Jornada de Controle de
Infecção Hospitalar de Ribeirão Preto
já é Referência na Área
Entrevista com a Dra. Silvia Nunes Szente Fonseca
Médica Pediatra pela FMUSP SP. Mestrado em Epidemiologia Hospitalar, Universidade de Yale EUA.
Fellowship em Doenças Infecciosas, Universidade de Yale - EUA. Professora Visitante da Universidade de George Washington - EUA. Responsável pelo Serviço de Controle de Infecção Hospitalar dos Hospitais São Francisco,
Maternidade Sinhá Junqueira e Mater, Ribeirão Preto, São Paulo. Presidente da
1ª à 8ª Jornada de Controle de Infecção Hospitalar de Ribeirão Preto - São Paulo.
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Por Cynthia de Oliveira Araujo
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Dra. Adélia Marçal dos Santos (à esq.), Dr. Luiz Alberto
Ferriani e Dra. Silvia Nunes Szente Fonseca |
Na sua oitava edição, a Jornada de Controle de Infecção Hospitalar de Ribeirão Preto (SP), realizada entre os dias 25 e 26 de julho de 2003, reuniu mais de 300 profissionais de saúde de 75 municípios do Estado de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás e consolida-se definitivamente como um dos mais importantes eventos da área de infecção hospitalar.
O evento contou com a participação de um seleto grupo de infectologistas como convidados para abordar temas importantes e atuais sobre o controle de infecção hospitalar, como a da Dra. Cristiana Toscano, representando a Organização Pan-Americana de Saúde no que diz respeito a vacinas e da Dra. Adélia Marçal dos Santos, gerente da ANVISA na Área de Investigação e Prevenção das Infecções e dos Eventos Adversos em Serviços de Saúde, do Ministério da Saúde.
De acordo com a presidente da Jornada, Dra. Silvia Nunes Szente Fonseca, o principal objetivo do evento é ensinar e difundir os conceitos mais modernos de controle de infecção hospitalar para os hospitais de todos os níveis, sejam eles pequenos, médios, grandes, universitários, filantrópicos ou instituições privadas, para assegurar um melhor cuidado ao paciente internado, visando profissionais de saúde que já atuam em hospitais, principalmente enfermagem, médicos, biomédicos, microbiologistas, farmacêuticos, fisioterapeutas.

Dra. Cristiana Toscano |
A idéia de organizar e promover a Jornada de Controle de Infecção Hospitalar de Ribeirão Preto foi uma iniciativa do Dr. João Paulo Musa Pessoa, diretor-presidente da Fundação Maternidade Sinhá Junqueira, Fundação Waldemar Pessoa e Grupo São Francisco, que percebeu há oito anos o quanto era necessária a realização de eventos que discutissem os problemas mais comuns de controle de infecção e apontassem soluções. Como o programa de controle de infecção hospitalar do Hospital São Francisco e Maternidade Sinhá Junqueira, que pertencem às fundações anteriormente citadas e ao Grupo São Francisco, implantados desde 1994 e 1995, estavam dando resultados muito bons, o Dr. João Paulo decidiu que poderíamos organizar a Jornada para difundir nossa experiência a outros profissionais de outras regiões, explica Dra. Silvia.
Desde então, a Jornada vem sendo realizada anualmente com grande sucesso em Ribeirão Preto, que se transformou em modelo em controle de infecção hospitalar pelos baixos índices.
O programa científico deste ano foi amplamente discutido e baseado em assuntos debatidos em congressos nacionais e internacionais, em sugestões dos participantes do evento realizado anteriormente, nos problemas do cotidiano de vários hospitais de Ribeirão Preto e em problemas da atualidade, como a SARS.
HIGIENIZAÇÃO DAS MÃOS
Um dos temas abordados pela Dra. Adélia Marçal dos Santos foi O que há de novo na higienização das mãos. De maneira brilhante, a Dra. Adélia mostrou-nos as evidências de que a higienização das mãos, feita com água e sabão, germicida ou álcool gel a 70%, é muito importante no combate à infecção hospitalar, e que, principalmente, hoje se sabe que o uso de álcool gel a 70% é tão aceitável quanto a lavagem das mãos com água e sabão, frisou Dra. Silvia.
Outro aspecto importante ressaltado pela gerente da ANVISA foi quanto ao fato do álcool a 70% poder ser registrado no Ministério da Saúde como saneante, cosmético ou medicamento. No caso do álcool a 70% para uso de desinfecção de pele o registro seria como o de medicamento, e do álcool para desinfecção de superfícies, como registro de saneante.
