Antonio Alci Barone
Médico Chefe do Laboratório de Hepatites LIM 47-FMUSP.
Médico Chefe do Ambulatório de Hepatites DMIP-HCFMUSP.
A infecção crônica pelo VHC, com suas conseqüências para a função hepática, representa hoje, nos países desenvolvidos, a principal causa de indicação de transplante de fígado.
Entretanto, dias ou mesmo horas após a cirurgia, a reinfecção do enxerto pelo VHC pode ser detectada e pode levar, novamente, a hepatite lobular, hepatite crônica, cirrose hepática e hepatocarcinoma no órgão transplantado. Deve-se levar em consideração que a imunossupressão do hospedeiro permite uma evolução mais rápida dessas etapas da infecção crônica pelo VHC.
Por outro lado, os dados de literatura têm mostrado que a sobrevida dos pacientes em um, três, cinco e dez anos tem sido, respectivamente de 81%, 70%, 67% e 51%, assim como a sobrevida dos enxertos, nesses pacientes, é de 75%, 65%, 63% e 49%, o que justifica totalmente a indicação do transplante como um método terapêutico para essas situações.
A indicação mais importante de transplante de fígado reside na cirrose hepática graus B ou C de Child-Pugh, isto é, com sinais clínicos e/ou laboratoriais de descompensação da função hepática, tais como:
encefalopatia hepática;
ascite de difícil controle;
peritonite bacteriana espontânea;
hemorragia digestiva de repetição;
albumina < 3 g/dL; bilirrubinas > 3 mg/dL e TP prolongado com AP > 50%.
Alguns grupos, em virtude da exigüidade de doadores, têm utilizado doadores anti-VHC positivos, com resultados comparáveis aos obtidos quando se usam doadores anti-VHC negativos, tanto na sobrevida dos enxertos como na dos pacientes receptores. Os fatores preditivos de evolução dos pacientes transplantados são: recorrência da infecção pelo VHC e tempo em que ela ocorre; estado do doador em relação ao VHC; carga viral do VHC no receptor, no momento do transplante, idade do receptor, status na classificação UNOS (United Network for Organ Sharing) do receptor; gênero do doador, tempo de internação do doador, nível de creatinina do receptor e presença de hepatocarcinoma antes do transplante. O tratamento específico antes e depois do transplante ainda não está bem estabelecido, não só nas suas indicações como também nos esquemas terapêuticos. Em ambas situações existem poucas referências na literatura recente. Mencionaremos algumas que indicam tratamento com Interferon-alfa regular, três milhões de unidades SC três vezes/semana, associado à ribavirina, em doses de 800 a 1.200 mg diários por via oral. Em casuística de tratamento imediatamente antes do transplante, com cirrose Child B ou C, os resultados foram de 33% de negativação do VHC logo após o tratamento, com muitos eventos adversos graves. Em tratamentos de infecção do enxerto após o transplante, a literatura mostra 35% de negativação do VHC ao fim do tratamento, sendo que apenas 50% dos pacientes completaram um ano de uso das drogas; 66% dos pacientes apresentaram eventos adversos graves, levando a mudanças no esquema ou interrupção do tratamento. Entretanto, ocorreu melhora histológica do fígado em 75% dos que negativaram o VHC e em 67% dos que não negativaram. Embora a recidiva de doença do enxerto ocorra em cerca de 60% dos casos, a infecção pelo VHC está presente em 90% a 100% dos transplantados.
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