Grandes Endemias
que Acometem a
População Brasileira


Entrevista com a Profa. Dra. Angela Maria da Silva
Mestre e Doutora em Doenças Infecciosa e Parasitárias.
Profa. Adjunta no Departamento de Medicina da UFS



Por Luciana Rodriguez


dra. angela maria
Profa. Dra. Angela Maria da Silva


A medicina brasileira tem conquistado um grande espaço no que se refere ao conhecimento das patologias tropicais. As enfermidades tropicais que ainda acometem a população brasileira tornaram-se alvo de órgãos direcionados à prevenção destas doenças e tem sido cada vez mais aprofundado o campo da medicina tropical para melhor assistir os pacientes acometidos por grandes endemias.

O XL Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical será realizado de 7 a 11 de março de 2004 em Aracaju, Sergipe, e contará com a presença de renomados especialistas, que abordarão uma série de temas relacionados principalmente às patologias tropicais que acometem a população brasileira com mais freqüência.

A revista Prática Hospitalar entrevistou a presidente do evento, Dra. Angela Maria da Silva, e ressalta alguns dos principais pontos desta entrevista, com informações sobre o evento e considerações atuais sobre a Medicina Tropical na visão dessa especialista na área.

Prática Hospitalar - Quais serão os principais temas abordados no XL Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical?
Profa. Dra. Angela Maria da Silva - O evento irá abordar as grandes endemias, tais como doença de Chagas, esquistossomose, malária, leishmaniose, hanseníase, tuberculose e fome.

P. H. - Qual a situação do Brasil atualmente no que se refere a estas endemias?
Dra. Angela - Tivemos muitos avanços tecnológicos, mas mesmo assim essas doenças continuam promovendo um agravamento da saúde pública importante, porque ainda existem pessoas morrendo com leptospirose, meningite, tuberculose, leishmaniose, malária, entre outras doenças. Com a estrutura tecnológica que possuímos isso não devia mais estar acontecendo.

P. H. - Como a sra. analisa a questão da dengue e suas recentes incidências no Brasil?
Dra. Angela - A mais alta incidência de dengue ocorre durante o verão, principalmente na Região Sudeste, mas na maior parte do Nordeste também ocorrem casos. Não temos uma perspectiva de controle nem a médio, nem a curto prazo.

Uma agravante é que quase todos os Estados brasileiros, se não todos, já estão com os três sorotipos. Esperamos para o próximo verão manifestações ainda mais complicadas de dengue.

P. H. - Qual a situação do Brasil em relação a vacinas para estas endemias?
Dra. Angela - O Programa de Vacinação do Ministério da Saúde é excelente e tem obtido boas coberturas vacinais. No entanto, na era da globalização temos importação de casos que estão fora de controle. Temos, por exemplo, mais de cinco anos sem poliomielite no Brasil, mas precisamos que toda a América do Sul esteja controlada, senão voltaremos a ter. Recentemente no Japão, que é um país avançado, houve um caso de sarampo, daí por diante começaram a ocorrer casos importados em outros países. Contudo, são doenças imunopreveníveis, das quais podemos fazer um controle eficaz, sem nos esquecermos da globalização.

Segundo os epidemiologistas, existe uma previsão de que por volta de 2010 ou 2012 ocorra uma grande epidemia de gripe em todo o mundo.

P. H. - Quais têm sido os principais desafios nesta área da medicina tropical?
Dra. Angela - O principal desafio tem sido controlar estas doenças consideradas endêmicas, principalmente sem agressão ambiental, mas sim com uma sintonia ecológica e humana. Mesmo em se tratando de uma mesma doença, não podemos aplicar um único controle para todas as regiões do mundo, porque temos que respeitar as características regionais de cada área. Este é um desafio fundamental porque temos uma tecnologia de ponta, mas ainda parte de nosso país não tem acesso a isso e ainda existem questões como a fome (40 milhões de pessoas passam fome) e saneamento básico precário (o último censo do IBGE mostrou que somente 40% da população tem acesso ao saneamento básico, ou seja, a grande parte da população não tem acesso).

Enquanto não formos um país capaz de proporcionar saúde com qualidade para todos, com educação acessível a toda a população, será muito difícil controlarmos as doenças endêmicas. A população não precisa ser rica, mas precisa ser educada e ter saúde ao alcance.

P. H. - Qual tem sido o papel da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical?
Dra. Angela - A Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) atua como vanguardista, ou seja, apesar de ser uma sociedade com mais de 40 anos, está sempre buscando atualização. A maioria dos esforços da SBMT vem de pessoas que têm uma interação muito grande com os problemas de saúde pública, em sua maioria pesquisadores, universitários e médicos atuantes na área assistencial. No entanto, temos uma percepção muito precoce dos problemas nesta área devido às dificuldades em nosso dia-a-dia.

A SBMT tem uma participação muito grande na colaboração com as instituições públicas do país.

P. H. - Qual será o principal objetivo deste congresso?
Dra. Angela - O principal objetivo do evento será discutir os novos rumos das doenças infecciosas, a pesquisa, a assistência e o ensino dessas doenças. Além disso, outra grande preocupação é o médico que trabalha com o Programa de Saúde da Família. A SBMT tem uma grande preocupação com a saúde que vai chegar aos mais carentes.

P. H. - Os profissionais brasileiros estão preparados para lidar com estas endemias?
Dra. Angela - Acredito que é necessário acontecer uma revitalização na área da Medicina Tropical, um redirecionamento dos cursos médicos. Temos que direcionar a formação de nossos profissionais para nossas necessidades. No momento atual, as faculdades estão formando profissionais especialistas e quando eles vão para o trabalho de campo têm uma dificuldade muito grande. O médico atuante em medicina tropical tem que ter larga experiência no trabalho de campo e uma vivência muito boa na área hospitalar. Assim, a SBMT tenta mostrar tanto para o ensino quanto para a saúde pública a importância de um profissional com uma boa formação, porque desta maneira serão resolvidos os principais problemas de saúde da população brasileira.

P. H. - Qual a expectativa de público presente neste evento?
Dra. Angela - É a primeira vez que Sergipe sediará um congresso brasileiro, mas acredito que foi uma excelente escolha. Estamos esperando um número de aproximadamente 1.500 participantes.