Infecções Fúngicas:
Mudanças no Cenário Epidemiológico



Infecções fúngicas representam um grande desafio para profissionais da área de saúde que trabalham em hospitais terciários. Micoses oportunísticas respondem hoje por parcela significativa de complicações infecciosas documentadas em pacientes submetidos a procedimentos médicos invasivos, expostos a antibióticos de amplo espectro, drogas imunossupressoras, bem como em indivíduos portadores de doenças degenerativas ou neoplásicas.

Dados obtidos em hospitais dos Estados Unidos mostram que Candida spp responde por cerca de 8% a 10% do total de infecções de corrente sangüínea com documentação microbiológica. Por outro lado, dados de necropsia mostram que 5% a 25% dos pacientes com câncer morrem com evidência de envolvimento de vísceras por agentes fúngicos, particularmente Candida spp e Aspergillus spp. Em pacientes submetidos a transplantes de órgãos, 3% a 20% podem evoluir com infecções fúngicas invasivas, na dependência do órgão transplantado, assim como da ocorrência de episódios de rejeição após transplante. Importante observar que a mortalidade associada a tais micoses em pacientes imunocomprometidos é da ordem de 40% a 100%.

Além da maior ocorrência de micoses invasivas documentadas em diferentes serviços médicos, outro aspecto importante a ser considerado na epidemiologia atual das infecções fúngicas é o número crescente de espécies de fungos que vem sendo documentado entre as infecções oportunísticas. Houve um aumento substancial nas infecções invasivas causadas por espécies não-albicans de Candida, incluindo C. tropicalis, C. parapsilosis, C. glabrata e C. krusei. Tais infecções apresentam peculiaridades de história natural, assim como de suscetibilidade a antifúngicos. Resistência a fluconazol e itraconazol tem sido descrita com isolados de C. glabrata e C. krusei. Entre infecções por fungos filamentosos, micoses sistêmicas por Fusarium spp, Scedosporium spp, Paecilomyces spp, Penicillium spp e outras hialoifomicoses vêm sendo progressivamente documentadas, particularmente entre pacientes com doenças hematológicas malignas ou receptores de transplante de órgãos. Micoses por tais agentes são muitas vezes refratárias à terapêutica com antifúngicos convencionais, mesmo quando utilizamos diferentes formulações de anfotericina B.

Felizmente, esse novo panorama epidemiológico foi acompanhado do desenvolvimento de novos recursos diagnósticos e terapêuticos. Na área diagnóstica, avanços relevantes foram obtidos no aprimoramento de métodos de hemocultura, assim como de métodos diagnósticos não dependentes de cultivo, incluindo a pesquisa de antígenos específicos por ensaios imunoenzimáticos ou mesmo a identificação de material genético de fungos em material biológico, através de técnicas de PCR. Vale também salientar a padronização de testes de suscetibilidade a antifúngicos, particularmente para leveduras do gênero Candida spp.

Novas drogas antifúngicas estão em avaliação clínica, oferecendo vantagens significativas na terapêutica das micoses oportunísticas. Entre estas drogas, vale mencionar o desenvolvimento de nova classe terapêutica representada pelas equinocandinas, assim como dos novos triazólicos de segunda geração.

Os dados apresentados mostram que houve modificação substancial no cenário epidemiológico das infecções fúngicas, assim como nos recursos disponíveis para seu diagnóstico e tratamento. É fundamental que clínicos de diferentes especialidades médicas que lidam com pacientes de risco para tais infecções preocupem-se em se familiarizar com essa nova realidade, para que possam oferecer a seus pacientes maiores chances de sobrevida.


Prof. Dr. Arnaldo Lopes Colombo