Hospital do Câncer A. C. Camargo
Completa 50 Anos e Comemora com uma
Série de Eventos Científicos


Entrevista com o Prof. Dr. Ademar Lopes

Diretor do Departamento de Cirurgia Pélvica do Hospital do Câncer
A. C. Camargo da Fundação Antonio Prudente, em São Paulo.


Por Cynthia de Oliveira Araujo



Prof. Dr. Ademar Lopes


O Dr. Paul H. Sugarbaker, médico do Washington Cancer Institute, uma das maiores autoridades em peritoniectomia e quimioterapia hipertérmica intraperitoneal em carcinomatose peritoneal, estará presente em São Paulo durante o IV Congresso Brasileiro de Tumores Ósseos e de Partes Moles, I Workshop sobre Quimioterapia Regional, IV Simpósio Trienal sobre Câncer Colorretal e I Jornada de Estomaterapia, que acontecerão entre os dias 24 e 27 de abril, no Auditório do Hospital A. C. Camargo.

Os eventos fazem parte dos comemorativos dos 50 anos do Centro de Tratamento e Pesquisa Hospital do Câncer A. C. Camargo e têm como objetivo enfocar aspectos atuais e os avanços obtidos no tratamento desses tumores, abordando, principalmente, os resultados com novas drogas, cirurgias conservadoras e reabilitação que melhoraram a qualidade de vida e aumentaram a sobrevida dos pacientes.

PIONEIRISMO BRASILEIRO

O Dr. Sugarbaker vem ao Brasil especialmente para falar sobre o sucesso que vem obtendo, há anos, no tratamento de pacientes com alguns tipos de carcinomatose peritoneal. Será um dos grandes destaques do I Workshop sobre Quimioterapia Regional, uma vez que muitos pacientes com carcinomatose peritoneal não têm doença em outras localizações nem outras modalidades terapêuticas efetivas. “Há dez anos poucos acreditavam neste tipo de procedimento. No entanto, Sugarbaker tem publicado vários estudos mostrando resultados muito interessantes com peritoniectomia e quimioterapia hipertérmica intraperitoneal, especialmente no pseudomixoma peritoneal. Esse é o tipo de tumor de eleição para usar esse método”, revela o Dr. Ademar Lopes, especialista em cirurgia oncológica e Diretor do Departamento de Cirurgia Pélvica do Hospital do Câncer A. C. Camargo, em São Paulo.

Por reunir a maior experiência nesse tipo de procedimento, o Dr. Sugarbaker é uma das maiores autoridades do mundo nesse assunto. No Brasil, o Hospital do Câncer A. C. Camargo é pioneiro na utilização desse procedimento, que compreende uma técnica cirúrgica e um método de administração de drogas no local. Há dois anos ele vem sendo adotado com sucesso no tratamento de 12 pacientes do Departamento de Cirurgia Pélvica do Hospital. Conforme explica o especialista, primeiramente é realizada uma grande cirurgia, com o objetivo de reduzir o volume tumoral, deixando apenas doença microscópica ou mínima. Depois, é feita a quimioterapia intraperitoneal hipertérmica, usando-se uma máquina de circulação extracorpórea. Os quimioterápicos são diluídos em solução de diálise peritoneal que é aquecida pela máquina até a temperatura de 42ºC. Faz-se então a perfusão da cavidade peritoneal através de circuito fechado, por tempo aproximado de duas horas. “A alta temperatura, por si só e associada à quimioterapia, tem grande poder tumoricida”, esclarece Dr. Ademar.

Um manual de autoria do Dr. Sugarbaker sobre as indicações, aspectos técnicos, cuidados e complicações do procedimento, cuidadosamente traduzido para o português, será distribuído gratuitamente para todos os inscritos (ver box).

A participação do especialista será uma excelente oportunidade aos que desejarem conhecer melhor o método, uma vez que é pouco difundido no Brasil. “Até onde estamos informados, além do Hospital A. C. Camargo, apenas o Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro, já tem alguma experiência com tal procedimento”, informa o médico.

