Especialistas Discutem Dificuldades e Desafios
da Aids Pediátrica no País


Entrevista com a Profa. Dra. Marinella Della Negra
Médica Infectologista. Chefe da Segunda Unidade de Internação do Instituto de Infectologia
Emilio Ribas. Professora de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de
Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.


Por Cynthia de Oliveira Araujo



Profa. Dra. Marinella Della Negra


Cerca de 3% dos infectados pelo vírus da Aids no Brasil são crianças. Com o intuito de atualizar os profissionais de saúde que tratam dessas crianças, a Associação de Auxílio à Criança Portadora de HIV (AACPHIV) promove entre os dias 12 e 14 de novembro de 2003, no Centro de Convenções Pompéia, em São Paulo, o 7º Encontro Nacional sobre Aids Pediátrico e 5º Simpósio Internacional Pediátrico. O evento tem o apoio da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Sociedade Brasileira de Infectologia e terá como convidados um seleto grupo de profissionais e cientistas de destaque na área na Europa e Estados Unidos. O intuito é que os especialistas brasileiros e estrangeiros troquem experiências e discutam temas, como o futuro da terapia anti-retroviral para crianças e seus efeitos adversos, a transmissão materno-infantil, co-infecções e o adolescente infectado pelo HIV. Em entrevista à Prática Hospitalar, a presidente do evento, Profa. Dra. Marinella Della Negra, uma das médicas pioneiras na abordagem da Aids pediátrica no país, fala sobre os principais avanços, dificuldades e desafios no tratamento dessas crianças durante esses anos e do reconhecimento aos profissionais que fazem do Programa Nacional DST/Aids o melhor programa de diagnóstico e tratamento de Aids do mundo. A seguir, publicamos os destaques da entrevista.

Prática Hospitalar - O Encontro Nacional de AIDS Pediátrico e o Simpósio Internacional de Aids Pediátrico estão já na sua 7ª e 5ª edição, respectivamente. O que mudou desde o primeiro evento?
Profa. Dra. Marinella Della Negra - Muita coisa mudou nestes vinte e poucos anos de epidemia. Dentre as principais mudanças, posso destacar a terapêutica, a idade das crianças infectadas e especialmente a abordagem das crianças.

P. H. - Qual o principal objetivo do evento?
Dra. Marinella - O principal objetivo do evento é trazer o que existe de mais novo em relação ao atendimento dessas crianças aos profissionais de todas as áreas de saúde e discutir entre estes profissionais o melhor tratamento para as crianças soropositivas.

P. H. - Quais serão os destaques da programação?
Dra. Marinella - Os principais temas abordados serão o futuro da terapia anti-retroviral para crianças e seus efeitos adversos, a transmissão materno-infantil, co-infecções e o adolescente infectado pelo HIV.

Todos os convidados, tanto nacionais quanto estrangeiros, são considerados top de linha em diagnóstico e tratamento de crianças HIV+. Dentre eles, estão Alessandra Viganó, especialista em endocrinologia infantil de Milão, Itália; Diana Gibb, epidemiologista do MRC – de Londres, Inglaterra; Lynne Moffenson, chefe da Unidade de Transmissão Materno-Fetal do NIH, EUA; Píer Ângelo Tovo, que abordará a história natural do HIV e sua co-infecção com o vírus da hepatite C; Savita Pahwa, imunologista de Nova York, EUA; Stephen Spector, pesquisador americano do Ministério da Saúde; Kenneth McIntosh, pesquisador americano, e Hoosen Coovadia, que enfocará as questões relacionadas à epidemia na África.

P. H. - Como prevenir o aumento do número de crianças infectadas pelo vírus se cada vez mais cresce a quantidade de mulheres com HIV?
Dra. Marinella - Diagnosticando o vírus na gravidez e tratando as gestantes com as normas estabelecidas pelo consenso do Ministério da Saúde, conseguimos frear o avanço da doença, mas os números continuam preocupantes, não só entre as crianças. A epidemia de Aids não pode ser esquecida. Temos que falar sobre este e outros problemas sérios de saúde pública todos os dias.

