Comissões de Transfusões Hospitalares
Racionalizam o Uso e Otimizam Custos da
Terapêutica Transfusional


Entrevista com o Dr. Edson Hayashi
Membro do Centro de Hematologia de São Paulo e da Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia.
Médico Hemoterapeuta da Colsan/UNIFESP, dos Hospitais São Luiz – Morumbi e Hospital São Leopoldo.
Mestre em Patologia Clínica atuando no Centro de Diagnóstico do Brasil/AFIP.
MBA em Gestão Empresarial - FGV.


Por Cynthia de Oliveira Araujo


ft edson
Dr. Edson Hayashi


Desde a criação do primeiro banco de sangue no mundo, a hemoterapia vem evoluindo muito rapidamente. A preocupação com a contaminação do vírus HIV e da hepatite B e C vem exigindo cada vez mais das instituições de saúde o emprego de tecnologias de última geração, como o NAT (Teste de Amplificação de Ácido Nucléico). E a sorologia passa a ser uma preocupação menor. Hoje, a atenção dos hemoterapeutas volta-se para a imunoematologia, para a escassez do “produto” sangue, seu custo, para a dificuldade de conseguir doadores e às exageradas e desnecessárias indicações transfusionais, que na maioria das vezes são realizadas sem a supervisão de um especialista da área.

Para comentar esses problemas enfrentados no dia-a-dia pelos hemoterapeutas, a revista Prática Hospitalar entrevistou o Dr. Edson Hayashi, membro do Centro de Hematologia de São Paulo e da Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia e médico hemoterapeuta da COLSAN/Unifesp. A seguir, publicamos os destaques da entrevista.

Prática Hospitalar - Como surgiram os primeiros bancos de sangue no mundo?
Dr. Edson Hayashi - Os gregos e romanos já consideravam o sangue importante para a vida. Os gladiadores ingeriam sangue para ficarem mais fortes e corajosos. Em 1492 registrou-se a primeira transfusão de sangue. O Papa Inocêncio VI necessitava de transfusão. Foram então recrutados três jovens doadores. Após a doação do primeiro, houve uma pequena melhora clínica do Papa. O segundo acabou morrendo, provavelmente pelo excesso de retirada de sangue. Nada ocorreu com o terceiro doador, porém o Papa veio a falecer por complicações decorrentes da transfusão incompatível, tornando-se o procedimento proibido e amaldiçoado.

Nos meados de 1900, Karl Landesteiner descobriu que existiam os grupos sangüíneos, e posteriormente, com a descoberta dos anticoagulantes, foi possível iniciar o processo de armazenamento e estocagem. Os primeiros bancos de sangue surgiram no começo do século XX. Em 1926, surge em Moscou o primeiro Centro de Hematologia e Transfusão de Sangue. Em 1937, foi criado o primeiro nos Estados Unidos. Com a Segunda Guerra Mundial, as transfusões de sangue tiveram seu “boom” devido aos grandes traumas e aos acidentes. As transfusões eram feitas em frascos de vidro e as agulhas eram afiadas com uma lima. Eram realizadas do braço elevado do doador diretamente para o do receptor. Não eram realizados os testes pré-transfusionais e nenhum outro exame específico freqüentes hoje em dia. Com o tempo, foram aparecendo as intercorrências e as doenças transmissíveis pelo sangue, contaminações por vírus, bactérias e reações imunológicas.

Hoje em dia, com o avanço tecnológico, a hemoterapia, ou medicina transfusional, como também é conhecida, está bem avançada, principalmente em relação aos exames sorológicos, que passaram a ser obrigatórios. As transfusões são realizadas em bolsas plásticas, as agulhas são afiadas a laser e há uma preocupação crescente com a imunoematologia.

P. H. - No Brasil esta preocupação é a mesma?
Dr. Hayashi - No Brasil, a maioria dos grandes centros de hemoterapia utiliza o que há de melhor em relação à sorologia. Recentemente, foi introduzido em banco de sangue, o Teste de Amplificação de Ácido Nucléico (NAT) para HIV e hepatite C, procedimento no qual pesquisam-se as proteínas dos vírus no sangue, permitindo identificar o vírus antes mesmo que o organismo produza o anticorpo. Antigamente, pesquisavam-se os anticorpos contra as doenças. Caso um doador contraísse uma doença um mês antes de fazer uma doação de sangue, o exame poderia dar negativo, passaria no teste como se não tivesse a doença, ou seja, uma outra pessoa receberia o sangue doado e também a doença.

P. H. - Quando a hemoterapia começou a evoluir?
Dr. Hayashi - Na minha opinião, a hemoterapia realmente começou a evoluir e ter a sua importância prática primeiramente a partir do momento em que se começou a não utilizar sangue total para todos os pacientes e a sua utilização foi mais racional. Hoje, com uma bolsa de sangue total é possível fazer até quatro hemocomponentes, como glóbulos vermelhos, plaquetas, plasma e o crioprecipitado. Em escala industrial é possível adquirir outros derivados. Em segundo lugar, pelas técnicas sorológicas mais precisas e, em terceiro, quando passou a ser um setor de destaque a imunoematologia dentro do banco de sangue.

