
Prof. Dr. Jaime Olavo Márquez |
Entre os dias 22 e 25 de setembro de 2004 será realizado em Florianópolis, SC, o 6º Congresso Brasileiro de Dor da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED), no qual serão discutidos temas sobre dor aguda e dor crônica referentes a aspectos básicos e de atualização, contando com a presença de médicos de diversas especialidades e de outros profissionais da saúde, entre os quais enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, assistentes sociais e dentistas.
A revista Prática Hospitalar entrevistou o presidente da SBED, Prof. Dr. Jaime Olavo Márquez, que comenta os preparativos e os assuntos de maior destaque do evento. Além do Congresso da SBED, Dr. Márquez fala, nesta entrevista, sobre os projetos da Sociedade que visam a uma melhoria nos cuidados em dor; as ações que buscam uma capacitação mais adequada, levando educação continuada a todos os profissionais envolvidos com dor, e também sobre a política de implantação de centros de referência para o tratamento da dor em todo o país.
Prática Hospitalar - Como estão os preparativos para o 6º Congresso Brasileiro de Dor da SBED?
Prof. Dr. Jaime Olavo Márquez - O 6º Congresso Brasileiro de Dor da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor e 1º Congresso da Região Sul pretenderá atender os interesses de todos os profissionais da área da saúde, através de cursos pré- congressos, cursos durante o congresso,mesas-redondas, workshops, etc., voltados aos dois públicos, o que está iniciando seus conhecimentos em dor e também aquele que já tem a sua formação em dor, mostrando os avanços mais recentes da dor no mundo todo. Será também um evento aberto a estudantes, no qual teremos um espaço reservado para atividade dos estudantes das ligas de dor. Haverá cursos voltados para as áreas de enfermagem, psicologia, fisioterapia, acupuntura, entre outros, e tentaremos de alguma forma reservar um espaço para pacientes também, com palestras de esclarecimento para o público. Além disso, faremos uma mesa-redonda com os órgãos governamentais sobre política nacional de saúde em dor.
P. H. - O que será abordado com maior destaque dentro da programação científica do evento?
Dr. Márquez - Quanto ao temário científico, ele irá abranger todas as áreas, desde os conceitos básicos sobre dor, como eu disse, para as pessoas que estão iniciando, até os avanços mais recentes. A seleção de temas ainda está sendo proposta pela Comissão Científica da SBED, mas um assunto de grande interesse é com relação à abordagem da dor no paciente e as técnicas de exame para avaliação, ou seja, como fazer, por exemplo, um exame neurológico adequado, para poder realizar um diagnóstico preciso. A área de avaliação da dor será amplamente discutida, porque até hoje não existe nenhum exame complementar que mostre um dado considerado o mais importante em dor crônica - o sofrimento humano - muito embora, em breve, com os exames funcionais do sistema nervoso, creio que poderemos ter algum parâmetro para avaliar o sofrimento dos nossos pacientes. Também outro assunto importante diz respeito às bases farmacológicas do tratamento. As estratégias terapêuticas serão bastante abordadas, tanto as estratégias medicamentosas como não-farmacológicas, entre elas a acupuntura, fisioterapia e técnicas psicológicas.
P. H. - Que ações a SBED pretende implementar nos próximos meses para melhorar a situação da dor no país?
Dr. Márquez - A SBED é uma Sociedade multidisciplinar, interdisciplinar e multiprofissional, pois agrega não somente várias especialidades médicas como também profissionais não-médicos da área da saúde. Ela foi fundada em 1983 e em 1984 foi reconhecida como fazendo parte da Sociedade Internacional para o Estudo da Dor, e desde então as diretorias têm procurado sempre divulgar bastante a Sociedade. Hoje nos encontramos numa situação mais favorável em função da credibilidade e do trabalho que as outras administrações realizaram. Com a finalidade de ampliarmos esse trabalho, temos desenvolvido uma série de atividades educativas voltadas para médicos e profissionais de saúde de uma forma geral, através de uma importante parceria com quatro laboratórios: Cristália, Zodiac, Pfizer e Novartis. Com essa parceria, realizamos 50 cursos de educação continuada o ano passado, com uma média de 100 a 150 participantes, e conseguimos mostrar o que é a SBED e o que é dor.
