Dr. Ricardo Caponero
Oncologista Clínico do Hospital Brigadeiro, da Clínica de Oncologia Médica e do Hospital Professor Edmundo Vasconcelos e Presidente da Associação Brasileira de Cuidados Paliativos

Em 1866, Gregor Mendel demonstrou que as características dos seres vivos podiam ser codificadas e transmitidas.

Nos anos de 1940, os cientistas sabiam que os cromossomos continham o material genético, formado por DNA e proteínas.

Há 50 anos, em 25 de abril de 1953, James D. Watson e Francis H. C. Crick publicavam na revista Nature a estrutura da molécula do DNA. A crença, então, de que toda a informação estava codificada nas seqüências de bases nitrogenadas, e que o genótipo determinava o fenótipo, levou a um crescimento exponencial das pesquisas nessa direção.

Termos como apoptose, angiogênese, diferenciação passaram a povoar nosso cotidiano, entremeados por conceitos de metilação do DNA, telomerase, ESTs (expressed sequence tags), ciclinas, quinases, etc.

A tecnologia cresceu vertiginosamente e permitiu o desenvolvimento do Projeto Genoma. Mal criamos as micromatrizes de DNA (microarrays) para as análises da expressão gênica e descobrimos que, por medir níveis de expressão de RNA mensageiro (mRNA), as medidas obtidas não se correlacionam diretamente com as concentrações das proteínas funcionais das células.

Nossa crença de que cada gene codificava uma única proteína desmoronou frente à descoberta do fenômeno de “splicing” alternativo. Múltiplos mRNAs podem ser transcritos através de um único gene, combinando de forma variada a expressão de seus éxons.

Estudos genômicos recentes sugerem que 40% a 60% dos genes humanos apresentam o fenômeno do “splicing” alternativo, originando mais de 30 mil relações possíveis entre eles.

Depois da descoberta dos fatores de crescimento e seus receptores, queríamos que as relações intra e intercelulares fossem determinísticas; mas não, hoje sabemos que a expressão gênica é determinada pela complexa interação entre elementos intranucleares, intracitoplasmáticos e extracelulares, assemelhando-se mais a um fenômeno probabilístico. Talvez estejamos perto de uma “genética quântica”.

Nesse cenário de grandes descobertas e mudanças, merece destaque o fato de a Sociedade Brasileira de Cancerologia e Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) estarem realizando um congresso conjunto, agregando as Sociedades Brasileira de Psiconcologia (SBPO), Brasileira de Enfermagem Oncológica (SBEO) e a Associação Brasileira de Cuidados Paliativos (ABCP). Só integrados amistosamente poderemos fazer com que todas essas descobertas cheguem aos nossos pacientes, cumprindo nossa missão de aliviar seus sofrimentos.

Afinal, como disse em 1966 Warren Weaver*, numa palestra em Seatle: “Do not overestimate science, do not think that science is all that there is, do not concentrate so completely on science that there’s nobody in this room who is going to spend the next seven days without reading some poetry”.



*Warren Weaver (1894-1978) foi o diretor da divisão
de ciências naturais (1932-1955) e vice-presidente
(1955-1959) da Fundação Rockefeller.