TUMORES ÓSSEOS

Até cerca de 1975, pacientes portadores de tumores ósseos, especialmente osteossarcoma e tumor de Ewing, eram submetidos à amputação ou desarticulação e, conseqüentemente, perdiam o membro. Após um a dois anos da cirurgia, 80% a 90% deles morriam de metástases pulmonares. A partir de 1975 e 1980, surgiram drogas muito efetivas para o tratamento desses tumores. Usando essas drogas foi possível reduzir o volume tumoral, sua vascularização, o que permitiu a realização de cirurgias preservadoras de membros, sem prejuízo da radicalidade, melhorando a qualidade de vida dos pacientes e curando um número significativo deles.

Hoje, as taxas de preservação de membro chegam a 70% a 80% dos casos, e as de cura, em torno de 50% a 70%. “É muito importante frisar que as taxas de preservação de membro e de cura dependem muito do diagnóstico precoce”, ressalta Dr. Ademar.

Os tumores ósseos, osteossarcomas e tumor de Ewing são muito mais freqüentes nas crianças ou adolescentes e, excepcionalmente, em adultos jovens. De acordo com o diretor do Departamento de Cirurgia Pélvica, em geral, a primeira queixa da criança é a dor óssea. As três localizações mais comuns do osteossarcoma são a região úmero proximal, a porção distal do fêmur e a tíbia proximal. Qualquer criança que tenha dor em um desses pontos, embora não seja obrigatório, tem a possibilidade de ter osteossarcoma. Por isso, Dr. Ademar alerta que antes de tratar qualquer criança que apresente uma dor óssea, em um desses pontos, como processo benigno, é importante afastar a possibilidade da presença de tumor ósseo. “Procedendo dessa maneira, iremos fazer um diagnóstico precoce, poderemos preservar o membro praticamente de todas as crianças ou adolescentes e curar muito mais pacientes”, afirma.

Outro tipo de cirurgia interessante que será abordado no evento é a chamada hemipelvectomia interna. Até por volta de 1980, pacientes que tinham grandes tumores no osso ilíaco eram tratados com cirurgias que removiam todo o membro em monobloco com o osso da bacia. Hoje, por exemplo, é possível fazer uma cirurgia conservadora preservando o membro do paciente, de tal forma que haja uma qualidade de vida muito melhor do que daqueles que antes perdiam metade da bacia e todo o membro. O Departamento de Cirurgia Pélvica do Hospital do Câncer tem uma das maiores experiências mundiais com este tipo de procedimento. Os resultados desse trabalho foram apresentados pelo Dr. Ademar, no Congresso da Sociedade Americana de Cirurgia Oncológica, em 2001, tendo despertado grande interesse, não só pela casuística, bem como pelo não uso de próteses, após a ressecção do tumor e pelos bons resultados funcionais.

SARCOMAS DE PARTES MOLES

Outro ponto alto do evento será o tema “sarcomas de partes moles”. Serão focalizados aspectos atuais da doença, principalmente os relacionados aos aspectos biomoleculares e os avanços na terapêutica.

A incidência de sarcomas de partes moles, nos Estados Unidos, é em torno de 8.500 casos novos por ano, para uma população de 270 milhões de habitantes. No Brasil, esse número não chega a 5.500 casos novos por ano. Por serem tumores raros, os médicos não especialistas conhecem muito pouco sobre eles e muitas vezes os tratam como doenças benignas, usando antiinflamatórios, antibióticos, drenagem e fisioterapia, retardando o diagnóstico e piorando o prognóstico. Cerca de 70% dos pacientes com tumores de partes moles que chegam ao Hospital do Câncer já haviam passado por médicos, fora da Instituição, e à primeira vista não tiveram o seu diagnóstico ou foram tratados de maneira inapropriada. A maioria dos pacientes chega com tumores muito avançados, dificultando o tratamento e diminuindo as taxas de cura, o que mostra que o conhecimento médico sobre essa área ainda é muito restrito. “A atualização dos profissionais sobre tumores ósseos e de partes moles, mesmo sendo raros, é muito importante, pois as taxas de cura e a preservação do membro dependem muito de diagnóstico precoce”, destaca o especialista.

Segundo Dr. Ademar, até por volta de 1980, em sua grande maioria, os pacientes com sarcomas de partes moles eram submetidos à amputação e desarticulação, nos grandes centros do mundo. Hoje, com o tratamento multidisciplinar associando quimioterapia e radioterapia, no pré ou pós-operatório, as taxas de amputação e desarticulação caíram para 5% a 10%. “Esses resultados são muito gratificantes e mostram uma melhora significativa na qualidade de vida dos nossos pacientes”, salienta. Esses avanços serão também destaques do congresso.

