ABTO Estimula Divulgação de Transplante de
Órgãos no Brasil


Entrevista com o Dr. José Osmar Medina Pestana

Diretor do Hospital do Rim e Hipertensão.
Presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos.


Por Luciana Rodriguez


Dr. José Osmar Medina Pestana


A Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, ABTO, tem estimulado a divulgação do transplante pelo Brasil, a fim de disseminar informações sobre a necessidade da doação. Durante o último carnaval, a ABTO participou de um importante momento: a história do transplante foi abordada por uma das escolas de samba do carnaval carioca. O enredo foi amplamente divulgado nesse evento que é um dos mais importantes do país.

Com ampla repercussão no carnaval 2003, o tema transplante despertou grande interesse e curiosidade. Por isso, nesta entrevista à revista Prática Hospitalar, o Dr. José Osmar Medina Pestana, que sugeriu o enredo transplante ao presidente da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, José Roberto Tenório, um transplantado de fígado, analisou a situação atual do transplante no Brasil e no mundo e falou sobre o evento carnavalesco.

Prática Hospitalar - Como o senhor analisa a situação do transplante de órgãos no Brasil?
Dr. José Osmar Medina Pestana - O Brasil é, hoje, o segundo país que mais realiza transplantes no mundo. Somente os Estados Unidos efetuam um número superior ao nosso.

No Brasil, o sistema de transplantes é muito bem estruturado. Existe uma coordenação nacional no Sistema Nacional de Transplante em Brasília e cada Estado possui uma central de notificação de doação e localização de órgãos. Além disso, em sua maioria as equipes brasileiras que realizam transplantes são lideradas por competentes profissionais, que foram graduados no país e que completaram sua graduação internacionalmente.

Ao contrário do que acontece muitas vezes no sistema de saúde pública do Brasil, a área de transplante está muito bem organizada e desenvolvida. Situação semelhante à da cirurgia cardíaca e da Aids, em que somos reconhecidos internacionalmente.

P. H. - Qual é o perfil do transplantado no Brasil?
Dr. Medina - O perfil econômico da maior parte das pessoas transplantadas é o baixo poder aquisitivo. Mais de 95% dos transplantes são realizados pelo sistema público de saúde e o governo remunera razoavelmente estes procedimentos. Quanto à faixa etária, a maior parte dos transplantados está entre 20 e 50 anos.

P. H. - Quais as prioridades levadas em consideração para a realização de um transplante?
Dr. Medina - Analisamos as prioridades, mas não há nenhuma discriminação em relação à idade, condição social, etc. A única questão que pode discriminar é se existe algum impedimento clínico. Em algumas situações, o transplante e os remédios que o paciente terá que tomar colocam-no em risco maior do que antes do transplante. Se a expectativa de vida do paciente depois do transplante é menor do que se não fizer, é melhor não realizá-lo. Em relação à idade, não há limite. Já transplantamos um receptor de 71 anos e utilizamos um doador de 81 anos.

P. H. - Existe diferença na conscientização de outros países em relação às prioridades para a realização de um transplante?
Dr. Medina - Existe uma tendência nos países chamados desenvolvidos em distribuir os órgãos de maneira mais utilitária, por exemplo, evitar transplante em pessoas de mais idade ou até mesmo dar preferência às pessoas de melhores condições sociais. Aqui no Brasil isso não acontece. Todas as pessoas em condições clínicas são igualmente candidatas.

P. H. - Existe algum tipo de transplante que ainda representa um desafio para os médicos brasileiros?
Dr. Medina - Sim. Não só para os médicos brasileiros, mas para os médicos de todo o mundo. Os transplantes de pulmão e de intestino ainda são um desafio. Além disso, também há o transplante de células nervosas, que é um processo que está em desenvolvimento e não possui, até agora, aceitação clínica.

P. H. - Os medicamentos disponíveis no Brasil para os transplantados são suficientes?
Dr. Medina - O Brasil disponibiliza para todos os seus transplantados os melhores medicamentos do mundo. Eles são fornecidos gratuitamente pelo sistema de saúde pública e fornecidos por toda a vida do transplantado. É uma situação semelhante ao que acontece com a Aids.

