Qualidade do Ensino Médico
Preocupa Sociedade Brasileira de
Clínica Médica


Entrevista com o Prof. Dr. Antonio Carlos Lopes

Presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.
Professor Titular da Disciplina de Clínica Médica da UNIFESP/EPM.


Por Luciana Rodriguez



Prof. Dr. Antonio Carlos Lopes


Desde a sua fundação, a Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM) tem se preocupado com o processo de formação dos profissionais de clínica médica. Com o intuito de melhorar a qualidade do ensino médico e chamar a atenção quanto à responsabilidade pedagógica das instituições que atuam nesta área, a SBCM adotou diversas iniciativas de organização, normatização, estímulo e divulgação para que o clínico recém-formado esteja cada vez mais preparado.

Nesta entrevista à revista Prática Hospitalar, o presidente da SBCM, Dr. Antonio Carlos Lopes, fala sobre a SBCM, suas iniciativas e desafios, a necessidade da ética no ensino médico, além dos preparativos para o próximo Congresso Brasileiro de Clínica Médica e a sua importância para a formação do estudante de medicina e para a reciclagem dos profissionais. Paralelamente a este congresso acontecerão o I Congresso Internacional de Medicina de Urgência, o I Congresso Internacional de Medicina de Família e o I Simpósio Nacional de Cuidados Paliativos. A expectativa é que 5.000 pessoas participem desse evento. A seguir os destaques da entrevista.

Prática Hospitalar - Como surgiu a idéia de fundar a SBCM?
Dr. Antonio Carlos Lopes - A idéia surgiu a partir da necessidade de resgatar a visão holística do paciente, ou seja, tratar o doente em todos os aspectos, valorizando, sempre, a sua relação com o médico. Percebi a importância de relacionar o humanismo com a prática médica porque a tecnologia de ponta estava prejudicando a relação médico/paciente. Alguns exames, como por exemplo a ressonância magnética e a tomografia computadorizada, revelam aspectos físicos internos do homem, mas não os fatores socioeconômicos, culturais, familiares e o estado emocional dos pacientes. Muitas vezes são estes os fatores causadores de doenças.

Embora a SBCM tenha sido fundada em uma época na qual o entusiasmo dos médicos recém-formados em relação às especialidades médicas era muito grande, ela começou a crescer rapidamente e atualmente tem 11 mil associados e 18 regionais em diferentes Estados.

P. H. - Quais as iniciativas que a SBCM vem desenvolvendo desde sua consolidação?
Dr. Lopes - Com a ascensão da SBCM, muitas questões que haviam sido esquecidas voltaram à tona: a relação entre médico e paciente, a humanização do ensino médico, o acesso a um bom atendimento médico e a democratização do conhecimento. Além disso, a Sociedade passou a ter uma grande importância na política de saúde do país, pois passou-se a falar da necessidade do médico de família e saúde da família com atendimento prestado principalmente pelo clínico geral.

Outra importante contribuição da SBCM foi na mudança da residência médica do Brasil no ano passado. Hoje, o residente é obrigado a fazer dois anos de clínica médica antes de escolher qualquer especialidade. Isto é importante porque, no Brasil, a maioria dos profissionais de saúde exerce a clínica médica e em algumas áreas não existem especialistas. Assim, o clínico tem de estar bem formado e o especialista com uma boa base clínica para que a população usufrua de um bom atendimento.

P. H. - Como a SBCM vê a questão da ética médica?
Dr. Lopes - A SBCM luta para que haja ética no ensino médico. Infelizmente, em várias escolas particulares do país não há a menor ética no ensino, o que existe é um desrespeito total em relação ao aluno e ao professor. Fazem parte do corpo diretivo destas instituições indivíduos sem nenhuma titulação ou formação universitária.

A Sociedade prega a necessidade das escolas particulares realizarem concursos para a contratação de professores. As instituições devem exigir titulação acadêmica de seus profissionais.

Muitas escolas particulares cobram mensalidades caras e não oferecem este tipo de qualidade para os alunos. Os alunos se formam sem condições de exercer a profissão e sem base para aprender na residência médica.

A supervisão do Ministério da Educação e Cultura (MEC) é extremamente importante para que haja conscientização destas instituições médicas.

P. H. - Qual o objetivo primordial da SBCM?
Dr. Lopes - O objetivo da Sociedade é promover a educação médica continuada, acompanhar e se opor à abertura indiscriminada de escolas médicas que não cumpram com seus objetivos, estimular a pesquisa, divulgar conhecimentos através de suas publicações, normatizar a clínica médica como uma área de atuação específica e agregar os clínicos do país nos seus congressos para que num curto prazo de tempo eles possam fazer uma boa reciclagem.

Como resultado, desejamos uma não exclusão social do atendimento médico e democratização do conhecimento com ética.

