ESO Completa 20 Anos e Realiza Curso
sobre Novas Estratégias na
Terapia contra o Câncer
Entrevista com o Prof. Dr. Gilberto Schwartsmann
Membro da Academia Nacional de Medicina.
Docente da Faculdade de Medicina da UFRGS e da Universidade Luterana.
Presidente da Fundação SOAD de Pesquisas do Câncer.
Membro do Comitê de Programas da American Society of Clinical Oncology (ASCO).
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Por Cynthia de Oliveira Araujo
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Dr. Gilberto Schwartsmann |
Em comemoração aos 20 anos de sua fundação, a European School of Oncology (ESO) realizará entre os dias 7 e 8 de novembro, na Academia Nacional de Medicina, na cidade do Rio de Janeiro, o curso New Strategies in Anticancer Therapy. O evento será gratuito e uma excelente oportunidade para atualização científica e a troca de experiências de especialistas brasileiros com um seleto grupo de palestrantes estrangeiros, de grande renome internacional, com ampla experiência no estudo e pesquisa de novas terapias para o tratamento do câncer. E também uma oportunidade ímpar para os pesquisadores jovens que desejarem treinamento e aprimoramento no exterior. Em entrevista à Prática Hospitalar, o médico e pesquisador, Prof. Dr. Gilberto Schwartsmann, relata como surgiu a idéia de organizar o curso no Rio de Janeiro, fala da revolução que a biologia molecular está proporcionando no conhecimento dos tumores e no desenvolvimento de drogas mais seletivas e ressalta a importância da pesquisa brasileira nessa área.
Prática Hospitalar - Qual o principal objetivo do curso?
Dr. Gilberto Schwartsmann - O curso, denominado New Strategies in Anticancer Therapy, faz parte de uma série de eventos internacionais que a European School of Oncology (ESO), com sede na Itália, está organizando em diferentes continentes, na comemoração do seu aniversário de 20 anos de fundação. Para tal, eu, o Prof. Dr. Ricardo Brentani (USP) e o Prof. Dr. Santiago Pavlovsky (Universidade de Buenos Aires) fomos convidados para a sua coordenação. O objetivo é estimular o aprimoramento científico dos especialistas interessados em câncer.
P. H. - Como surgiu a idéia de organizá-lo no Brasil e na cidade do Rio de Janeiro?
Dr. Schwartsmann - A idéia de organizá-lo no Rio de Janeiro foi minha, a partir de um convite feito pelo Prof. Dr. Alberto Costa, presidente da ESO, para que eu assumisse a sua coordenação. Como a cidade tem uma excelente estrutura hoteleira e é a mais linda do mundo, a decisão do local foi óbvia.
P. H. - O evento é dirigido a quais especialistas?
Dr. Schwartsmann - Este evento é dirigido a especialistas em oncologia, radioterapeutas, cirurgiões, clínicos e estudantes. Um detalhe importante também deve ser ressaltado: o evento é gratuito, sendo que os certificados de participação serão fornecidos baseados na freqüência ao encontro. Escolhemos a Academia Nacional de Medicina como sede do evento, o que não deixará de ser uma oportunidade para que os médicos de várias regiões do Brasil e do exterior possam conhecê-la. O acervo de objetos da história da medicina brasileira é muito rico e interessante. Vale a pena conhecê-lo.
P. H. - Quais os palestrantes internacionais convidados?
Dr. Schwartsmann - Os palestrantes são de altíssimo nível científico e discutirão aspectos relevantes sobre as novas drogas e estratégias de tratamento do câncer.
O Prof. Herbert Michael Pinedo é um dos cientistas mais respeitados do mundo no campo das novas drogas anticâncer. Dentre as suas várias funções de destaque, incluem-se a de Diretor do Serviço de Oncologia da Universidade Livre de Amsterdã, na Holanda, presidente da Sociedade Européia de Oncologia Clínica e coordenador de vários grupos cooperativos da Organização Européia para a pesquisa e tratamento do câncer.
Outra participação ilustre é a do Prof. Mark Ratain, coordenador do programa de desenvolvimento de estudos clínicos de fases I e II na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, e um dos maiores especialistas do mundo em farmacogenética de drogas anticâncer.
O Prof. Eric Rowinsky é o diretor do Instituto de Pesquisas do Câncer na Universidade do Texas em San Antonio, Estados Unidos. Foi o investigador responsável pelos estudos pioneiros que levaram ao desenvolvimento clínico de várias drogas anticâncer em uso clínico, dentre elas o taxol.