P. H. -
A que se devem todos esses avanços na hemoterapia?
Dr. Hayashi - Procedimentos como o NAT são decorrentes dos avanços da biologia molecular. No entanto, para que toda essa estrutura funcione precisamente e com o máximo de segurança, é fundamental reconhecer que o trabalho do hemoterapeuta é essencial em todas as instituições de saúde, inclusive para verificar a necessidade ou não das indicações transfusionais. Muitas transfusões de sangue poderiam ser evitadas inicialmente, só orientando corretamente as indicações transfusionais. O doador de sangue deve ser respeitado e no mínimo devemos transfundir “corretamente”, sem esquecer os custos, que têm sido cada vez mais elevados.

P. H. - O que está sendo feito para otimizar esses custos?
Dr. Hayashi - Em alguns hospitais de excelência no país já estão sendo implantadas Comissões de Transfusões Hospitalares. O objetivo é que essas comissões avaliem se as solicitações de transfusão estão sendo indicadas corretamente e eticamente. Elas são imprescindíveis nos hospitais para otimizar custos e diminuir a necessidade de doadores de sangue, que são cada vez mais raros.

No entanto, outras instituições e hospitais do país ainda não deram conta dessa realidade. Estão mais preocupados em contratar um prestador de serviço que ofereça “bolsas de sangue mais baratas” do que ter uma equipe de profissionais capacitados para avaliar a real necessidade do hospital. No final, a instituição acaba pagando mais caro pelo serviço.

P. H. - Como são compostas as Comissões de Transfusões Hospitalares?
Dr. Hayashi - As comissões são formadas pelos profissionais que utilizam sangue dentro do hospital, ou seja, representantes do pronto-socorro, UTI e centro cirúrgico, além de alguns especialistas, como cirurgião cardíaco, ortopedista, cirurgião geral, oncologista, hematologista, hemoterapeuta e a diretoria clínica do hospital.

P. H. - Os médicos conhecem bem os problemas enfrentados pela hemoterapia atualmente?
Dr. Hayashi - Infelizmente, a hemoterapia não tem sido bem abordada pelas faculdades de medicina do país. Os profissionais de saúde graduam-se com pouca noção de hemoterapia e suas implicações. As faculdades deveriam preparar melhor estes profissionais para otimizar e racionalizar o uso dos hemocomponentes.

P. H. - A preocupação com a disseminação do vírus HIV contribui para o avanço da hemoterapia?
Dr. Hayashi - A contaminação pelo vírus HIV contribuiu para que todas os exames diagnósticos ficassem mais eficientes pela crescente preocupação com as doenças transmissíveis pela transfusão. Porém criou-se um problema, o falso-positivo. Às vezes o doador não tem a doença, mas o teste dá reagente, devido à alta sensibilidade. Por segurança e para garantir a qualidade, somos obrigados a descartar muitas bolsas de sangue que poderiam ser utilizadas.

P. H. - Qual o papel da imunofenotipagem hoje?
Dr. Hayashi - A imunofenotipagem é importante para conhecer o “perfil sangüíneo da pessoa”. Principalmente para as pessoas com doenças crônicas e para as que são submetidas a grandes quantidades de transfusões, pois quando entram em contato com um sangue de fenotipagem diferente das suas, criam-se anticorpos impossibilitando-as de receber outras transfusões com aquela característica; conseqüentemente, dificulta-se cada vez mais encontrar bolsas de sangue compatíveis.

P. H. - O senhor acredita que a criação do sangue artificial irá demorar?
Dr. Hayashi - Sim, ainda vai levar algum tempo. Para alguns componentes já existe substituição, como por exemplo a parte líquida do sangue, o plasma, sendo utilizado atualmente em poucas indicações. Para células, como plaquetas, leucócitos e hemácias, ainda não há substituição tecnicamente viável. A solução, volto a repetir, é o uso racional dos hemocomponetes.

P. H. - Os riscos ainda existem?
Dr. Hayashi - A transfusão de sangue mais segura é aquela que não é feita. Hoje os riscos são muito baixos, mas eles existem, mesmo quando a qualidade do sangue é controlada e segura. Antigamente o risco era muito alto, principalmente pela hepatite. Hoje, pela segurança e controle de qualidade dos exames, reagentes de última geração e pelo NAT, é difícil. Em dez anos de profissão, recordo-me de pouquíssimos casos de transmissão de doenças.

P. H. - A falta de doadores também contribui para o encarecimento do sangue?
Dr. Hayashi - A doação de sangue é um grave problema no Brasil. E sempre irá faltar. Se todas as pessoas que pudessem, doassem duas vezes por ano, não faltaria sangue para ninguém. Infelizmente a população não tem esse hábito, havendo um medo cultural. As campanhas de conscientização são necessárias e devem ser freqüentes. Os colegas médicos de outras especialidades poderiam também colaborar, solicitando ao paciente que encaminhe doadores em situações potenciais de transfusões, deixando os estoques do banco de sangue para as urgências.

P. H. - Quais são as propostas para diminuir a necessidade de transfusões de sangue?
Dr. Hayashi - Em primeiro lugar é imprescindível melhorar a formação dos médicos, a fim de que eles saiam das faculdades médicas melhor informados, conhecendo as necessidades de otimizar o uso do sangue, seus hemocomponentes e suas complicações. Além disso, todos os hospitais deveriam ter Comissões de Transfusões Hospitalares para criar protocolos e avaliar melhor as indicações transfusionais.
Congresso Brasileiro de Hematologia e Hemoterapia