Parceria entre Sociedades Científicas Aumenta a
Expectativa em Relação ao Combate do Câncer
Entrevista com a Dra. Nise Hitomi Yamaguchi
Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Cancerologia. Diretora do Instituto Avanços em Medicina.
Coordenadora de Pesquisa do Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho e da
Disciplina de Pneumologia do Hospital das Clínicas.

Dra. Nise Hitomi Yamaguchi |
Humanização, desenvolvimento, conhecimento e trabalho em parceria, estas serão as palavras-chave do XVI Congresso Brasileiro de Cancerologia (CONCAN) e XIII Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica que será realizado de 26 a 30 de novembro em São Paulo.
Com uma minuciosa organização científica e com a presença de renomados profissionais da área do câncer, os temas abordados durante este evento trazem conhecimentos científicos sobre diversas áreas do câncer e muita atualização para os profissionais da saúde.
Os presidentes deste evento são a Dra. Nise Hitomi Yamaguchi e o Dr. André Augusto Júnior Gemeinder de Moraes. Em entrevista à revista Prática Hospitalar, a Dra. Nise fala sobre a parceria entre as sociedades científicas e sobre as novidades do evento. Confira os destaques da entrevista.
P. H. - Qual será o tema central do XVI CONCAN?
Dra. Nise Hitomi Yamaguchi - O Congresso Brasileiro de Cancerologia, que será realizado junto com o Congresso Brasileiro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), tem um grande foco: o ser humano e todas as suas necessidades. Será um congresso onde a humanização é um esteio fundamental para todo o tratamento. Isso acontece através de uma grande parceria com a Sociedade Brasileira de Psiconcologia. Serão ressaltados temas como ética, pesquisa, relação médico e paciente, elaboração da verdade e o apoio emocional e espiritual ao paciente com câncer. Tudo isso em conjunto com muita ciência, ou seja, teremos, também, novas técnicas de tratamento e novas abordagens estratégicas, como por exemplo fazer um bom diagnóstico, avaliações críticas com relação a marcadores tumorais. No entanto, existe uma grande preocupação com o aspecto multidisciplinar. Teremos a participação da Sociedade Brasileira de Radioterapia, da Sociedade Paulista de Mastologia, e com o apoio da Sociedade Brasileira de Mastologia haverá um simpósio internacional de câncer de mama com os melhores speakers mundiais falando sobre câncer de mama. Além disso, teremos o grupo brasileiro de melanoma, trazendo experiência de melanoma e câncer de pele. A Associação Brasileira de Dor e Cuidados Paliativos fará um painel sobre cuidados paliativos e tratamento da dor oncológica. A Sociedade Brasileira de Enfermagem Oncológica fará um 2º Encontro Nacional de Enfermagem Oncológica e várias sociedades terão um grande espaço neste evento de muita interatividade. Com isso, faremos desta parceria entre as sociedades um encontro de conhecimentos que possa culminar na melhor abordagem do paciente com câncer. Além disso, teremos o encontro de voluntariados na área de câncer e o encontro das entidades filantrópicas falando sobre aspectos estruturais destas entidades.
Acredito nesta multidisciplinaridade. Não somos, enquanto médicos de uma especialidade, os donos absolutos da verdade, muito pelo contrário, dependemos do conhecimento do patologista, do biologista molecular, do cirurgião, do radioterapeuta, do psicólogo, da enfermagem, etc. Obviamente, a prevenção também precisa e terá um grande espaço neste evento.
P. H. - E quanto à participação governamental?
Dra. Nise - Estamos com uma boa interface com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), com o Ministério da Saúde e com organizações mundiais, na busca de uma melhor compreensão de fatores que causam câncer.
Teremos ainda uma conferência da SOAD (Escritório Sul-Americano de Desenvolvimento de Medicações Antineoplásicas) e a idéia é que possamos nesta conferência magistral prestigiarmos um brasileiro ou um latino-americano de renome internacional que tenha contribuído na área do câncer. Neste ano estaremos homenageando o Dr. Paulo Hoff, grande luminar da pesquisa do câncer colorretal mundial, que acaba de voltar ao M.D. Anderson Cancer Center, depois de ter passado uma temporada no Brasil. Estaremos, também, homenageando pessoas do Brasil que tenham contribuído com a cancerologia brasileira e os melhores trabalhos científicos que serão apresentados neste evento. Acredito que desta forma estaremos estimulando estudantes, residentes e médicos especialistas.
P. H. - Qual o público-alvo do evento e expectativa de participantes?
Dra. Nise - Esperamos atingir todos os médicos que trabalhem com câncer em todas as áreas. Contamos com a participação de especialistas de outras áreas, tais como ginecologistas, mastologistas, cirurgiões, pediatras, clínicos em geral, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos e um grande grupo de voluntariado. Esperamos cerca de 2.000 participantes no evento.
