Desafios em Medicina de Urgência:
Despreparo Profissional e Alta
Incidência de Morte


Entrevista com o Dr. Sergio Timerman
Diretor do Departamento de Medicina de Urgência da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.
Presidente da Fundação Interamericana do Coração e Chair da Parte de Desfibrilação do Incor.


Por Luciana Rodriguez


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Dr. Sergio Timerman


O I Congresso Internacional de Medicina de Urgência será um dos eventos que acontecerão durante o VII Congresso Brasileiro de Clínica Médica, com realização de 30 de outubro a 2 de novembro. O I Simpósio Nacional de Cuidados Paliativos e o I Congresso Internacional de Medicina de Família também fazem parte da programação deste grande evento.

O congresso de medicina de urgência contará com renomados palestrantes nacionais e internacionais, que debaterão sobre diferentes assuntos da área de emergência. Entre eles, serão abordadas emergências cardiovasculares, respiratória, em aparelho digestivo, em infectologia, em neurologia, em situações especiais e transporte aeromédico.

O Dr. Sergio Timerman, Presidente da Comissão Científica de Medicina de Urgência, falou à Prática Hospitalar sobre a situação atual da medicina de urgência no Brasil e abordou algumas das questões que farão parte da programação científica do I Congresso Internacional de Medicina de Urgência. Veja a seguir as declarações do especialista.

Prática Hospitalar - Qual a situação do Brasil em medicina de urgência atualmente?
Dr. Sergio Timerman - A medicina de urgência no Brasil sempre foi relegada ao segundo plano, principalmente quando tratamos do ponto de vista clínico. Apesar de termos os piores e mais alarmantes índices de mortalidade em emergências, os nossos governantes tratam esta especialidade de maneira muito burocrática.

Uma das razões de estarmos trabalhando dentro da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM) diretamente ligados ao Departamento de Urgência é poder contar com uma instituição íntegra e forte, que pode ajudar a modificar um pouco a visão política em relação à emergência.

No entanto, tem-se falado mais em medicina de urgência nos últimos anos e a preocupação dos hospitais tem aumentado em relação à uniformização nesta especialidade. Existem, atualmente, várias faculdades que têm como disciplina a medicina de urgência e foi a SBCM quem incentivou para isso acontecer. Além disso, temos o Conselho Nacional de Ressuscitação, que tem apoiado totalmente a divulgação e a formação de centros de treinamento das emergências cardiovasculares.

Contudo, ainda faltam no Brasil uma boa legislação em emergência e que os profissionais de saúde entendam o papel do emergencista, que é um médico de apoio dentro dos hospitais, de tal forma que os outros médicos receberão pacientes em melhores condições para tratar, seja em unidades coronarianas, unidade de terapia intensiva ou mesmo ambulatório. Assim, pacientes com melhores condições de vida têm redução no tempo de hospitalização e temos ganho do ponto de vista farmacoeconômico e saúde pública do nosso país.

P. H. - Qual a postura dos hospitais em relação à medicina de urgência?
Dr. Timerman - Com o advento dos cursos de suporte básico e avançado em cardiologia nos últimos sete anos, e com as novas diretrizes em emergência que se tornaram mundiais em 2000, há uma maior preocupação dos médicos e profissionais de saúde em geral quanto ao problema da urgência e emergências médicas. Os hospitais não tinham tanta preocupação com o cuidado em relação às emergências, mas estamos percorrendo um caminho que mostrará que um bom serviço médico de um hospital começa pelo pronto-socorro.

P. H. - Como o senhor analisa a postura dos profissionais da saúde em relação à medicina de urgência?
Dr. Timerman - Em países da Europa e nos EUA, a medicina de urgência é tida como uma das especialidades mais importantes e é muito bem administrada pelos que cuidam da saúde nestes países. No Brasil, isso não acontece, mas estas características estão sendo modificadas. A grande dificuldade é que não existem médicos preparados para exercer a medicina de urgência. O médico brasileiro começou a se preparar faz pouco tempo. O conceito de emergência tem sido modificado, mas eu diria que ainda existem várias barreiras a ser quebradas. A emergência é uma parte da clínica médica utilizada naquele momento crucial do ser humano. Precisamos de profissionais que tenham uma visão holística e abrangente. Hoje, são os médicos que saem completamente despreparados das escolas e amanhã estes profissionais despreparados estarão nos hospitais.

