vai privilegiar o público jovem, será uma tarde inteira destinada às Ligas de Dor de várias faculdades do país. Como a dor não consta na grade curricular da maioria das universidades, estudantes e professores universitários criaram estas ligas para que os alunos possam obter informações sobre o fenômeno doloroso. Existe uma congregação nacional destas Ligas de Dor e vamos ter uma espécie de congresso com os seus participantes.

O 1º Encontro Latino-Americano de Dor igualmente está sendo trabalhado para que aconteça em nosso evento.

Uma outra inovação é que todas as conferências, que sempre foram publicadas em livro, agora também vão estar disponíveis em CD, que será distribuído gratuitamente para todos os participantes. Isso é importante porque serve de consulta após o evento e de referência bibliográfica para os profissionais que trabalham nessa área.

P. H. - Quais são os temas a ser debatidos no evento?
Dr. Claudio - Serão temas abrangentes da área da dor. Mas o destaque no momento atual são as novas drogas que melhoram a condição da dor. Ainda não conseguimos resolver a imensa maioria dos casos de dor, no sentido da cura. Porque a maioria das dores é decorrente de uma lesão no tecido nervoso e esse tecido ainda não é recuperável ou substituível, como a pele, da qual conseguimos até a reparação com transplante. Com a descoberta do genoma e das chamadas células-tronco, vai ser possível no futuro - talvez daqui a dez ou 15 anos - recuperar o tecido nervoso lesado. No caso, por exemplo, de um ferimento por arma de fogo que lesou a medula, levando a pessoa a perder o movimento e provocando dor. No futuro, talvez seja possível recuperar esse paciente, mas hoje isso é impossível.

Como não conseguimos regenerar o tecido nervoso, curando a causa do fenômeno doloroso, nosso intuito é aliviar a dor, por meio de várias ações, como os medicamentos, os implantes de estimuladores para inibição de dor, implantes de cateteres de bomba para infusão de opiáceos, bloqueios terapêuticos, manobras da medicina física que aliviam alguns padrões de dor, como a fibromialgia. Mas curar, para a maioria dos casos, ainda constitui um desafio.

Com isso, as principais novidades são exatamente as alternativas que temos para minimizar a questão dor e trazer melhora da qualidade de vida do paciente. Neste aspecto, estamos trazendo informações de empresas que desenvolveram medicamentos que melhoraram a ação e diminuíram os efeitos adversos que provocavam. Alguns dos antiinflamatórios comercializados no Brasil são seguros, no sentido de efeitos colaterais e que trazem um alívio significativo da dor sem tanto prejuízo para outras estruturas, como o estômago, rins e fígado, por exemplo. Isso será bastante enfocado dentro do evento. Analgésicos narcóticos potentes também fazem parte de um simpósio paralelo, onde serão amplamente discutidas a questão do custo/benefício e as vias de administração destas drogas.

Antigamente, elas eram destinadas principalmente para a dor oncológica, mas hoje são usadas para dor de outra natureza, como as dores neuropáticas e por lesados medulados, entre outros. Recentemente implantamos um sistema eletrônico de infusão de narcótico para uma paciente que tinha uma dor neuropática intratável com métodos tradicionais. A paciente está muito bem. Os efeitos colaterais por estas vias são inexpressivos. É uma vantagem muito importante porque leva o analgésico diretamente no receptor onde ele tem de atuar. Usa-se, às vezes, uma quantidade de medicamento 30 vezes menor; portanto, causa menos efeito colateral, com melhor efeito terapêutico. Estes assuntos serão exaustivamente abordados dentro do nosso evento por conferencistas brasileiros e estrangeiros.

P. H. - Estas drogas já foram lançadas no Brasil?
Dr. Claudio - Sim, são antiinflamatórios inibidores da COX-2 e alguns anticonvulsivantes. Aqueles que estão em via de ser lançados no mundo também serão abordados. Vamos discutir não só o efeito da droga em si, mas todo o histórico de como ela funciona, como atua, em quais níveis da cascata analgésica, em quais enzimas, o que elas influenciam e por que aliviam a dor. Toda esta questão da bioquímica da droga será discutida.

P. H. - Quais são estes medicamentos em vias de lançamento?
Dr. Claudio - Pré-gabalin, parecoxib e outros antiinflamatórios inibidores da COX-2.


As Ligas de Dor permitem que o jovem
profissional já saia da universidade com certa
noção sobre o assunto, o que também
permite que tenha uma atenção
mais adequada sobre o
fenômeno doloroso


P. H. - Como está o acesso a essas drogas?
Dr. Claudio - Hoje está muito melhor do que há quatro anos, mas eu diria que ainda muito aquém do que deveria ser. Não só na sua produção, mas também na distribuição destas drogas. Alguns destes narcóticos são fáceis de ser comprados porque são baratos, mas são mal distribuídos, difíceis de ser encontrados. Um exemplo é a própria morfina, que é muito barata, mas difícil de ser adquirida na maioria das farmácias. Outros opiáceos são sintéticos e até mais potentes que a morfina, mas são caros e difíceis para que o público mais carente tenha acesso a eles. Mas há também aspectos legais, que dificultam a aquisição desses medicamentos.

P. H. - Não houve modificações na legislação quanto a estes aspectos?
Dr. Claudio - Não, mas houve facilitações. Hoje, o cadastramento de médicos para que possam prescrever estes medicamentos é um processo muito mais simples. Como eu disse, melhoramos muito se compararmos com cinco anos atrás, mas ainda temos muito o que melhorar. Outra coisa que precisamos melhorar também é o conhecimento do profissional, no sentido de se sentir seguro em prescrever a medicação. Existem muitos tabus por parte destes profissionais e pela própria população. Quando prescrevemos fármacos desta natureza, o paciente pensa que seu prognóstico é muito ruim, que está próximo do fim da vida, quando essa visão não reflete a realidade. Como disse, usamos muitos métodos de tratamento em doentes que não têm dor oncológica, que vão viver décadas e décadas com uma dor neuropática, que pode ser tratada e os opiáceos são uma boa opção em casos bem selecionados.