RESISTÊNCIA BACTERIANA
Durante o evento também foi bastante discutido o controle da resistência bacteriana. A infectologista Dra. Anna Sara Shafferman Levin, do Hospital das Clínicas da FMUSP, apresentou o tema Antibióticos: Estamos perto do fim? Segundo ela, talvez um dos melhores caminhos para enfrentar microrganismos multirresistentes seria a prevenção de infecções. A Dra. Silvia Fonseca concorda com o que foi apresentado pela especialista, já que na sua opinião a resistência é cada vez maior e mais precoce aos agentes antimicrobianos em uso, e a aqueles que acabam de ser incorporados à prática clínica. Todas as medidas conhecidas para prevenir infecções devem ser usadas, como por exemplo vacinas contra influenza e contra pneumococos para idosos, pessoas com certos problemas de saúde e profissionais de saúde (influenza); prevenção de infecção do trato urinário, da pneumonia associada à ventilação mecânica, da infecção de corrente sangüínea e infecção do sítio cirúrgico, enfatiza a médica, que completa: O que se vê muitas vezes é um furor das pessoas envolvidas com controle de infecção em restringir antibióticos e menor ênfase em medidas para prevenção de infecção, como higienização de mãos, retirada de sondas e cateteres assim que for possível, suspensão de antibióticos profiláticos usados em cirurgia à saída do centro cirúrgico, etc..

Dra. Anna Sara Shafferman Levin e
Dr. Paulo de Tarso Oliveira e Castro |
PAPEL DAS LAVANDERIAS
O papel das lavanderias no controle de infecção hospitalar também mereceu um bom destaque na Jornada e foi abordado pela Dra. Adélia Marçal dos Santos. Conforme explica a Dra. Silvia Fonseca, a lavanderia é um sistema de apoio muito importante para o funcionamento do hospital, e no passado diversos surtos de infestação ou mesmo infecção já foram relatados na literatura. Modernamente, a maior preocupação é com as possíveis condições insalubres a que os profissionais que lidam com as roupas estão expostos, e com a falta de preparo técnico destes profissionais, freqüentemente marginalizados em relação às outras áreas de apoio. Exposições a materiais perfurocortantes podem ser muito freqüentes, por desleixo de outros profissionais que desprezam agulhas, tesouras nos hampers, em vez de descartar as agulhas nos recipientes apropriados ou não enviarem tesouras e bisturis para a Central de Materiais, alerta a infectologista.
CENTRAL DE MATERIAIS E ESTERILIZAÇÃO
As novidades e inovações no dia-a-dia da Central de Materiais e Esterilização (CME) foram apresentadas com muito humor pela enfermeira Eliane Molina. Para a Dra. Silvia Fonseca, a CME é um local nobre do hospital e os profissionais de saúde são constantemente inundados pela indústria com as novidades tecnológicas para assegurar uma boa esterilização. A enfermeira Eliane Molina, do Hospital Novo Atibaia, em Atibaia, São Paulo, nos mostrou com muito humor que devemos ter muito senso crítico e nos perguntar o que realmente é necessário, dependendo das prioridades de cada serviço. Ela ainda ressaltou que o recurso humano é fundamental e insubstituível, declara a médica.

Enfa. Eliane Molina |
SÍNDROME RESPIRATÓRIA AGUDA GRAVE
Um dos temas atuais apresentados foi a SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave). A Dra. Silvia Fonseca expôs algumas das lições tiradas pelos profissionais com a síndrome para o controle de infecção. Na opinião dela, muito se aprendeu com a SARS. Primeiramente, a SARS mostrou aos profissionais o quanto é fácil a disseminação de doenças novas entre profissionais de saúde, que estão sempre na linha de frente no combate a epidemias. De uma maneira geral, as epidemias revelam as fraquezas do sistema de saúde pública. A epidemia de SARS trouxe vários problemas de funcionamento nos hospitais afetados, além de intensas repercussões econômicas nas áreas afetadas. Por exemplo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estimou que somente em Hong-Kong os prejuízos causados pela SARS foram da ordem de 4% do Produto Interno Bruto. O que também surpreendeu nesta infecção foi a rápida capacidade de disseminação, pois em poucas semanas, desde o alerta da OMS em março de 2003, 29 países foram atingidos pela doença. Por esta capacidade de disseminação, a OMS considera que todo país com aeroporto internacional ou que faz fronteiras com locais onde há recente transmissão corre risco potencial de epidemia pela SARS. No mundo de hoje, uma doença infecciosa em um país é uma ameaça para todos os outros países: as doenças infecciosas não respeitam fronteiras, lembra a infectologista.
Mas a SARS foi contida e isso não se deu por acaso. No caso de hospitais, assim que medidas já tradicionais de controle de infecção hospitalar foram implementadas (isolamento dos pacientes afetados, uso de máscaras, aventais e outros materiais de proteção usados pelos profissionais de saúde), a transmissão aos profissionais de saúde e outros pacientes foi contida. Como esta infecção ainda não tem tratamento específico, a Dra. Silvia acredita que o que realmente controlou a SARS foi o uso de medidas tradicionais de controle de epidemias, ou seja, o isolamento de pacientes e quarentena de suspeitos.
