Medidas de Controle
de Infecções em Unidades
de Terapia Intensiva
Entrevista com a Profa. Maria de Lourdes Ravanello
Enfermeira do Serviço de Controle de Infecção do Hospital Moinhos de Vento.
Especialista em Administração Hospitalar, Metodologia do Ensino Superior e
Saúde Coletiva com Ênfase em Epidemiologia. Professora nos Cursos de Pós-Graduação de
Administração Hospitalar e Administração de Serviços de Enfermagem do Instituto de Administração
Hospitalar e Ciências de Saúde (IAHCS) e PUC.

Profa. Maria de Lourdes Ravanello |
A incidência de infecções em ambientes hospitalares tem feito crescer cada vez mais a preocupação das Comissões de Controle de Infecções Hospitalares (CCIHs) em relação às medidas de controle e prevenção. Quando se trata de pacientes graves, a preocupação se torna ainda maior, pois esses pacientes estão mais expostos a riscos, são manipulados com maior freqüência e de maneira mais invasiva. As Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) têm sido um ambiente favorável para o desenvolvimento de bactérias multirresistentes devido à grande utilização de antibióticos e um dos principais objetivos das CCIHs tem sido efetuar ações que possam controlar as infecções e melhorar a qualidade da assistência.
A enfermeira Maria de Lourdes Ravanello abordou estas e outras questões relacionadas ao controle e prevenção de infecções hospitalares nas Unidades de Terapia Intensiva do Brasil. Confira os destaques desta entrevista especial à Prática Hospitalar.
Prática Hospitalar - Quais as principais medidas de controle e prevenção de infecções em Unidades de Terapia Intensiva?
Profa. Maria de Lourdes Ravanello - A medida mais eficaz é a higienização das mãos, que pode ser complementada com álcool gel. Recomenda-se o uso desse produto isoladamente quando o profissional estiver impossibilitado de lavar as mãos. Essas ações são extremamente importantes na prevenção e controle das infecções.
A vigilância epidemiológica permite conhecer a ocorrência das infecções nas unidades, detectar o aumento das mesmas, bem como surtos de infecção e adotar medidas de controle e prevenção. O projeto SENIC, realizado pelo CDC - Centers for Disease Control and Prevention nos Estados Unidos, demonstrou que é possível prevenir até 32% das infecções hospitalares com um programa de vigilância e controle de infecções.
O treinamento da equipe, que muitas vezes é negligenciado nos hospitais, contribui para a prevenção de infecções e iatrogenias. Profissionais capacitados executam com segurança os procedimentos técnicos, o que conseqüentemente resulta em melhor qualidade na assistência ao paciente. A prevenção de erros que causam riscos de infecções e complicações e que contribuem para agravar as condições desses pacientes é obtida pela capacitação contínua da equipe.
A atualização dos colaboradores da equipe assistencial também é essencial, pois os avanços tecnológicos e terapêuticos exigem um aprimoramento constante para acompanhar a medicina avançada das unidades de terapia intensiva.
Outra medida é o controle de antimicrobianos. Como existe prescrição por vezes incorreta dessas drogas, é importante que existam protocolos de uso empírico das mesmas nessas unidades para a prevenção da resistência de microrganismos aos antimicrobianos.
Identificar pacientes que sejam reservatórios de germes resistentes, evitando a transmissão cruzada, também é relevante. A atenção deve ser redobrada nas medidas de controle e prevenção. Evitando a transmissão desses microrganismos de um paciente para o outro e também para a equipe assistencial.
Podemos ainda mencionar que a proporção adequada de funcionários/paciente contribui para o desempenho correto das rotinas e recomendações da CCIH e, conseqüentemente, para a qualidade da assistência. Evitam-se quebras de técnica e manuseio inadequado dos pacientes, o que é fundamental para a prevenção de infecções.
As medidas de prevenção de infecções recomendadas para cada tipo de infecção, principalmente as relacionadas a procedimentos invasivos, devem ser implementadas e observadas por toda a equipe. A utilização de cateteres venosos e arteriais, de sondas vesicais, de ventilação mecânica, entre outros dispositivos invasivos, é necessária em pacientes graves mas devem ser usados pelo tempo necessário, evitando a permanência desnecessária desses dispositivos. A implementação de protocolos de prevenção de infecções baseados em evidências auxilia na determinação das ações de maior importância.
