Controle de Infecção Fora do Hospital


Entrevista com o Dr. George Meira Trigueiro
Presidente da ABIH – Associação Brasileira dos Profissionais em Controle de Infecção e Epidemiologia
Hospitalar. MBA em Gestão e Organização de Hospitais.Universidade Politécnica de Valência – Espanha.
Médico em Ginecologia /Obstetrícia. Presidente das CCIHs do Centro Hospitalar Albert Sabin e
Maternidade Professor Bandeira Filho, de Recife, PE.



Por Luciana Rodriguez


ft trigueiro
Dr. George Meira Trigueiro


Com a atual tendência mundial da desospitalização, tem havido um crescimento na assistência domiciliar, ou home care, no atendimento ambulatorial e no atendimento da comunidade. Embora o paciente que permanece menos tempo no hospital corra menos riscos de adquirir infecção intra-hospitalar, existem várias situações que precisam ser evitadas para prevenir as infecções no ambiente domiciliar ou ambulatorial.

Houve um aumento da expectativa de vida nos últimos anos e uma queda da fecundidade da mulher; com isso, a estrutura etária do país foi modificada e o número de idosos, no Brasil, assim como em todo mundo, tende, a longo prazo, a se tornar igual ou maior do que o número de jovens. Por esta razão, o atendimento home care, cujos pacientes são 50% idosos, tem crescido gradativamente.

Em entrevista à Prática Hospitalar o Dr. George Meira Trigueiro aborda o controle de infecções fora do hospital nos atendimentos home care, ambulatorial e na comunidade, além de ressaltar as infecções mais comuns fora do ambiente hospitalar. Confira a seguir as declarações do especialista na íntegra.

ASSISTÊNCIA DOMICILIAR

Segundo o Conselho Nacional de Saúde Pública da Holanda, a definição de atendimento domiciliar é “atenção médica, cuidados de enfermagem e de outros profissionais, tratamento e outros tipos de suporte promovidos no domicílio, autocuidado, cuidado informal pela família e amigos, trabalho voluntário ou serviços profissionais, propósito específico de capacitar os recebedores desses cuidados a continuar vivendo em suas próprias casas”.

A assistência domiciliar tem como alvo pacientes crônicos, com doenças degenerativas, terminais ou mesmo pacientes em fase de recuperação pós-cirúrgica, que são mais favorecidos com uma recuperação em casa do que no próprio hospital.

O mercado destas empresas que prestam home care está crescendo muito no Brasil, talvez devido à população estar envelhecendo em virtude do aumento da expectativa de vida, do desenvolvimento técnico-científico e da queda da fecundidade da mulher brasileira. Em 1950, em sua grande maioria as pessoas eram jovens e tinham pouca expectativa de vida, mas esta situação mudou. A previsão para 2020 é de quase o dobro do número de idosos em relação ao número de jovens. A tendência é que os idosos precisem de mais cuidados assistenciais em domicílio. Existem, inclusive, profissionais que estão formando equipes de atendimento home care com farmacêuticos, psicólogos, fisioterapeutas, entre outros profissionais.

Em home care é necessário que seja feito um levantamento das necessidades para o atendimento e deve-se considerar primordial o entrosamento da família com o paciente e reduzindo riscos de infecções.

O home care deve ser uma continuação dos cuidados recebidos no hospital. O suporte começa com o médico, a enfermeira, o cuidador (orienta em cuidados como lavagem de mãos, alimentação e higienização do paciente) e suportes fisioterápicos, respiratório, medicamentoso, laboratorial e radiológico.

ATENDIMENTO AMBULATORIAL

Outra questão importante é o atendimento ambulatorial; principalmente no que se refere às cirurgias, este atendimento tem crescido muito. No atendimento ambulatorial existe a preocupação com procedimentos invasivos. Sabemos, por exemplo, que em serviços de endoscopias já ocorreram alguns casos de surtos por Pseudomona, devido a contaminação dos tanques de lavagem dos endoscópios. Por isso, deve haver um treinamento adequado em ambulatórios e a participação da CCIH, que pode ser a do hospital ao qual o serviço está vinculado, consórcio com outros serviços ou consultoria externa, para o controle de infecções neste tipo de atendimento.