TRATAMENTO MULTIDISCIPLINAR

O tratamento multidisciplinar que vem sendo empregado desde 1975/80 foi o grande responsável pela preservação de membros em pacientes com tumores ósseos e partes moles. Na opinião do especialista, a terapêutica dos pacientes com osteossarcoma é um exemplo clássico de tratamento multidisciplinar bem-sucedido nas duas últimas décadas. “Com o aparecimento de drogas efetivas, somos capazes de diminuir o volume tumoral, fazer cirurgia preservadora de membros e curar um percentual muito alto desses pacientes. Tudo isso aconteceu graças à associação de quimioterapia com cirurgia.”

Pela raridade e complexidade da doença, um seleto grupo de profissionais conhecedores do assunto concorda que os pacientes com tumores ósseos e sarcomas de partes moles devem ser abordados de maneira multidisciplinar em relação ao diagnóstico, tratamento, reabilitação e seguimento, a fim de melhorar as taxas de cura e a qualidade de vida.

Outro ponto de destaque dos eventos paralelos será o IV Simpósio Trienal Internacional sobre Câncer Colorretal, que estará enfocando aspectos biomoleculares, quimioprevenção e hereditariedade nesses tumores, além do que há de mais recente na terapêutica. Haverá uma sessão interativa de discussão de casos clínicos selecionados, onde os presentes terão a oportunidade de opinar e discutir casos mais complexos.

BIOLOGIA MOLECULAR

Outro enfoque do congresso será a biologia molecular nos sarcomas ósseos e de partes moles. O Dr. Stephan Bielack, da Alemanha, é um grande estudioso deste tema, tem vários trabalhos publicados e estará presente no evento. Para o Dr. Ademar, a biologia molecular tem como objetivo estudar quais são os genes envolvidos na oncogênese dos sarcomas ósseos e de partes moles. Uma vez conhecendo-se as alterações genômicas, elas podem ser importantes no diagnóstico e em novas maneiras de se tratar pacientes com esses tumores.

Embora a expectativa de que a biologia molecular possa ser relevante na terapêutica dos sarcomas ósseos de partes moles, seja a médio e a longo prazo, para um tipo específico de tumor ela está contribuindo de maneira significativa. Já foi demonstrado que para o GIST (Gastro Intestinal Stromal Tumor), com mutação do gene c-KIT) uma droga recente, mesilato de imatinib, inibidora da tirosina quinase, tem um papel muito importante no tratamento desses pacientes.

REFERÊNCIA MUNDIAL

O Centro de Tratamento e Pesquisa Hospital do Câncer A. C. Camargo está completando 50 anos prestando assistência à comunidade e dedicação ao ensino e à pesquisa nessa doença. Esta Instituição tem um papel histórico no melhor conhecimento e tratamento dos sarcomas ósseos e de partes moles. Hoje, tem condições iguais aos melhores hospitais do mundo no tratamento destes tumores. Já referência mundial no tratamento de sarcomas ósseos e de partes moles, o Hospital do Câncer A. C. Camargo reúne uma maior experiência do que muitos outros centros do mundo. Há cerca de 2.500 casos de sarcomas de partes moles registrados no hospital.

Para estimular a pesquisa desses tumores, um dos destaques do evento será o Prêmio “Fernando Gentil” ao melhor trabalho científico apresentado na área de sarcomas ósseos e de partes moles. Os trabalhos serão recebidos até o dia 15 de abril e o prêmio será de R$ 2 mil reais.

Paralelamente às atividades ligadas a sarcomas ósseos e de partes moles, câncer colorretal, quimioterapia regional, será realizada, também, a I Jornada de Estomaterapia, promovida com o intuito de discutir com médicos e profissionais de enfermagem, aspectos psicológicos e cuidados em pacientes portadores de câncer do intestino grosso ou urológico submetidos a estomas que, muitas vezes, podem ter sua qualidade de vida melhorada por uma boa orientação quanto aos cuidados com os mesmos.

Os eventos são voltados para cirurgiões oncologistas, oncologistas clínicos e pediatras, radioterapeutas, ortopedistas, coloproctologistas, patologistas e, também, cirurgiões gerais, que tratam esses tipos de tumores. Além da área médica, haverá um evento paralelo na área de enfermagem.