Outro aspecto fundamental para o controle, de acordo com a infectologista, foi a intensa mobilização da comunidade científica internacional para o descobrimento do agente causador da SARS, inédita até então, que envolveu 12 laboratórios de referência espalhados pelo mundo todo e também a troca de informações via Internet dos vários locais que estavam com a epidemia em curso, o que facilitou a disseminação de informação. Muitos estudos foram feitos e as publicações on-line ajudaram os profissionais da saúde a compreender a doença e implementar as medidas de controle. Isto nos mostrou que as infecções emergentes podem ser contidas quando há alto envolvimento do governo e colaboração internacional. A informação e recomendações para viajantes podem conter a disseminação internacional de uma doença, reconhece a médica.
A Dra. Silvia não acredita que a redução do número de casos e o controle da SARS tenha sido um fenômeno natural que possa ser atribuído à mudança de virulência ou infectividade do coronavírus, como o que acontece com infecções emergentes. Na verdade, o controle da SARS foi o resultado de um esforço monumental de governos, profissionais da saúde pública, com apoio de um público bem informado e cooperativo. Isto é ainda mais impressionante levando-se em conta a natureza desta infecção, isto é, SARS é uma doença nova, difícil e perigosa, enfatiza ela.
HISTÓRIAS DE SUCESSO
Um dos pontos altos da Jornada foi a mesa-redonda Histórias de sucesso no controle da infecção hospitalar em Ribeirão Preto, coordenado pelo Dr. Luiz Alberto Ferriani, vice-presidente da Jornada e diretor clínico da Maternidade Sinhá Junqueira. Foram apresentados diversos relatos de vários profissionais de diferentes instituições hospitalares de Ribeirão Preto, privadas e filantrópicas, que mostraram interessantes histórias. O Dr. Fernando Bellíssimo mostrou seu programa de redução de infecção de sítio cirúrgico na Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto. O Dr. Gilson Freitas da Silva apresentou o programa de alertar os médicos do Hospital São Lucas sobre os problemas das bactérias multirresistentes, através da divulgação do perfil de sensibilidade das bactérias do hospital. Já o Dr. Paulo de Tarso Oliveira e Castro expôs uma bem-humorada campanha de lavagem de mãos feita no Hospital Ribeirânia.
E, por fim, a Dra. Silvia Fonseca relatou três experiências de sucesso. Primeiro, a campanha empregada no Hospital São Francisco de redução de infecções na UTI e uso de profilaxia dose única para procedimentos cirúrgicos, com adesão de mais de 95% dos cirurgiões. Segundo, os índices decrescentes de infecção na UTI neonatal na Maternidade Sinhá Junqueira; e, por fim, na Mater, maternidade filantrópica, uma maneira de vigilância de infecções após a alta da paciente, feita com uma população de baixa renda e com um ótimo retorno.

Profissionais de saúde de mais de 75 municípios
do país participaram do evento |
A mesa-redonda foi o resultado dos encontros mensais do Comitê Municipal de Controle de Infecção Hospitalar, criado há mais de dois anos e que conta com a participação de todos os profissionais de controle de infecção de Ribeirão Preto de diversos hospitais. Nesses encontros, os especialistas trocam experiências, repartindo conhecimentos e unindo esforços para o mesmo ideal de controle de infecção e melhoria do atendimento dos pacientes. O convívio entre os profissionais tem sido tão bom que durante a época da SARS acabaram formando um subcomitê, que elaborou um manual com as recomendações de controle da SARS, envolvendo recomendações desde a unidade básica de saúde até salas de emergência, internação e UTI. Esse manual foi distribuído gratuitamente para vários estabelecimentos de saúde de Ribeirão Preto. Nas nossas reuniões mensais, estamos discutindo vários aspectos do controle de infecção e, a cada tema debatido, extraímos um consenso com nossas recomendações, que é então encaminhado em nome do Comitê para todos os diretores técnicos e clínicos dos hospitais de Ribeirão Preto, declara Dra. Silvia.
APOIO E PROFISSIONALISMO
Para finalizar, a presidente do evento ressalta o importante apoio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e da Associação Paulista de Estudos e Controle de Infecção Hospitalar (APECIH) durante todos as edições da Jornada e do profissionalismo dos convidados. Grande parte do sucesso deste evento de alto teor científico, com certeza, deve-se ao intenso profissionalismo dos palestrantes, que não pouparam esforços para descomplicar temas complexos, como a resistência microbiana, o controle de surtos, os problemas da Central de Materiais, a proteção dos profissionais de saúde no hospital, controle de infecção neonatal e infecções cirúrgicas, declara ela, que completa: Enfim, estamos orgulhosos e felizes com o evento e ansiosos para fazer da 9ª Jornada de Controle de Infecção Hospitalar de Ribeirão Preto um evento ainda mais completo e de maior sucesso.
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