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O Desafio das Doenças Infecciosas:
Maior a Cada Dia
Nos anos 60, o progresso da ciência e o rápido desenvolvimento de antimicrobianos levaram muitos cientistas a acreditar que a humanidade triunfaria facilmente sobre os microrganismos, de modo que os médicos teriam de se preocupar somente com doenças degenerativas, metabólicas e câncer. O tempo rapidamente se encarregou de mostrar que esse pensamento estava profundamente equivocado: a cada dia as doenças infecciosas ganham mais espaço dentro de todas as especialidades médicas.
O aumento da população de pacientes suscetíveis explica parcialmente esse fato: extremos etários cada vez mais extremos, da prematuridade outrora inviável ao idoso centenário, incrementam o grupo de indivíduos com o sistema imunológico afetado pela idade. Quimioterapias cada vez mais intensivas, ampliação das indicações e da capacidade de realização de transplantes, melhora do tratamento de pacientes com infecção pelo HIV ampliam notavelmente o número de pacientes imunossuprimidos. Unidades de terapia intensiva muito bem equipadas e profissionais treinados multiplicam os sobreviventes de traumas que no passado levariam rapidamente à morte, mas aumentam os riscos de infecção devido a procedimentos invasivos, diálise, ventilação mecânica e cirurgias.
Outro dado que contribui para o aumento da importância das doenças infecciosas é a descoberta de que muitas entidades clínicas consideradas idiopáticas, metabólicas ou de etiologia indeterminada são causadas por vírus ou bactérias. Como alguns exemplos, podemos citar a doença de Whipple, a úlcera gastroduodenal associada ao Helicobacter pylori, neoplasias causadas por vírus como o Epstein-Barr (linfomas) e herpesvírus tipo 8 (sarcoma de Kaposi) e, possivelmente, diabete melito tipo 1.
A mobilidade dos seres humanos quebra fronteiras que anteriormente limitavam o avanço das doenças infecciosas. Um indivíduo pode se infectar num continente e, em questão de horas, chegar a outro continente carreando um agente infeccioso que anteriormente não existia naquela região. Os próprios vetores, como insetos e animais, viajam a bordo de navios, aviões e veículos automotores. Nunca esqueço o dia em que uma mosca entrou no avião em que eu estava no Rio de Janeiro e, em menos de 2 horas, chegou comigo a Porto Alegre.
Novas entidades clínicas surgem, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave, causada por um novo coronavírus, ou a encefalopatia espongiforme atípica relacionada à ingestão de carne bovina contaminada por príons. A propósito, essas partículas protéicas sem ácidos nucléicos, capazes de catalisar a própria formação a ponto de se acumular e causar doença, lançam um novo desafio terapêutico e questionam o próprio conceito do que é vida.
Junte-se a isso o amplo e extraordinário desenvolvimento de resistência nas bactérias causadoras de infecções comunitárias e hospitalares, e temos alguma noção do tamanho do desafio. Num mundo relativamente bem conhecido e explorado, a grande fonte de surpresa e emoção são os microrganismos, tão antigos e sempre novos.
Dr. Adão R. L. Machado
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