P. H. - Qual a importância da lista única de receptores?
Dr. Medina - Conquistamos a credibilidade da população e fazemos uma distribuição mais justa. No entanto, é difícil fazer uma lista única do país inteiro. No Estado de São Paulo existe lista única de alguns órgãos, mas dependendo do local ela tem que ser regional. É difícil realizar a distribuição de órgãos em um país grande, porque o tempo de preservação do órgão não pode ser ultrapassado. Por isso, está sendo feita uma distribuição mais regional.

A distribuição regional tem a vantagem da família que doou ver o benefício. Além disso, o fato de existir um lugar específico onde muita gente doa e muita gente é transplantada dissemina a cultura do transplante. As pessoas se entusiasmam com os resultados e começam a doar cada vez mais. Um exemplo desta situação é o banco de órgãos de Sorocaba (SP). Há muito tempo atrás foi criado em Sorocaba um sistema de procura de córneas nas duas funerárias da cidade. A família de todos que morriam eram procuradas para doarem as córneas e, atualmente, mais de 90% das pessoas que morrem são doadoras de córneas. Hoje não existe fila de espera por córnea nessa cidade.

P. H. - O que o senhor acha das campanhas que são realizadas na área de transplante de órgãos?
Dr. Medina - Sempre que uma campanha é realizada, imaginamos que o problema será resolvido. Não é assim. A doação de órgãos envolve um número de variáveis muito grande. Envolve desde a cultura da população quanto à doação até todo tipo de problema relacionado à saúde pública, como, por exemplo, ter boas condições em diversos hospitais, para que após o diagnóstico de morte encefálica a doação seja efetivada rapidamente. Temos, também, que tentar conscientizar os profissionais da saúde para que se envolvam mais com a doação.

P. H. - Qual a sua opinião sobre o projeto do governo de discriminar doadores ou não-doadores no R.G.?
Dr. Medina - A situação que acontecia é que quando a pessoa ia registrar no seu documento doador ou não-doador e questionava algo sobre o assunto, não recebia esclarecimento de quem a atendia. Por isso, mais de 90% das pessoas não estavam aceitando serem doadoras. Além disso, não achamos isso tão importante no momento, porque 70% das famílias no Brasil autorizam a doação. A questão não é a resistência da família, mas sim a estrutura do sistema de saúde na notificação de órgãos disponíveis para transplantes. De cada 12 potenciais doadores (pessoas que já foram diagnosticadas com morte encefálica, mas continuam sendo acompanhadas pelo médico) somente uma é notificada. Esse é o principal problema. Deve haver envolvimento dos médicos com o programa de transplante, pois eles necessitam notificar o órgão retirante de um paciente que acaba de morrer e que é um doador potencial.

Sabemos que este é um processo demorado. Esta é a principal dificuldade em todo o mundo, uma vez que o número de transplantes é muito grande. Então queremos continuar abordando a família. Se a família não concorda, respeitamos a decisão dela. Por isso, orientamos as pessoas para que decidam ser ou não doadores e que avisem sua família. Quando a família nega, o principal argumento que costumam usar é: “ele nunca nos disse que queria doar órgãos”.

P. H. - A que se deve o aumento na lista de espera por um órgão ao longo dos anos?
Dr. Medina - Na verdade, o número de candidatos para o transplante irá crescer sempre. Se a assistência à saúde for melhor, as pessoas irão viver mais tempo e, quanto mais viverem, maior a chance de falência de um órgão e de precisarem de um transplante. Quanto melhor o sistema de saúde e a condição social de uma comunidade, menor a possibilidade da pessoa morrer em condições de doar órgãos, pois a violência urbana, os acidentes de trânsito e os homicídios diminuem e, conseqüentemente, o número de doadores potenciais também. Se a assistência médica melhora, o número de pessoas que morrem por derrame cerebral ou em condições de doar também é reduzido. Então, na sociedade do futuro todo mundo iria precisar de transplante e não haveria doadores, porque ninguém morreria em condição de doar.

A fila só irá desaparecer quando for possível a realização de transplantes com espécies diferentes. Como, por exemplo, realizar um transplante utilizando o porco como doador ou, ainda, utilizar células clonadas.

P. H. - Qual a situação, hoje, destes estudos de transplantes com animais doadores?
Dr. Medina - Existem estudos em fase adiantada na Inglaterra, mas este é um processo que não irá acontecer nos próximos dez anos.