Desenvolvemos um projeto chamado Brasil sem Dor, que visa algumas áreas, dentre elas a educação médica, a educação dos profissionais de saúde não-médicos e a educação da população em saúde. Objetivamos ainda a implementação de uma política junto ao Ministério da Educação, com a reforma do currículo básico das áreas de saúde incluindo dor. Outra junto ao Ministério da Saúde, relacionado com o programa de Saúde da Família, no qual pretendemos trabalhar com todos os profissionais envolvidos, no intuito de levar informações sobre dor para todas as regiões do país, para que estes profissionais, que estão diretamente ligados com assistência à saúde, possam tratar de forma mais adequada seus pacientes. Eles serão instruídos e servirão também como veículo de propagação para a população geral, constituindo-se em uma força multiplicadora junto à comunidade. A característica desse programa é que ele é bastante voltado à prevenção e, dessa forma, eles poderão atuar nesses dois sentidos e auxiliar na educação da população.
Também estamos incentivando a formação de ligas de dor no país. Enquanto não ocorre uma mudança no currículo, pretendemos incentivar nos ambientes de saúde que os alunos se organizem através de uma liga de dor.
Esforços, como o do Projeto Brasil sem Dor, já ocorrem, a exemplo do programa estadual Paraná sem Dor no Câncer, um programa voltado para dor oncológica e que foi, de certa forma, modelo para nosso programa. Além disso, criamos o primeiro programa estadual da dor crônica em Santa Catarina, chamado Santa Catarina sem Dor. Quem acolheu o projeto e muito nos auxiliou foi o Secretário de Saúde do Estado, Dr. Fernando Agostini.
P. H. - Como é a proposta de considerar a dor nos hospitais como 5º sinal vital?
Dr. Márquez - O 5º sinal vital é a mensuração da dor. Assim como há o TPRP (temperatura, pressão, respiração e pulso), um procedimento básico que todos os profissionais seguem dentro dos hospitais, existe um projeto norte-americano que prevê, além da mensuração desses quatro parâmetros, também a mensuração da dor. A importância do 5º sinal vital não é apenas medir a dor, mas fazer uso dele como um programa de educação médica nos hospitais, educação em dor para os profissionais, a família e os pacientes; isso é uma forma de mostrar a cara da dor na instituição.
Uma coisa muito importante é que estabelecendo o conceito do 5º sinal vital, trataremos da dor como uma emergência médica, não deixando que as pessoas sofram com dor. O hospital deverá ter uma equipe treinada, para que quando o paciente sentir dor essa equipe possa dar uma assistência imediata, e que no futuro também possa acompanhar o paciente quando ele sair do hospital, no intuito de ajudar a dispensar os medicamentos e eventualmente fornecer aos pacientes carentes uma cesta básica de medicamentos analgésicos gratuitamente. Existe um programa no Ministério da Saúde para fornecimento de medicamentos excepcionais e imaginamos que esse programa possa atender também a dor. Uma parte do programa já é feita pelo Ministério em relação aos opióides, porém, além dos medicamentos opióides, queremos também as outras drogas adjuvantes que auxiliam no tratamento da dor, especialmente os antidepressivos e anticonvulsivantes.
P. H. - Como está a formação do especialista em dor hoje?
Dr. Márquez - Esse é um grande desafio mundial: saber qual profissional deve ser habilitado em dor. Quem iniciou a atividade em dor foram os anestesiologistas e agora outros especialistas estão se interessando nesse campo, como é o caso dos neurologistas, que vêm marcando uma presença muito forte na área de dor, além de neurocirurgiões, reumatologistas, ortopedistas, etc. Mas é realmente um desafio formar um especialista em dor. Um neurologista, por exemplo, não é treinado para fazer bloqueios nervosos, pois não tem formação em anestesiologia. Da mesma forma, há anestesistas que não foram treinados em dor e também não têm uma formação em neurologia, e isso pode ser estendido para várias outras especialidades. A minha idéia é que em vez de se formar especialistas em dor, deveríamos formar profissionais habilitados em dor, e que dor crônica faça parte do conhecimento geral de todos os especialistas, como é dor aguda. Um trabalho que foi publicado recentemente, pela Sociedade Americana de Anestesiologia, aborda essa questão, de como será o perfil do especialista em dor. Alguns poucos profissionais são realmente especialistas em dor e a formação destes é muito mais específica.