P. H. - Por conta de todas estas questões, o senhor diria que a dor no Brasil ainda é subtratada?
Dr. Claudio - Com certeza. A dor é subtratada, não tanto quanto num passado remoto. Hoje, por meio de eventos como o Simbidor e o da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor, os profissionais têm acesso a informações importantes. Isso melhorou a condição do nosso país. As Ligas de Dor permitem que o jovem profissional já saia da universidade com certa noção sobre o assunto, o que também permite que tenha uma atenção mais adequada sobre o fenômeno doloroso.

Alguns hospitais dos EUA, para serem considerados de qualidade, têm de ter uma clínica de dor. No Brasil existem alguns hospitais particulares com este mesmo espírito, como por exemplo o Hospital 9 de Julho. O mesmo ocorre em alguns hospitais ligados a universidades (Hospital São Paulo e das Clínicas) e Santas Casas, como por exemplo a Santa Casa de São Paulo. Em ambiente privado temos várias clínicas boas, muitas porém incompletas, porque atendem apenas pacientes na dor pós-operatória, que é um capítulo abrangente do Simbidor. Porém, é um tratamento mais simples, que está ligado ao trauma cirúrgico, na maioria dos casos.

P. H. - A dor pós-cirúrgica também vem sendo mais bem tratada?
Dr. Claudio - Sim. O cuidado com a dor pós-operatória começou a ser implantado anos atrás nos hospitais e muitos cirurgiões não tinham o hábito de usar um sistema de analgesia mais eficiente, que permitisse ao paciente uma condição de alta mais precoce. Ao não sentir dor, ele se alimenta melhor, tosse e expele secreções, portanto recupera-se mais rapidamente. Embora essa atitude dos cirurgiões não ocorra da noite para o dia, eu diria, na minha experiência, que progressivamente estamos cada vez mais atuantes no alívio da dor pós-operatória por meio destas clínicas.

Outra questão que envolve o subtratamento da dor no país está ligada à própria população, que ignora existir um tratamento específico para a dor. Portadores de uma doença como câncer temem falar para o seu médico que sentem dor, imaginando que isso vá desviar a atenção do especialista, fazendo com que ele se esqueça de tratar a doença de base e o paciente fique sem um tratamento adequado para o câncer. É um pensamento absurdo, que não tem o menor senso. São muitos fatores, na verdade, que justificam esta expressão de que a dor no nosso país é subtratada.

Esta é uma situação também verificada em países desenvolvidos. Lembro-me de que a mãe de uma professora de inglês, que morava na Holanda, não recebia tratamento para a dor em razão de seu prognóstico ser muito ruim. No Brasil, há uma carência absoluta de tratamento básico em diversas regiões, mas existem centros de excelência. Nestes dois extremos, há centros parciais, não são completos, mas conseguem tratar a dor em alguns aspectos de forma correta. Um dos objetivos do Instituto Simbidor é ter uma estrutura física dentro de São Paulo que permita tratar gratuitamente a dor de pacientes de qualquer parte do país. Mas isso envolve muitos recursos. O Instituto Simbidor é uma entidade sem fins lucrativos.


Outra questão que envolve o
subtratamento da dor no país está
ligada à própria população, que ignora
existir um tratamento específico
para a dor


P. H. - Há quanto tempo foi criado o Instituto?
Dr. Claudio - Há cerca de três anos. O Instituto possui quatro objetivos: a realização do evento, de uma revista, lançada há três anos, com uma qualidade científica muito boa e que é distribuída gratuitamente, a promoção de um curso de extensão universitária para formação de profissionais na área da dor e a criação de um hospital voltado para o tratamento da dor. Mas isso demanda encontrar as pessoas certas na hora certa, que se sensibilizem com esta questão. Seria uma congregação de forças, de pessoas importantes que viabilizassem a construção física, além de equipamentos e gerência. Mas por enquanto isso é um sonho.

P. H. - Nas últimas edições do Simbidor foi realizado um curso para leigos. No próximo evento a população também será contemplada?
Dr. Claudio - Vamos manter o curso para leigos. Ele é realizado no anfiteatro de enfermagem da USP e vai continuar existindo com o mesmo peso de importância. São enfocados temas do dia-a-dia de interesse, como a dor de cabeça, dor no idoso, dor nas costas. Ao todo, vamos dispor de 300 vagas.

P. H. - O senhor acredita que estes cursos, além de fornecer informações para as pessoas, também são uma forma de despertar no leigo a importância do tratamento da dor?
Dr. Claudio - Isso é muito verdadeiro, porque os veículos de comunicação gostam de falar sobre este curso. É muito comum que durante o Simbidor o foco maior de interesse das entrevistas seja destinado ao público leigo. Isso acaba movimentando a opinião pública, trazendo o assunto à tona, fazendo com que haja uma conscientização deste tema. É um estímulo adicional para que as pessoas saibam que a dor pode e deve ser tratada.

P. H. - Como os profissionais interessados podem participar do Simbidor?
Dr. Claudio - Por meio do site: www.simbidor.com.br, ou na sede do Simbidor, cujo telefone é (11) 5087-2920, com Tânia, das 13 às 18 horas, de segunda a sexta-feira. Também podem contatar a Unidade Promoções e Eventos, que faz a secretaria do evento, cujo telefone é (11) 3889-0066.