Controle de Infecção:
Necessidade de Novos Conceitos
Entrevista com a Dra. Adélia A. Marçal dos Santos
Gerente da ANVISA na Área de Investigação e Prevenção das
Infecções e dos Eventos Adversos em Serviços de Saúde.

Dra. Adélia A. Marçal dos Santos |
Prevenindo a disseminação de microrganismos, a lavagem de mãos tem sido uma das mais importantes medidas de controle das infecções relacionadas à assistência. No entanto, a desinformação do profissional da saúde em relação aos processos de higienização adequados tem reduzido a eficácia dessa ação e a adesão a este método simples e extremamente importante no controle de infecções. Outro fator que influi negativamente é a falta de qualidade e disponibilidade dos materiais necessários para os procedimentos, tais como papel-toalha, sabão líquido, anti-séptico e, obviamente, pias limpas e com dimensões adequadas. Além disso, racionalizar o tempo dispensado para a higienização das mãos tem sido um grande desafio para os profissionais.
Estas questões foram enfocadas pela Dra. Adélia A. Marçal dos Santos, em entrevista à revista Prática Hospitalar. Outro importante assunto ao qual a médica se referiu foi o papel da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e das Comissões de Controle de Infecções na prática das ações de prevenção nos serviços de saúde.
PROCEDIMENTOS ADEQUADOS
Ao falarmos sobre a situação da prática da higienização das mãos no contexto atual do controle de infecção no Brasil, temos como subsídio apenas poucos trabalhos isolados realizados em hospitais de referência. Entretanto, as informações obtidas em estudos nacionais não são muito diferentes dos resultados observados em outros países, no que se refere à adesão à essa prática.
Em relação aos processos de higienização, que compreendem a lavagem das mãos com água e sabão comum ou com sabão anti-séptico e a fricção com soluções alcoólicas, existe no país, ainda, um certo desconhecimento sobre as possibilidades e alternativas que podemos oferecer aos profissionais para aumentar a motivação, como a difusão do conhecimento sobre a necessidade da higienização; o provimento, sem interrupções, dos insumos necessários para que a execução do procedimento seja próxima ao local de realização das atividades que demandam higienização e, por fim, o desenvolvimento de processos que preservem o tempo do profissional.
Esta situação é bastante heterogênea no país. Alguns hospitais e serviços de saúde já incorporaram o conhecimento de que higienizar as mãos é muito mais que simplesmente lavá-las com água e sabão. Nesses serviços, a cultura da racionalização das mãos já foi incorporada e o uso de substâncias à base de álcool obteve como resultados a economia de tempo e uma maior adesão dos profissionais. Por outro lado, vários serviços de saúde dispõem apenas da lavagem das mãos com água e sabão e parecem não perceber que essa tecnologia simples previne infecções e deve ser o grande foco de atenção de seus gestores.
A higienização das mãos, com aplicação de soluções à base de álcool, ficou conhecida, durante muito tempo, apenas como uma opção a ser utilizada quando não houvesse disponibilidade de pia com água corrente para lavá-las. Na atualidade, esta indicação não é considerada adequada. Para compreender o motivo da mudança, é necessário relembrar os resultados que são obtidos com cada técnica.
A lavagem das mãos com água e sabão comum promove a remoção mecânica de sujidades presentes na pele, sem um efeito direto na redução de microrganismos. A lavagem das mãos com sabão anti-séptico, além de promover arrastamento de sujidades e de microrganismos, acentua a redução na carga microbiana por sua ação letal sobre a microbiota residente.
Já a higienização das mãos sem a água, obtida pela fricção de soluções alcoólicas na pele, possui grande eficácia na redução da carga microbiana, mas não promove arrastamento de sujidade.
Dessa forma, podemos entender que em alguns momentos será essencial lavar as mãos, para retirar sujidade, e, em outros casos, não será necessário lavá-las, podendo-se apenas proceder à higienização com soluções à base de álcool. Essa última condição corresponde a cerca de 80% das oportunidades de higienização geradas durante um turno de trabalho de um profissional da área de saúde.
Por outro lado, se as mãos apresentarem sujidade visível ou umidade, é necessário lavá-las, pois neste caso apenas a aplicação do álcool não será suficiente.
QUALIDADE DO ÁLCOOL
O álcool é essencialmente a primeira escolha para a higienização das mãos. Entretanto, há um desconhecimento praticamente generalizado de que esse produto, para ser utilizado na pele, precisa ter uma pureza química e de formulação que são garantidas pelo seu registro no Ministério da Saúde.