Os emergencistas ficam relegados ao segundo plano, não porque existe um preconceito, mas sim devido à desinformação sobre a medicina de urgência. Quando falamos em emergências, temos um conceito interdisciplinar e multidisciplinar. Os médicos emergencistas acabam sendo muito competentes e com uma visão clínica privilegiada. Temos que mostrar que o emergencista é uma formação de grande importância. A SBCM enxergou isto e foi a pioneira em trazer esta especialidade para o Brasil e o título em médico de urgência que é reconhecido pela Associação Médica Brasileira (AMB).

P. H. -
Qual o papel do emergencista na cardiologia?
Dr. Timerman - O emergencista tem um papel muito importante. O infarto agudo do miocárdio, por exemplo, é uma doença de pronto-socorro, uma doença pré-hospitalar; assim, o médico da unidade coronariana, ou mesmo o intensivista, só irão finalizar o atendimento, pois quem o promove é o emergencista.

P. H. - Como o senhor analisa a evolução da medicina de urgência ao longo dos anos?
Dr. Timerman - Têm acontecido várias mudanças clínicas ao longo dos anos. Provavelmente, em agosto de 2005 serão publicadas novas diretrizes em emergência, as maiores já feitas nesta área.

Uma importante evolução ocorreu em 1997 quando fizemos uma aliança médica com a International Liason Committee on Ressuscitation (ILCOR) (Aliança Internacional dos Comitês de Ressuscitação e Emergências Cardiovasculares). Renomadas organizações internacionais assinam o ILCOR, tais como Conselho Europeu de Ressuscitação, American Heart Association, Fundação Interamericana do Coração, Conselho de Ressuscitação da África Meridional, Conselho Australiano e Neozelandês de Ressuscitação e Conselho Asiático de Ressuscitação. (ver box)

P. H. - O que será abordado durante o I Congresso Internacional de Medicina de Urgência?
Dr. Timerman - Serão apresentadas novidades terapêuticas e no atendimento de emergências. Teremos dois importantes convidados internacionais, Wachung Tang e Nabil El Sanadi que falarão, respectivamente, sobre o que há de novo em equipamentos, técnicas e farmacologia na parada cardíaca e novidades de atendimento a bioterrorismo. Além disso, haverá cursos pré-congresso, sobre, por exemplo, ataque cerebral e síndromes coronárias agudas. O evento terá, também, um Projeto Nacional de Educação Continuada em Trombólise, onde mostraremos a maneira como se deve agir no infarto agudo do miocárdio, entre outros.

Estaremos falando com o público da SBCM e teremos como colaboradores os melhores profissionais do país. Queremos oferecer ao clínico geral a oportunidade de se aprimorar e de se aprofundar a respeito do assunto emergências. Este congresso será do interesse desde os profissionais que estão iniciando até aqueles de carreira mais graduada.

P. H. - Quais serão os temas em emergência cardiovascular?
Dr. Timerman - Os temas abordados serão principalmente a síndrome coronária aguda, o infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e atendimento no caso da parada cardíaca.


Aliança Internacional dos
Comitês de Ressuscitação


O ILCOR tem a missão de unificar o consenso científico em ressuscitação cardiopulmonar e o atendimento de emergências cardiovasculares no mundo. Já publicou diversos relatórios e recomendações que produziram grandes avanços científicos nesta área, tais como a publicação dos modelos unificados de registro de atendimento a uma parada cardiorrespiratória em ambiente pré-hospitalar, hospitalar e em laboratório de pesquisa. Esse foi um dos mais importantes passos na pesquisa em ressuscitação cardiopulmonar, pois até então os trabalhos baseavam-se em parâmetros variáveis e tornava-se difícil a comparação de métodos e resultados.

A mais importante atitude do ILCOR, no entanto, foi a publicação em 2000 das Diretrizes Internacionais em Ressuscitação Cardiopulmonar e Atendimento Cardiovascular de Emergência pelo Circulation e pelo Resuscitation. Esse foi um fato inédito em ciência médica. Pela primeira vez uma diretriz de conduta médica e tratamento baseada em ciência e em evidência tinha caráter internacional, ou seja, tinha o aval de especialistas e cientistas da ressuscitação de todo o mundo, e deveriam nortear a ressuscitação e o atendimento cardiovascular de urgência em todos os países que compunham o ILCOR.