P. H. - Por que há um imenso desconhecimento dos profissionais de saúde sobre dor, tanto em relação ao diagnóstico quanto ao tratamento?
Dr. Márquez - Creio que isso se deva à falta de informação, não só dos médicos, porque a dor nem sempre é tratada de forma adequada em odontologia, em fisioterapia e outras áreas. Há falta de informação básica e falta de um projeto nacional de política de saúde em dor. Nós temos no Brasil, desde 2002, um programa chamado Projeto Nacional de Tratamento da Dor e Cuidados Paliativos. Temos esperança de que esse projeto se desenvolva e possa preencher a lacuna da falta de uma política nacional de saúde em dor, que implica medidas no Ministério da Saúde e no Ministério da Educação. Acredito que esse seja o caminho e a SBED se propõe a ser uma parceira dos órgãos de diretrizes políticas, trabalhando em conjunto para mudar essa situação.
P. H. - Como melhorar os serviços de dor existentes no país?
Dr. Márquez - Em relação aos centros de dor, temos o projeto e a iniciativa das sociedades especialistas (a Sociedade Brasileira de Dor, a Sociedade Brasileira de Anestesiologia, a Academia Brasileira de Neurologia) e as iniciativas do governo. Esse projeto nacional prevê a indicação de centros de referência para tratamento da dor; no entanto, credenciar os centros especializados é um processo muito trabalhoso e demorado, é preciso identificar esses centros e oficializar pelo Ministério da Saúde. Alguns funcionam bem, que são os Cacons (Centro de Alta Complexidade em Oncologia). Há os Cacons I, II e III, que já são centros de referência, mas, além dos Cacons, o projeto prevê que tenhamos outros centros para tratamento de dor crônica. A proposta que a SBED tem é conciliatória: em vez da SBED definir esses centros, a Sociedade de Anestesiologia também deverá indicar alguns centros, bem como a Academia de Neurologia e o Ministério da Saúde, para que façamos um trabalho em conjunto e haja uma inter-relação entre as sociedades de especialidades. Isso está em andamento porém de maneira independente, tanto pelo Ministério da Saúde como pela SBED e pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia. Essa última, já possui alguns credenciados de treinamento em dor.
P. H. - Existem ações direcionadas para levar informações aos pacientes?
Dr. Márquez - Ainda não, mas essa é uma das metas da SBED e acredito que é também um dos objetivos de todas as outras sociedades e do governo. Ainda não chegamos num ponto ideal de fazer uma educação em saúde para o povo, que na minha opinião é muito importante. E nem há uma associação, como existe, por exemplo, a associação dos diabéticos, relacionada à dor crônica, e isso é uma de nossas metas também. Estamos traçando essa idéia como se fosse um plano diretivo, pois não haverá tempo suficiente de fazer tudo nesta administração, então, queremos deixar uma política na SBED de atuação com base técnica, um documento técnico que seja levado adiante independentemente da tendência política dos grupos que irão assumir a Sociedade nas próximas administrações.
P. H. - Como foi a indicação ao prêmio Clarence Moore, que a SBED recebeu?
Dr. Márquez - O prêmio Clarence Moore é oferecido pela OPAS e pela OMS. Tem como finalidade premiar as organizações que melhoram a qualidade de vida dos países da América Latina e do Caribe. Não é um prêmio só para medicina, também atendendo política, saúde, economia e outras áreas, tendo uma grande abrangência. A SBED foi indicada pela IASP como concorrente ao prêmio de 2003, o que significa um reconhecimento de todo o trabalho que a Sociedade, desde sua fundação tem feito no Brasil e do modelo de atividade política que vem sendo desenvolvido com o projeto Brasil sem Dor, o que sem dúvida é muito significativo para todos nós.