P. H. - Existe, realmente, a comercialização de órgãos?
Dr. Medina - Isso é um boato. Criaram uma história de que certa criança foi seqüestrada e depois apareceu sem um rim. As pessoas imaginam que isso pode ser feito em qualquer lugar. No entanto, para tirar um rim em condição de transplante é necessária uma equipe de mais ou menos dez pessoas com nível universitário. Inclusive, também, é incoerente pensar na comercialização de órgãos do Brasil para outros países. É impossível manter discrição em um processo como este, que exige uma estrutura hospitalar bem organizada e que não poderia estar envolvida com nenhum tipo de irregularidade.

Porém, pode haver uma situação em que eu precise de um transplante de rim e alguém que é compatível comigo diz que está em dificuldades financeiras e que o venderia para mim. Isso já ocorreu e existe, ainda hoje, legalmente em países como a Índia e o Irã. Aqui no Brasil, quem estiver envolvido nesta prática ilegal pode ser condenado a três anos de prisão. Temos uma lei muito bem estabelecida.

P. H. - Qual é a situação do Hospital do Rim nos índices de transplantes realizados no Brasil?
Dr. Medina - Pelo 4º ano seguido o Hospital do Rim e Hipertensão é o que mais realiza transplantes de rim em todo o mundo.

P. H. - O que a ABTO tem feito para disseminar informações sobre a necessidade de doação de órgãos?
Dr. Medina - A ABTO mantém campanhas, normalmente, permanentes. Procuramos utilizar uma linguagem clara e objetiva. Temos uma assessoria de imprensa que periodicamente divulga notícias de transplante. Fazemos a revista ABTO News, que fornece notícias de transplantes para todo o Brasil, uma publicação distribuída para todos os parlamentares brasileiros, órgãos da imprensa e aos associados da ABTO, que são mais de três mil. Além disso, temos uma revista médica, onde divulgamos eventos científicos, distribuída a todos os médicos brasileiros envolvidos com transplante. Existe, também, um registro brasileiro de transplante, que mostra a situação dos transplantes a cada seis meses no Brasil. A semana de doação de órgãos em setembro e a campanha permanente dos médicos são outras iniciativas da ABTO.

P. H. - Como surgiu a idéia de participar de um evento como este do último carnaval?
Dr. Medina - A idéia surgiu por acaso. Fui o ano passado assistir ao desfile das escolas de samba campeãs do carnaval carioca de 2002, e ao observar o desfile e a forma como as alas e as alegorias são apresentadas, fiquei imaginando que poderia ser contada a história do transplante: contexto histórico e mitológico do transplante passando pelos patronos do transplante Cosme e Damião (ver box), as mudanças, os dias atuais, etc. Foi então que conversei com o carnavalesco Chico Spinosa e ficamos trabalhando oito meses nisso. Procurei duas escolas que, por diversas razões, não aceitaram o tema. Quando procurei o presidente da Mocidade Independente de Padre Miguel, que é um transplantado de fígado, começamos a consolidar a idéia. O enredo foi nota 10, todos os jurados deram a nota máxima. A mocidade foi a mais votada pelo público que estava assistindo ao carnaval pela televisão. O interessante é a postura ética da equipe da escola. Toda vez que divulgaram o enredo, mencionaram o papel da ABTO.

P. H. - Como o senhor analisa a reação da classe médica durante o evento carnavalesco?
Dr. Medina - Os médicos gostaram. Mais de 100 médicos desfilaram, além de seus familiares. Foi unânime o comentário de que não existe melhor evento popular para a divulgação do tema e de que o carnaval é um ótimo momento para divulgar algo para a população brasileira. Os resultados são muito bons. Com o transplante é um pouco mais complexo, porque não depende de uma atitude individual, não é algo como o preservativo, que você decide se usa ou não. O transplante envolve diferentes setores da sociedade e um número muito grande de pessoas. O retorno de uma divulgação como a deste evento não é rápido. Não existe expectativa de na semana seguinte do carnaval o número de doação aumentar. O nosso objetivo não é esse, mas sim fazer com que as pessoas entendam o benefício do transplante, que os órgãos podem ser doados e discutam o assunto, enfim que se posicionem a favor ou contra o transplante. Aliás, este é o ponto fundamental: a pessoa tem que se manifestar a favor ou contra a doação.