Mencionamos também as medidas de controle de infecções causadas por microrganismos com relevância epidemiológica, que permitem separar os pacientes portadores desses germes, evitando sua transmissão a outros pacientes e equipe assistencial. Mas a observação das medidas de precaução padrão contribui fundamentalmente para o controle dessas infecções.
Os protocolos de limpeza e desinfecção de materiais e equipamentos utilizados em pacientes também auxiliam na prevenção de infecções, pois esses podem ser veículo de germes de um paciente para o outro.
P. H. - A que se deve a grande incidência de microrganismos multirresistentes em UTIs?
Profa. Maria de Lourdes - Muitas vezes deve-se ao uso indiscriminado ou inadequado de antimicrobianos. Nas UTIs, encontram-se os pacientes com maior gravidade e risco de infecções, os quais necessitam da utilização de antimicrobianos de amplo espectro e muitas vezes em associações para tratamento dessas infecções. O uso desses medicamentos em larga escala, por períodos prolongados e, algumas vezes, de maneira incorreta, contribui para o desenvolvimento de resistência dos microrganismos aos antimicrobianos.
Podemos auxiliar na prevenção da multirresistência estabelecendo protocolos de uso de antimicrobianos nas UTIs, com consultorias médicas de orientação da prescrição correta e atuando na prevenção de infecções, pois estaremos prevenindo o uso desses medicamentos. Desde a lavagem de mãos até as medidas mais complexas são importantes, pois os pacientes graves apresentam maior vulnerabilidade, estão mais expostos a riscos e são mais manipulados.
P. H. - Quais têm sido as infecções mais comuns em UTIs brasileiras?
Profa. Maria de Lourdes - Acredito que não só no Brasil mas, de acordo com estudos publicados, as infecções respiratórias associadas ao uso de ventilação mecânica são as mais freqüentes nas unidades de terapia intensiva de adultos. São seguidas pelas infecções urinárias relacionadas ao uso de cateteres vesicais e infecções de corrente sangüínea. Nas UTIs neonatais predominam essas últimas infecções.
P. H. - Como está a resistência das bactérias causadoras destas infecções mais freqüentes no Brasil?
Profa. Maria de Lourdes - Nas UTIs, a resistência dos microrganismos aos antimicrobianos é mais elevada devido ao maior uso desses medicamentos, conforme já mencionei anteriormente. O Staphylococcus aureus e bactérias Gram-negativas estão apresentando alta resistência, assim como em outros países. Também ocorreu a emergência do Enterococcus resistente à vancomicina.
Nas infecções relacionadas a cateteres, predominam os Staphylococcus coagulase-negativa, que também se mostram resistentes.
A resistência varia de unidade para unidade, dependendo da gravidade dos pacientes e da utilização dos antimicrobianos.
P. H. - Como a sra. avalia o papel das Comissões de Controle de Infecções Hospitalares no Brasil?
Profa. Maria de Lourdes - A CCIH é uma equipe multiprofissional atuante, com o objetivo de desenvolver ações de controle e prevenção de infecções, bem como implementar a qualidade da assistência. Tem a atribuição de levantar dados relativos às infecções e eventos adversos decorrentes da hospitalização e, com base nesses dados, recomendar medidas de prevenção e controle. A atuação da CCIH é ampla, envolvendo-se com todas as unidades assistenciais que possuem relação com o cuidado do paciente, como nas áreas de apoio. O principal foco de atenção e ação da CCIH são os pacientes com maior gravidade e risco, como os pacientes de terapia intensiva, os pacientes imunodeprimidos e transplantados, os recém-nascidos de alto risco e grandes queimados. Mas a CCIH não é utilizada em sua potencialidade pela direção de muitos hospitais. Talvez por desconhecimento dos dirigentes com relação às atribuições e atuação das CCIHs, ainda falta envolvimento entre ambos. Deveria ser uma comissão de assessoria direta da direção dos hospitais. Com mais apoio, a atuação das CCIHs seria mais efetiva.
É preciso divulgar melhor a importância da CCIH e sua atuação para que haja conscientização e envolvimento de cada profissional da equipe assistencial na prevenção e controle das infecções hospitalares.
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