O Prof. Adrian Harris é o diretor do Departamento de Oncologia da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e um dos mais destacados pesquisadores no campo da resistência a drogas anticâncer e biologia do câncer de mama.
E o Prof. Matti Aapro é diretor de Oncologia na Clínica Genolier, na Suíça, e uma autoridade no tratamento paliativo e no tratamento do idoso com câncer.
P. H. - Quais serão os destaques da programação científica?
Dr. Schwartsmann - O curso constará de conferências magistrais sobre vários aspectos da biologia molecular, farmacologia e tratamento do câncer. E terá como temas centrais as novas drogas e estratégias terapêuticas, câncer de mama e tratamento individualizado do paciente com câncer. Estas conferências serão seguidas de discussões informais, priorizando a interação dos palestrantes com a platéia. Haverá tempo destinado a grandes discussões sobre projetos de pesquisa, planos de carreira em oncologia e para aperfeiçoamento no exterior. Imagino que os oncologistas mais jovens serão muito privilegiados neste evento, pois disporão de tempo para discutirem com os conferencistas sobre oportunidades de treinamento e pós-graduação na Europa e na América do Norte.
P. H. - Quais são as novas estratégias na terapia anticâncer?
Dr. Schwartsmann - Estamos tendo o privilégio de testemunhar uma verdadeira revolução no conhecimento sobre a biologia molecular do câncer. Ao contrário da quimioterapia convencional, que foi o fruto de um tempo em que se imaginava o câncer como um problema apenas da proliferação celular, hoje sabemos bem mais sobre o processo carcinogênico. Sabemos, por exemplo, que o câncer decorre do acúmulo de defeitos genéticos, envolvendo genes que regulam não apenas a proliferação celular, mas também a diferenciação das células, a morte celular, a função de genes protetores, o processo de neovascularização que sustenta o crescimento tumoral e outros fatores. Portanto, as drogas em desenvolvimento clínico e laboratorial têm sido mais dirigidas a estes processos específicos, sendo portanto, em princípio, mais seletivas.
P. H. - Qual o papel da biologia molecular no desenvolvimento dessas novas estratégias?
Dr. Schwartsmann - A biologia molecular tem sido o instrumento essencial neste processo de reconhecimento das causas do surgimento do câncer, seu comportamento biológico e resposta ao tratamento. Ela permitiu que se mergulhasse em um universo novo, onde os mecanismos mais íntimos responsáveis pelo câncer encontram as suas verdadeiras explicações. É por isto que existe uma grande expectativa com os resultados do Projeto Genoma, pois a identificação dos genes envolvidos nos processos de saúde e doença e, mais importante do que isto, as funções destes genes e as formas de sua regulação, permitirá que se possa interferir nos processos de doença com mais seletividade e eficiência.
P. H. - Como está a pesquisa clínica desenvolvida no país?
Dr. Schwartsmann - A pesquisa clínica no Brasil vem crescendo substancialmente, não apenas pela maior capacitação profissional, mas também pela melhor estruturação dos comitês de ética e pesquisa de várias instituições e pelo excelente trabalho dos órgãos governamentais, com o Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP). Além disso, existe hoje uma grande oportunidade para nós, brasileiros. Há um grande número de moléculas interessantes a ser testadas, muito além da capacidade de absorção pelos centros internacionais de maior tradição nessa área. Isto permite que se criem alternativas para o desenvolvimento de novos compostos em centros fora do eixo América do Norte, Europa e Japão. O Brasil é uma destas opções. Talvez a grande exceção seja o nível de excelência atingido pelo Brasil no Projeto Genoma, o que o coloca entre os centros mais importantes. É um crédito que deve ser dado ao Prof. Dr. Ricardo Brentani no Instituto Ludwig, em São Paulo.
P. H. - E a pesquisa básica brasileira?
Dr. Schwartsmann - A pesquisa básica brasileira caminha bem, mas poderia ir muito melhor se houvesse uma política de maior sustentação dos jovens talentos nos meios acadêmicos. Além disso, a introdução de políticas de maior valorização dos pesquisadores que realmente produzem conhecimentos científicos originais seria muito bem recebida.
P. H. - Como o senhor vê a participação de vários grupos brasileiros em protocolos com novos agentes biológicos moleculares?
Dr. Schwartsmann - A participação de grupos brasileiros em pesquisa clínica é uma excelente oportunidade para que consigamos uma maior inserção no esforço internacional na descoberta e desenvolvimento de novos medicamentos anticâncer. Isto não ocorria com freqüência na década passada, quando ficávamos apenas assistindo a este processo. O único cuidado é que os pesquisadores busquem priorizar as pesquisas de maior valor científico e não os estudos de tipo pré-marketing.