ATENDIMENTO NA COMUNIDADE

O atendimento na comunidade é outra grande preocupação. Hoje, o Programa de Saúde da Família é uma prioridade do Ministério da Saúde. Este programa é de ação preventiva e de promoção da saúde, mas também tem ação curativa e realiza procedimentos, cuidados e ensino na comunidade. Tem crescido a quantidade de pessoas atendidas por este programa e que tende a crescer cada vez mais. Hoje, 38 milhões de pessoas têm assistência da medicina complementar, ou seja, dos planos de saúde; o restante da população depende do Sistema Único de Saúde (SUS). Algumas prefeituras estão implantando o home care no SUS, mas acredito que a melhor forma de chegar à população seja através do Programa de Saúde da Família.

No atendimento na comunidade é muito importante que os agentes comunitários de saúde, ou seja, as pessoas que visitarão a comunidade ou que estarão em postos de saúde, estejam capacitados. Para isso elaboramos um Programa de Capacitação em Controle de Infecção para Agentes de Saúde, que tem como um de seus objetivos identificar infecções em domicílios. O treinamento destes profissionais é imprescindível para um bom atendimento, mesmo porque temos que tratar os pacientes como se eles estivessem sendo tratados no hospital. Outro ponto fundamental é a capacitação da família no cuidado com o doente, pois ela tem um papel decisivo na sua recuperação.

INFECÇÕES COMUNS

Fora do ambiente hospitalar, em pacientes idosos e com doenças crônicas, as infecções mais freqüentes são as urinárias e as respiratórias. Isso requer um acompanhamento constante em virtude de estar sendo utilizados antimicrobianos. Assim, os antibióticos devem ser utilizados com racionalidade, da mesma maneira que fazemos no hospital, porque a bactéria desenvolve resistência dentro de um hospital, mas pode, também, adquirir resistência no ambiente domiciliar.

Às vezes, temos casos de pacientes levados para casa com infecção contraída do hospital, mas também temos casos de pacientes que adquirem infecções comunitárias, principalmente a pneumonia ou infecção urinária, que se não forem devidamente tratadas vão criando resistência. Hoje, sabemos que Meningococcus, Gonococcus, Escherichia coli e, por fim, Staphylococcus aureus, desenvolveram resistência à oxacilina e resistência intermediária à vancomicina através do ambiente domiciliar.

CULTURA E ANTIBIOGRAMA

Na verdade, o ideal seria tratarmos de qualquer infecção a partir de cultura, ou seja, realizarmos o antibiograma e analisarmos qual a sensibilidade do microrganismo. Evidentemente, de acordo com o tratamento empírico, no caso, por exemplo de Staphylococcus, inicialmente o ideal seriam, ampicilinas, cefalosporinas e oxacilinas, mas já existem cepas resistentes (MRSA) a estas drogas; desta forma, temos que recorrer a antimicrobianos de amplo espectro e às vezes até à vancomicina, à qual também algumas bactérias já adquiriram resistência (VRE; VRSA). O critério de se usar antibiótico de maneira racional deve ser estabelecido de acordo com a cultura do antibiograma, assim definimos a melhor opção terapêutica.

MEDIDAS DE CONTROLE

Dentre as medidas de controle de infecções fora do hospital, temos as mesmas prevenções utilizadas em hospitais, tais como biossegurança, precauções com infecções cruzadas ou com o próprio ambiente domiciliar, preocupações com a equipe de saúde e com os resíduos sólidos produzidos nos serviços de saúde ou no domicílio (“lixo hospitalar”) e uma preocupação especial com o treinamento das pessoas que vão cuidar destes pacientes. Tem que haver a consciência de que a pessoa tratada em casa precisa receber os mesmos cuidados como se estivesse sendo tratada no hospital. A manutenção da esterilidade dos equipamentos respiratórios, por exemplo, tem que ter o mesmo cuidado que recebe no hospital.

Para diminuir fatores de risco de infecções fora dos hospitais é importante analisar: condições sanitárias, rede de esgoto, higiene do paciente, equipamentos, exposição do doente ao clima (calor, frio, vento poeira, etc.), insetos, roedores, infecção por outros membros da família, etc.

O objetivo principal do Controle de Infecção Fora do Hospital é desenvolver ações efetivas semelhantes às dos serviços de saúde, tendo como missão a Teoria dos 3 Ts: TREINAR; TRATAR E TERMINAR.

“ O que nós precisamos entender é que cada problema força a busca de sua solução” (Herbert London – World Future Society – 1999).