Maria Cássia Jacintho Mendes Correa1
Edgar De Bortholi Santos2
1Casa da AIDS-DMIP-FMUSP
2Instituto de Infectologia Emílio Ribas/CRT-AIDS.
a. Diagnóstico laboratorial
Em todos os pacientes infectados pelo HIV, é fundamental a solicitação dos testes sorológicos para as hepatites virais A, B e C. De modo geral, não se observam dificuldades para o diagnósti co sorológico das hepatites virais em pacientes infectados pelo HIV. Eventualmente, pacientes com alto grau de imunodeficiência podem apresentar resultados falsos-negativos. Devido a isto, pode-se solicitar exames de biologia molecular (HBV-DNA ou HCV-RNA) em pacientes infectados pelo HIV que apresentem quadro clínico e/ou laboratorial sugestivo de hepatite viral, com sorologias repetidamente negativas e após descartar outros diagnósticos.
Quanto maior a imunossupressão, maior a possibilidade de resultados falsos-negativos.
Portanto, uma única sorologia em pacientes infectados para o HIV não é critério suficiente para que se afaste a infecção pelo VHC.
b. Biópsia hepática
A biópsia hepática é um procedimento essencial para o estadiamento da hepatite crônica e para definição da necessidade de tratamento ou não. A biópsia de agulha é a preferida, pois permite a retirada de fragmentos de áreas distantes da cápsula de Glisson (as áreas subcapsulares mostram muitas alterações inespecíficas). Além disso, a biópsia transcutânea dispensa anestesia geral e reduz o custo do procedimento. Sempre que possível a biópsia hepática transcutânea deverá ser realizada com o auxílio de ultra-sonografia.
Deverão realizar biópsia hepática os pacientes candidatos a tratamento da hepatite C.
A critério do médico-assistente do paciente, poderão também realizar biópsia hepática aqueles pacientes, mesmo sem indicação de tratamento específico para hepatite B ou C, que apresentem outras indicações clínicas para a realização da mesma.
(1) Critérios para indicação da biópsia hepática
Investigação clínica de outras condições que não a hepatite C, a critério do médico-assistente
Hepatite C crônica (HCV-RNA positivo)
Doença hepática compensada (Child A)
Contagem de plaquetas > 60.000/mm3
Atividade de protrombina > 50%
Ausência de contra-indicações ao uso de interferon e/ou ribavirina e/ ou lamivudina
c. Tratamento
O tratamento de pacientes co-infectados pelo HIV/VHC deve ser realizado por período de 12 meses, independentemente do genótipo infectante, não sendo necessária a realização de genotipagem. Até a presente data não existem estudos que sugiram que, na população de pacientes co-infectados, a genotipagem possa interferir na resposta ao tratamento da hepatite C. Os critérios de indicação de biópsia hepática e de indicação do uso do interferon devem ser bem avaliados. Caso o paciente não apresente possibilidade de realizar a biópsia hepática ou o tratamento com interferon, não se deverá aprofundar a propedêutica.
O tratamento será realizado com interferon alfa, na dose de três milhões de unidades, por via subcutânea, três vezes por semana, associado à ribavirina na dose de 11 a 15 mg/kg/dia (600 a 1.200 mg/dia), por período de 12 meses. A monoterapia com interferon ou ribavirina não é indicada. Casos especiais deverão ser analisados em Centros de Referência previamente designados.
(1) Critérios de indicação do tratamento
A indicação de tratamento específico será realizada levando-se em consideração duas variáveis: presença do RNA-VHC, e o diagnóstico histológico.
Serão submetidos a tratamento se apresentarem, à biópsia hepática qualquer alteração estrutural maior ou = a F1 e/ou alteração necroinflamatória periportal maior ou igual a A2. (*GED Vol. 19, 2000:137-140).
Os pacientes que não preencherem os critérios histológicos para a indicação de tratamento deverão ser submetidos a nova biópsia em um período de um a dois anos (ou mesmo antes dessa data), a critério do médico-assistente.
Critérios de indicação de interferon em pacientes infectados pelo HIV
Idade 18 a 65 anos
Pacientes com diagnóstico de infecção pelo HIV, sem indicação de tratamento anti-retroviral
Pacientes com diagnóstico de infecção pelo HIV, com indicação de tratamento anti-retroviral que apresentem linfócitos T CD4+ > 350 cel/mm3 E Carga viral HIV < 10.000 cópias/ml
Hemoglobina > 11g%
Neutrófilos > 1.500 mm3
Plaquetas > 60.000 mm3
Pacientes em uso da medicação anti-retroviral, com boa adesão ao tratamento e doença estabilizada por pelo menos seis meses (ausência de doenças oportunistas neste período), sem nenhuma infecção oportunista ativa,com células T CD4+ > 200 cel/mm3 e carga viral para HIV indetectável ou estabilizada (<10.000 cópias)
Mulheres não-grávidas e que se comprometam a evitar a gravidez durante o período do tratamento
(2) Critérios de contra-indicação do tratamento
Plaquetas < 60.000/mm3
Neutrófilos < 1.500/mm3
Hemoglobina < 11g/dl
Deficiência de glico-6-fosfato, hemoglobinopatias ou antecedente de anemia hemolítica.
Doença hepática descompensada (icterícia, sangramento esofágico, ascite, Child B e C)
Doenças metabólicas (diabetes mellitus, doenças da tireóide, etc.) descompensadas ou não-controladas Cardiopatias severas, história pregressa ou atual de doença arterial coronariana (DAC) ou fatores de risco para DAC
Renais crônicos
Dependentes de álcool ou drogas psicoativas
Alterações hematológicas (talassemias, linfomas, anemias, leucemias)
Doenças auto-imunes (colagenoses e outras), a critério médico
Gestação ou amamentação Parceiros sexuais de mulheres grávidas ou pretendendo engravidar
Antecedente de doença psiquiátrica: distúrbio bipolar, depressão grave (história de internação ou tentativa de suicídio), psicose ou qualquer outro antecedente considerado grave (pode haver necessidade de acompanhamento psiquiátrico)
Presença de qualquer doença oportunista em atividade ou de qualquer sinal ou sintoma clínico inespecífico da infecção pelo HIV (emagrecimento, febre, adenomegalia, etc.), que na opinião do médico-ssistente do paciente exija investigação apropriada
(3) Rotina de monitoramento ambulatorial
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