P. H. - Há interesse dos especialistas brasileiros em fazer pesquisa no Brasil?
Dr. Schwartsmann - Obviamente, há grande interesse de nossa parte na inserção de investigadores brasileiros nos programas de desenvolvimento de drogas anticâncer. Na realidade, há um significativo número de oncologistas brasileiros com treinamento nesta área e em condições de realizar pesquisa clínica em alto nível. É essencial que continuemos incentivando os jovens oncologistas a fazerem uma formação acadêmica sólida, sobretudo agregando experiência através de treinamento em centros de excelência no país e no exterior.
P. H. - Que tipo de trabalho a Fundação SOAD vem realizando?
Dr. Schwartsmann - A Fundação South American Office for Anti-Cancer Drug Development (SOAD) de Pesquisa do Câncer é uma organização não-governamental, de caráter científico, sem fins lucrativos, cujo objetivo central é promover a pesquisa de novos medicamentos anticâncer. Possui uma Direção Executiva por mim dirigida, um Conselho de Curadores presidido pelo Dr. Humberto Ruga e um Conselho Científico Internacional presidido pelo Prof. Herbert Pinedo, de Amsterdã. É uma entidade de reconhecida utilidade pública municipal, estadual e federal. Possuímos acordos de colaboração científica com várias entidades no Brasil e no exterior. Realizamos projetos tanto na área básica como clínica. No presente, contamos com cerca de 100 pesquisadores, os quais desenvolvem projetos dirigidos à identificação de novos candidatos, mecanismo de ação de medicamentos, farmacologia, bem como estudos clínicos de fases I, II e III. O programa de pesquisa básica é dirigido pela Profa. Adriana Brondani da Rocha e o programa clínico é dirigido pela Enfermeira Luciane Di Leone.
P. H. - Qual sua opinião a respeito do futuro do tratamento do câncer?
Dr. Schwartsmann - Acredito que devemos investir muito na prevenção do câncer, pois hoje conhecemos muito mais sobre as condições que predispõem ao câncer, como por exemplo o combate ao tabagismo e o sexo seguro. Também avançamos no conhecimento quanto às ações na detecção precoce do câncer, como no câncer de mama e de próstata. Estas estratégias de prevenção e diagnóstico precoce deverão ter grande impacto na incidência e mortalidade por câncer no futuro.
Quanto aos tumores já estabelecidos, aprendemos muito na identificação de tumores com maior risco de disseminação e para estes podemos utilizar cada vez mais tratamentos que tenham sido eficazes na doença avançada, mas como tratamento adjuvante nos indivíduos com doença operável, mas com risco elevado de metástases ocultas. São exemplos o tratamento adjuvante no câncer de mama e do intestino. Para os tumores avançados e muitos dos precoces, há esta gama de novas oportunidades terapêuticas advindas da biologia molecular do nosso tempo. São exemplos os anticorpos monoclonais, inibidores de tirosina quinases e tantos outros em desenvolvimento clínico.
Eu particularmente acredito que para muitos dos tumores avançados e de difícil tratamento, como o câncer avançado do intestino, pulmão, estômago, pâncreas e outros, ainda teremos um longo período em que faremos uso de medicações com menor eficácia e potencial curativo. Nestes casos, é provável que drogas de mais fácil administração, menor toxicidade, e que possam reduzir a agressividade da doença, possam ter um papel importante, da mesma forma como vemos hoje o tratamento de doenças não-malignas crônicas e incuráveis, como é o caso da hipertensão arterial e o diabetes.
P. H. - Qual a sua opinião a respeito da oncologia brasileira em relação à praticada em países do Primeiro Mundo?
Dr. Schwartsmann - Possuímos no Brasil centros de oncologia clínica de alto padrão, comparáveis a muitos centros internacionais. Entretanto, o nosso grande desafio é vencer as desigualdades regionais e tornar o atendimento ao paciente mais bem distribuído entre as diferentes classes sociais e regiões geográficas.
P. H. - Qual sua expectativa em relação ao curso?
Dr. Schwartsmann - O evento será de grande interesse, não apenas para os oncologistas, mas para colegas e alunos com interesse em biologia molecular do câncer, farmacologia e terapêutica em geral. Os mais jovens receberão uma atenção especial pela grande oportunidade de discussão sobre o futuro de suas carreiras profissionais.
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