De acordo com a legislação atual, produtos à base de álcool têm sido registrados como medicamento, cosmético, ou saneante, de acordo com a finalidade a que se destina. Os dois primeiros registros são concedidos a produtos indicados para o uso em pessoas. Já o álcool saneante deve ser utilizado apenas para a limpeza do ambiente hospitalar, sendo proibida sua aplicação em seres vivos, pois, para esse produto, os requisitos de qualidade e de pureza exigidos são suficientes para a aplicação em superfícies inanimadas, mas não o tornam confiável ou seguro para ser aplicado na pele.
Mesmo usando o álcool adequado, existem algumas considerações que devem ser lembradas ao profissional da saúde, tais como: o álcool não é apropriado como anti-séptico quando as mãos estão visivelmente sujas; a quantidade da solução alcoólica aplicada deve ser suficiente para cobrir toda a pele, permanecendo por pelo menos 15 segundos sem evaporar; cuidados devem ser tomados para evitar a contaminação das soluções durante a fabricação, a manipulação e o uso.
BAIXA ADESÃO
Vários estudos de comportamento mostram que a não higienização das mãos está relacionada principalmente à falta de tempo dos profissionais da saúde, pois os processos de trabalho que mais demandam higienização das mãos coincidem com os picos de sobrecarga de trabalho, assistência a pacientes em terapia intensiva e assistência simultânea a vários pacientes. Nessas circunstâncias, a pressão é grande e a higienização das mãos fica esquecida.
Apesar da falta de tempo ter sido apontada como o principal fator para a não-adesão à higienização das mãos, existem também outros componentes que dificultam essa prática, como a falta de estímulo e a ausência de material disponível para a correta higienização. Às vezes, o profissional sai de onde está desenvolvendo suas atividades para lavar as mãos e, chegando ao local das pias, verifica que não há sabão ou que a pia está suja. Foi observado que isso influencia negativamente nas decisões tomadas nas próximas vezes em que o profissional necessita lavar as mãos.
O ideal é que existam pias de fácil acesso ao profissional, limpas e com todos os acessórios e insumos sempre disponíveis e de boa qualidade. Nesse contexto, uma grande vantagem é o baixo custo e simplicidade apresentados pelo álcool, uma vez que pode ser distribuído estrategicamente, em dispensadores para gel alcoólico ou formulações líquidas, próximo aos locais onde são realizadas as atividades assistenciais.
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| A ANVISA E AS COMISSÕES DE CONTROLE |
As Comissões de Controle de Infecção Hospitalar (CCIHs) foram criadas com o objetivo de implementar os programas de controle de infecção nos hospitais, mas nos dias de hoje elas estão saindo de dentro dessas instituições para atuarem, também, em ambulatórios, na assistência domiciliar, nos serviços de diálise, em clínicas odontológicas.
As CCIHs são extremamente importantes para os programas de controle de infecção dos hospitais funcionarem. Elas dão coesão aos programas dentro dos hospitais, mas as ações de prevenção são executadas essencialmente pelos profissionais da assistência e de apoio. Portanto, todos os profissionais de saúde precisam estar envolvidos no programa de controle de infecção, para que este se torne efetivo. O envolvimento cada vez maior do corpo assistencial no desenvolvimento do programa de controle de infecções da instituição, planejamento das prioridades, confecção de rotinas técnicas e protocolos é uma estratégia que vem sendo cada vez mais freqüente nas CCIHs. Essa é uma proposta que vem sendo muito estimulada pela ANVISA.
Com o foco em sua missão, que é a assistência às pessoas por intermédio de ações de promoção, proteção e recuperação da Saúde com realização integrada das ações assistenciais e das atividades preventivas, a ANVISA vem exercendo um papel essencial para o funcionamento das CCIHs, por desenvolver regulamentações e recomendações, que serão utilizadas em todos os Estados e municípios do país.
Entre as competências da ANVISA estão a definição de diretrizes para o controle de infecção e o monitoramento de indicadores de controle de infecção em todo o país, acompanhando e investigando eventos adversos relacionados a medicamentos, sangue e hemoderivados, produtos e tecnologias usados na assistência à saúde. A tecnovigilância, a farmacovigilância e a hemovigilância já são uma realidade no país e contribuem para o monitoramento das infecções, com uma interface muito próxima às CCIHs.
Em relação ao controle de infecção, o papel da ANVISA evoluiu para o desenvolvimento de diretrizes que permitem unificar o monitoramento e prevenção de eventos adversos em saúde, ente eles as infecções relacionadas à assistência, o que possibilita detecção precoce desses problemas, com o objetivo de implementar medidas de controle oportunas em todo o território nacional.
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