Abordagem
Multidisciplinar da Dor
e Políticas de Saúde


Entrevista com o Dr. José Luciano Braun Filho
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED).
Editor-Chefe da Revista Dor: Pesquisa, Clínica e Terapêutica.


Por Flávia Lo Bello



Dr. José Luciano Braun Filho


Pela primeira vez na América Latina, o Brasil recebeu como desafio sediar o Joint Meeting of IASP Council, evento que será realizado juntamente com o VIII Simpósio Norte-Nordeste de Dor e I Simpósio Internacional da SBED-IASP, em Fortaleza, CE, de 28 de outubro a 1º de novembro. Para o evento, que será coordenado pela presidente da Sociedade Cearense para o Estudo da Dor, Dra. Inês Tavares Vale e Melo, espera-se cerca de 700 participantes, entre neurologistas, neurocirurgiões, anestesiologistas, oncologistas, fisiatras, odontologistas, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas e outros profissionais da saúde.

Dor e Políticas de Saúde e Abordagem Multidisciplinar em Dores Oncológica e Neuropática serão os dois temas centrais do evento. “O VIII Sindor será um evento de grande porte, que contará com uma programação científica de altíssimo nível, na qual teremos importantes discussões sobre política nacional de dor no Brasil”, informa o ex-presidente da SBED, Dr. José Luciano Braun Filho, que faz parte da comissão científica internacional e da comissão organizadora do Simpósio. Segundo o especialista, os objetivos do Simpósio incluem a troca de informações e experiências entre os profissionais e a busca por novos conhecimentos. “Verificamos na prática diária que os médicos não estão preparados para o atendimento dos pacientes com dor. Existe, portanto, não só no Brasil, mas em todo o mundo, uma necessidade urgente de implantar uma política assistencial de tratamento da dor”, ressalta.

Entre as discussões de cunho político, será abordada a implantação de centros especializados em dor no país. Conforme explica o médico, essa é uma preocupação da própria Organização Mundial de Saúde e, embora o Brasil já esteja realizando ações neste campo, ainda não existe uma estrutura de serviços no país capaz de oferecer uma assistência adequada aos pacientes com dor crônica. “Foi instituída uma portaria através do Ministério da Saúde, no intuito de credenciar cerca de 160 clínicas de dor no Brasil; entretanto, não temos nem um terço desses centros ainda disponíveis. Não se pode dizer que um serviço está credenciado se não há profissionais qualificados para esse atendimento, profissionais estes que necessitam de uma formação mais especializada em dor”, comenta Dr. Braun. Preocupado com este tema, está sendo organizado um fórum de discussão da política nacional e internacional de saúde em dor. Estão sendo convidados o presidente da IASP, o ministro da saúde, o atual presidente da SBED, o presidente do conselho federal de medicina e outras autoridades envolvidas com o assunto. “É intenção transformar o evento em um local de discussões políticas também”, completa.

Novidades terapêuticas e uso de drogas no tratamento da dor, como opióides, anticonvulsivantes, analgésicos e antiinflamatórios constituem temas de grande interesse. “Temos que aumentar a disponibilidade desses medicamentos aos pacientes. Para isso, haverá discussões sobre o consumo de opióides no país e outras drogas coadjuvantes no tratamento da dor”, relata o médico. A respeito dos opióides, também serão debatidos temas como: opióides por via oral e parenteral na prática clínica; opióide induzindo hiperalgia e opióides: vias alternativas. Além das discussões sobre medicamentos, o temário abrange a qualificação dos especialistas e custos de dor no país: “Precisamos nos preocupar em como formar essa equipe de atendimento ao paciente com dor, pois existe uma carência muito grande na formação do profissional e, em conseqüência disso, a dor é subdiagnosticada e maltratada. Como deve ser a formação dessas equipes que irão compor as clínicas de dor, qual o custo de dor na população em geral e nas empresas, e o custo do não-tratamento na própria assistência médica de saúde nacional e internacional são todos assuntos de muita importância”, diz.

ATUALIZAÇÃO E CONHECIMENTO BÁSICO EM DOR

“Podemos dividir esse evento em basicamente dois tópicos importantes, primeiro é a atualização dos especialistas. Os conselheiros da IASP vêm para cá apresentar um upgrade dos assuntos, em que os brasileiros terão oportunidade de se atualizar”, esclarece o especialista. A segunda parte do Sindor é dirigida ao médico generalista e aos profissionais que estão iniciando seus conhecimentos na área de dor, na qual haverá a abordagem de assuntos básicos sobre o tema. “Traremos informações sobre dor aguda, dor crônica, dor oncológica, dor nociceptiva, dor neuropática, etc., mas tudo isso fazendo parte de um contexto único. O que queremos é formar o médico para que ele esteja capacitado a abordar os mais diferentes tipos de dor, para que ele tenha um conhecimento global do assunto.”

“Em razão do grande sucesso do curso prático sobre bloqueios terapêuticos realizado pelo professor Ricardo Plancarte, da cidade do México, por ocasião do V Congresso de Dor, voltamos a convidá-lo.Teremos, portanto, nova oportunidade de ver a sua apresentação”, informa Dr. Braun. Serão realizados ainda cursos na área de odontologia, psicologia, fisioterapia, englobando um grande número de profissionais da área da saúde. Entre os temas abordados haverá palestras sobre anatomia, fisiopatologia e biologia molecular; abordagem farmacológica da dor; passagem entre a vida e a morte; desafio aos profissionais de saúde; terapia Rolfing; cinesioterapia, entre outros. “A intenção é que todos esses especialistas adquiram conhecimento em várias áreas, pois a formação desse profissional daqui para a frente será a especialização em dor. Dessa forma, ele necessita de um conhecimento em diferentes áreas, como a neurologia, anestesiologia, fisiatria, psicologia e psiquiatria”, conclui.