P. H. - A assistência pré-natal em relação à Aids deveria ser exigida sempre?
Dra. Marinella - Somente com testes sorológicos na gestante conseguiremos detectar o problema que a Aids representa para as crianças precocemente. Os infectologistas de todo o mundo têm procurado sensibilizar os colegas da área de ginecologia e obstetrícia quanto à necessidade de se pedir dois testes para HIV durante a gestação. Temos conseguido progressos significativos neste campo. Com isto, estamos vendo um número maior de crianças soronegativas. O trabalho conjunto desses profissionais é primordial para o controle da epidemia.

P. H. - Quais os avanços no diagnóstico dessas crianças?
Dra. Marinella - Hoje, com a disponibilidade maior da técnica do PCR (polimerase chain reaction) e da carga viral a partir do primeiro mês de vida, conseguimos diagnóstico precoce da infecção.

P. H. - Como informar a criança portadora do vírus HIV que hoje é adolescente?
Dra. Marinella - Esta é uma das grandes preocupações dos profissionais de saúde que lidam com o HIV em crianças. Não temos uma fórmula mágica. Para cada indivíduo o momento é diferente e esse momento deve ser escolhido pelo médico e pela família.

P. H. - Quais as principais novidades do último Consenso de Aids Pediátrico?
Dra. Marinella - O novo consenso sobre tratamento deve sair em outubro. Estamos discutindo quais mudanças serão necessárias para o melhor atendimento de nossas crianças.

P. H. - Quais os avanços no tratamento de crianças com HIV/Aids?
Dra. Marinella - Sem dúvida os novos anti-retrovirais, que devem melhorar ainda mais a qualidade de vida da criança soropositiva.

P. H. - Quais os desafios enfrentados para o profissional que trabalha com Aids Pediátrico?
Dra. Marinella - Além da expectativa em relação à cura, temos a rebeldia da adolescência, que faz com que muitos pacientes abandonem o tratamento quanto tomam dimensão de sua doença.

P. H. - Quais as dificuldades enfrentadas no tratamento dessas crianças?
Dra. Marinella - Nossa maior dificuldade é a condição socioeconômica dessas crianças. Muitas das famílias sequer têm condição de trazer a criança para a consulta ambulatorial por falta de dinheiro para o ônibus, outras não têm como se alimentar direito. Os problemas sociais relacionados a estas famílias nos preocupam diariamente.

P. H. - Como tratar as crianças que apresentam falha terapêutica?
Dra. Marinella - Quando a criança apresenta falência terapêutica, não há muito o que se pode fazer. Geralmente interrompemos o tratamento e o reiniciamos depois de algum tempo para ver se o vírus responde novamente ao tratamento.

P. H. - Como é a adesão das crianças brasileiras HIV positivas ao tratamento? 
Dra. Marinella - A adesão entre as crianças é excelente. O único problema são os adolescentes, que precisam de um trabalho de conscientização constante quanto à importância de aderir ao tratamento.

P. H. - Qual o papel da equipe multidisciplinar no tratamento das crianças com HIV/Aids?
Dra. Marinella - Uma equipe que reúna profissionais de odontologia, fisioterapia, psicologia, serviço social, todas as áreas médicas, enfermagem, nutrição, voluntariado e outras categorias afinadas consegue dar ao paciente de qualquer patologia segurança e melhor atendimento. Se isso ocorrer, a qualidade de vida do doente e a resposta ao tratamento serão bem melhores.

P. H. - Qual a sua opinião sobre o reconhecimento internacional a respeito do trabalho que vem sendo desenvolvido no país na luta contra a Aids? 
Dra. Marinella - O Programa Nacional DST/Aids além de justo consegue ser invejável. Temos que lembrar que outros programas no país também funcionam bem, mas num país em desenvolvimento como o nosso, temos que louvar o reconhecimento ao trabalho dos profissionais que fazem deste o melhor programa de diagnóstico e tratamento de Aids do mundo.