P. H. - Qual o objetivo primordial deste evento?
Dra. Nise - Criar a consciência de que o câncer é uma doença curável se bem tratada, que novas estratégias são bem-vindas e que o desenvolvimento científico está ligado à cancerologia, pois é uma das áreas que mais produzem em termos de ciência. Iremos trazer médicos de renome nacional e internacional na busca de um grande congraçamento de toda a comunidade científica brasileira e internacional.
P. H. - Quais os principais pontos que serão abordados no evento?
Dra. Nise - Teremos um curso de oncogenética, terapias com alvos moleculares, vacinas em câncer, um curso de radioterapia baseado no Congresso Americano de Radioterapia, atualização em cirurgia e em tratamentos quimioterápicos avançados, medicações orais e medicações de suporte. Todos estes aspectos dentro de uma busca de qualidade de vida para o paciente com câncer.
P. H. - Haverá alguma mudança neste XVI CONCAN em relação às suas versões anteriores?
Dra. Nise - A Sociedade Brasileira de Cancerologia vem em um processo de crescimento e este Congresso reflete este momento auspicioso. Acrescido a isto, presidir um Congresso de Cancerologia em conjunto com o Dr. André Moraes tem sido bastante construtivo, dada a sua capacidade de trabalho, de organização e a sua vontade de realizar juntos algo que seja um exemplo para as Sociedades em termos de união de forças.
A realização do Congresso conta ainda com a participação do Governo do Estado de São Paulo e da FAPESP, do Governo Federal e do CNPq, do Parlatino através do Deputado Ney Lopes, a pedido do Deputado Arlindo Chinaglia, e de toda a comunidade oncológica.
P. H. - Quais novidades terapêuticas serão abordadas no evento?
Dra. Nise - Iremos abordar a terapia com alvos moleculares, tais como os inibidores de receptores de fatores de crescimento, inibidores de tirosina quinase, anticorpos monoclonais, as vacinas, hormonioterapias modernas, quimioterapia primária, quimioterapias orais, medicações antiangiogênicas e indutores de apoptose. Uma outra área importante é a dos recursos diagnósticos, onde a medicina nuclear tem hoje uma grande participação. Estaremos discutindo as utilidades do PET-scan, dos mapeamentos com gálio, lutécio, sestamibi, além dos tratamentos com radioimunoterapia, onde anticorpos monoclonais unidos a Ytrium e outros agentes radioisotópicos podem ter uma importante participação na terapêutica de linfomas.
P. H. - Qual a situação da cancerologia brasileira em relação à cancerologia de outros países?
Dra. Nise - O Brasil é um país de contrastes: ao mesmo tempo que temos grandes nomes internacionais, pesquisadores com uma criatividade extraordinária e muitos hospitais bem equipados com recursos tecnológicos e humanos, ainda se morre muito de doenças passíveis de prevenção, o que é inconcebível. Continuamos tendo um aumento no número de tumores que não deveriam mais ser tão freqüentes, como por exemplo aqueles decorrentes do tabagismo. A prevenção do colo de útero ainda é insuficiente, apesar dos esforços governamentais e da sociedade civil, e ainda se morre muito de doenças de países subdesenvolvidos. Precisamos conquistar o nosso espaço, tanto em publicações internacionais como em acesso a diagnóstico precoce e aos melhores tratamentos. Acredito que as parcerias que a Sociedade Brasileira de Cancerologia tem estabelecido com a sociedade civil, como por exemplo com o Insituto Karmanos de Detroit e a Compuware na área da prevenção, a FIESP e as escolas promotoras de Saúde, bem como com a participação do Itaú Cultural no lançamento da Rede Brasileira de Cancerologia, nos dão a esperança de que muito pode ser feito de forma concatenada e transparente.
P. H. - Qual sua expectativa futura em relação ao tratamento do câncer?
Dra. Nise - Acredito na ciência. Acredito na possibilidade infinita do conhecimento humano de gerar estratégias definitivas no combate ao câncer. Obviamente desejamos que o câncer seja diagnosticado muito precocemente. Gostaria que as pré-neoplasias pudessem ser revertidas. Então, precisamos tratar a doença antes dela ocorrer, ou seja, analisar a região do organismo em que ela está predisposta a ocorrer e buscarmos modificar este ambiente e induzir a destruição das células tumorais. E, se houver um câncer já estabelecido, que tenhamos armas inteligentes que danifiquem pouco o organismo e que possam realmente trazer a cura. Acho que minha expectativa é a cura, mas só poderemos conseguir isso se trabalharmos em conjunto e o mundo todo em uníssono, deixando os egos de lado, e fazendo o que pudermos para a melhoria do conhecimento científico e do trabalho médico.
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