Histórias e Mitos do Transplante

O transplante de órgãos e tecidos abriu um capítulo novo na história da raça humana, criando um homem novo, modificado em sua estrutura original, onde uma parte de seu corpo antes pertencia a um outro geneticamente diferente; constituiu um homem-quimera.

A existência do homem-quimera não pertence aos anos recentes. Desde as civilizações mais antigas, especialmente gregas, o homem havia imaginado alterações na morfologia, estrutura e comportamento de seu corpo. Concebeu até a possível fusão de animais e humanos para formar seres híbridos, assim como a Esfinge, o Minotauro, as sereias, os faunos, os centauros, a Quimera.

O termo quimerismo, adotado para indicar a convivência, em um ser vivo, de suas células com aquelas de outro(s) geneticamente diferente(s) deve-se exatamente à Quimera, monstro que possui corpo de cabra, cauda de serpente e duas cabeças: uma de leão e outra de cabra.

Entre estes seres híbridos, precisamente entre os centauros, que tinham busto de homem e corpo de cavalo, foi a fantasia humana procurar o inventor da medicina e escolheram Quíron. Sua dupla natureza de homem e cavalo era explicada pelo fato de seu pai, Cruzo (Saturno, na mitologia romana) ter assumido a forma de um cavalo para unir-se à ninfa Filira, filha de Oceano. Seu pai, sabiamente, transmitiu-lhe apenas a curiosidade, que o estimulou a desvenda os mistérios da Astronomia, da música, da arte de adivinhar o futuro e da Medicina. Por sua sabedoria, Quíron foi incumbido da educação de vários príncipes e heróis, entre os quais Aquiles, Tese, Ulisses e Jasão. Outro de seus alunos foi Esculápio, filho de Apolo e da ninfa Koronis, o deus da medicina para os antigos gregos.

A morte de Quíron pode ser considerada como extremo ato de doação ferido acidentalmente por uma flecha de Hércules, o inventor da Medicina, sabendo que não existia cura para seu sofrimento, doou sua vida e sua imortalidade a Prometeu, encontrando no Hades o alívio para seu sofrimento. Zeus o colocou no Zodíaco, onde constitui a constelação de Sagitário.

Ao deus greco-romano sucedeu a era cristã. Mitos e lendas deixaram o lugar para os milagres, continuando presente a idéia do transplante.

O mais célebre milagre foi cumprido por São Cosme e São Damião (284-305) e foi assim relatado pelo arcebispo de Gênova, Giacomo de Voragine, no século XII: “Felix, oitavo papa após São Gregório, erigiu uma bela igreja em Roma em honra a São Cosme e São Damião, no século VI. Um homem, que servia a esta igreja, havia tido uma de suas pernas devorada por um câncer. Enquanto ele dormia, São Cosme e São Damião apareceram-lhe em sonho, trazendo consigo alguns instrumentos de ferros e ungüentos e um disse ao outro: onde conseguiremos a carne para recobrir o espaço de onde removeremos a carne podre? E o outro replicou: um etíope acaba de ser sepultado no cemitério de Saint-Pierre-ès-Liens; traga-nos sua carne para pô-la aqui. E então ele foi ao cemitério e trouxe a perna desse morto e eles cortaram a perna do doente e puseram em seu lugar aquela do morto, untando a ferida com cuidado, e levaram ao morto a perna do doente. E quando este acordou e não sentiu dores, ele levou a mão à perna e não sentiu vestígio de seu mal, aproximou uma vela e não viu traços de suas feridas, ele acreditou já não ser ele mesmo e que havia se tornado outro; e quando enfim ele recuperou os sentidos, caiu de seu leito pelo excesso de alegria e contou a todos o que lhe havia acontecido e como havia sido curado. Eles se apressaram em ver o túmulo do morto do Mouro e encontraram a perna do morto cortada e a perna do outro depositada em seu túmulo”. São Cosme e São Damião eram médicos cristãos do século III, estudaram medicina na Síria e praticaram no Mediterrâneo e Fenícia.

Esta narração teve uma imensa repercussão na sociedade cristã de sua época e forneceu matéria de inspiração de grandes artistas, pintores e escultores, como Fra Angélico e Mantegna.
No mundo da Medicina, São Cosme e São Damião foram designados como patronos dos médicos e até hoje são representados nos edifícios de numerosas faculdades de medicina.


Dr. José Osmar Medina Pestana
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