P. H. - Quais os principais desafios para a SBCM?
Dr. Lopes - Um dos maiores desafios foi transformar a residência médica em dois anos de clínica médica antes de optar por qualquer especialidade. Isso já conseguimos, mas temos outros desafios, como por exemplo fazer com que o estudante de medicina se conscientize de que a clínica médica é uma área extremamente importante, enfrentar as escolas médicas que não cumprem com seus objetivos de ensino e assistência à pesquisa e impedir que a indicação de professores não respeite um princípio ético.

P. H. - A postura do clínico mudou com o surgimento das especialidades?
Dr. Lopes - Com as novas especialidades o clínico teve que se aprimorar. Atualmente, o clínico não é mais um simples executor de triagens como era no passado. Hoje, ele tem condições de resolver 70% das doenças. Aliás, ele é o primeiro médico a ser chamado no atendimento primário e, dependendo da sua competência e grau de formação, pode ser chamado até mesmo no atendimento secundário, ou seja, em casos de doenças mais complexas e que exigem especialistas.

P. H. - Existe diferença entre a relação clínico/paciente e especialista/paciente?
Dr. Lopes - Sim. O clínico tem apenas o estetoscópio, o aparelho de pressão, o oftalmoscópio e a luva. Ele não tem os aparelhos que contemplam o interesse do paciente. O clínico vê o paciente em seu conjunto. Ele sabe, por exemplo, que o paciente sofre influências da comunidade em que vive, falta de dinheiro e problemas familiares. É por isso que 70% dos exames solicitados no Estado de São Paulo não apresentam nenhuma anormalidade. O indivíduo está doente por condições sociais que não aparecem em exames como uma tomografia computadorizada ou ressonância magnética. O bem-estar físico, mental e social faz parte da saúde do homem.

P. H. - Existe diferença entre a clínica médica praticada no Brasil em relação à de países desenvolvidos?
Dr. Lopes - Tenho a impressão de que estamos atingindo um nível próximo aos dos profissionais de países do primeiro mundo. A clínica médica brasileira tem a SBCM e diversas escolas médicas que nos aproximam do estágio em que se encontram aqueles países.

P. H. - Como é a postura dos especialistas em relação ao clínico?
Dr. Lopes - Na realidade, todo especialista é na sua essência um clínico. Por variados motivos, esse clínico optou especificamente por uma área de atuação. No entanto, os especialistas trazem uma contribuição muito grande para a clínica médica quando participam de nossos congressos.

A SBCM mantém uma interface excelente com as especialidades médicas, pois todos os especialistas ficam satisfeitos quando o clínico está bem preparado, facilitando o trabalho deles.

P. H. - Quais serão os principais temas abordados pelo VII Congresso Brasileiro de Clínica Médica?
Dr. Lopes - A clínica médica é abrangente e envolve os mais importantes temas da medicina. Daremos ênfase a biologia molecular, a epidemiologia clínica, ao ensino embasado na competência e nos principais temas clínicos que são de interesse de todos os profissionais de saúde.

P. H. - Quais novidades serão apresentadas nesse evento?
Dr. Lopes - Tudo que existe de mais atual, por exemplo, em pneumologia, endocrinologia e cardiologia e que tenha aplicação clínica imediata. O que estiver em investigação não será abordado.

P. H. - Haverá alguma mudança em relação às edições anteriores desse mesmo evento?
Dr. Lopes - Nesse evento teremos uma participação mais ativa dos congressistas. Haverá mais integração para que todas as dúvidas possam ser esclarecidas. Este aspecto interativo irá procurar atingir modelos pedagógicos modernos de transmissão do conhecimento utilizando recursos de informática de última geração.

P. H. - Qual o perfil dos participantes do evento?
Dr. Lopes - A maioria dos congressistas são profissionais recém-formados e em média com 12 anos de formação, porém esse perfil está mudando ao longo do tempo. Atualmente, profissionais com maior experiência participam de nossos eventos. Hoje, 70% de médicos e 30% de alunos freqüentam congressos de clínica médica. Antigamente acontecia o contrário.

P. H. - Qual a importância de um evento como esse?
Dr. Lopes - Ele preenche uma lacuna ou, até mesmo, cobre as falhas do ensino em algumas escolas que não cumprem seus objetivos. A função do congresso não é essa, mas ele tem sido muito importante nisso: transmite informações de uma maneira que o indivíduo incorpora e pratica. Isso ocorre porque os médicos que participam do evento são profissionais que realmente exercem a profissão e não são adeptos da medicina virtual, que acaba, muitas vezes, fazendo com que o especialista acostumado com casos apresentados no computador, quando se depara com o paciente, não saiba o que fazer.

P. H. - Qual o principal objetivo do congresso?
Dr. Lopes - Reunir clínicos, atualizá-los, mostrar as perspectivas da clínica médica no futuro, inteirá-lo com a tecnologia, de modo que não seja influenciado por ela e proporcionar a atualização terapêutica que surge com o progresso dos medicamentos.