Avanços no Tratamento
de Gliomas Malignos


Entrevista com o Dr. Artur Katz
Médico Oncologista do Departamento de Oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE)
e do Centro Paulista de Oncologia. Vice-Presidente de Prática Médica do HIAE.


Por Luciana Rodriguez



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Dr. Artur Katz



Foi realizado durante o I Congresso Brasileiro de Neuroncologia, de 7 à 9 de agosto, o Simpósio “Avanços no Tratamento dos Tumores do Sistema Nervoso”, apoiado pela Schering-Plough. O evento contou com a participação dos especialistas Dr. Artur Katz e Dr. Everardo D. Saad, que abordaram respectivamente Avanços no Tratamento de Gliomas Malignos e Avanços no Tratamento de Metástases Cerebrais.

Durante a palestra do oncologista clínico Dr. Artur Katz, foram apresentadas recentes novidades no tratamento dos pacientes com gliomas malignos embasadas em estudos fase I e II. Em entrevista à Prática Hospitalar, o especialista ressaltou o advento do emprego da temozolomida no tratamento de pacientes com gliomas malignos, os avanços mais recentes em relação ao diagnóstico destes pacientes e as técnicas que podem ser empregadas no tratamento destes gliomas. Confira, a seguir, os destaques da entrevista.

Prática Hospitalar - Quais foram os principais pontos abordados durante sua palestra “Avanços no tratamento de gliomas malignos”?
Dr. Artur Katz - Há pouco tempo especialistas ainda discutiam se a quimioterapia teria algum papel no tratamento de pacientes com gliomas malignos. Pacientes dificilmente eram referidos ao oncologista, mas quando eram, raramente tinha-se algo a oferecer a eles. Recentemente, com o advento do emprego da temozolomida no tratamento desses pacientes, este cenário tem se modificado, evidentemente não da forma radical como gostaríamos, mas percebemos que pouco a pouco houve um aprendizado muito grande no uso e na inclusão dessa droga no tratamento desses pacientes. Isso ocorreu de tal forma que hoje podemos alcançar resultados muito melhores, seja no tratamento de pacientes recém-diagnosticados (incluindo precocemente o uso de Temodal® junto com a radioterapia logo após a cirurgia de pacientes com gliomas malignos), seja eventualmente no uso daqueles pacientes que apresentaram recidiva após a radioterapia nos quais a temozolomida não tenha sido oferecida inicialmente. Portanto, em qualquer uma destas situações temos condições de oferecer algum benefício a esses pacientes com o emprego dessa droga.

Por tudo isso, há um grande entusiasmo. Existem, por exemplo, dois estudos que mostram pacientes que permaneceram bem com esta doença por dois anos, o que é uma situação inusitada em pacientes com gliomas recidivados, e isto nos leva a ficar ansiosos pela inclusão dessa droga dentro da estratégia terapêutica habitual.

P. H. -
Como o tratamento e o diagnóstico de gliomas malignos têm evoluído ao longo dos anos?
Dr. Artur - Com relação a diagnóstico, basicamente ele depende de imagem. Assim, à medida que melhoram os métodos de imagem, aumenta a capacidade de diagnóstico.

Praticamente todos os pacientes hoje são submetidos à ressonância magnética e desta maneira o especialista tem várias formas diferentes de fazer o estudo. Pode-se realizar o estudo com, por exemplo, espectroscopia, estudo por difusão ou ressonância magnética funcional, de forma que vamos conseguindo cada vez mais informações que permitem cirurgias mais bem dirigidas através de neuronavegadores que permitem uma melhor localização da lesão no momento de se planejar uma cirurgia ou radioterapia. Atualmente, com o advento do PET é possível que tenhamos uma melhor visualização destas lesões. Freqüentemente existem dificuldades no diagnóstico diferencial entre recidiva e radionecrose e talvez o PET possa ajudar, uma vez que esta tecnologia de imagem tem contribuído bastante em alguns estudos. Alguns estudos, sobretudo os antigos, são de uma época em que eram utilizadas tomografias de baixa qualidade. Sabemos que a tomografia é praticamente inútil em gliomas de baixo grau, portanto o desenvolvimento de novos métodos de imagem torna bem mais apurado e preciso o diagnóstico dos pacientes.

P. H. - Qual tem sido a melhor estratégia terapêutica no tratamento dos gliomas malignos?
Dr. Artur - Sempre que a doença for localizada e ressecável, o paciente deve ser submetido a uma cirurgia visando ressecção máxima seguida de radioterapia associada a temozolomida; a seguir, os pacientes devem receber temozolomida por mais seis meses após a radioterapia. Acredito que este é o esquema mais adequado no tratamento desses pacientes.

P. H. - Como o sr. analisa a combinação de temozolomida com outros fármacos?
Dr. Artur - Rotineiramente utilizamos a temozolomida junto com medicamentos contra náuseas, pois isso faz parte da rotina. Contudo, no que diz respeito a associação de temozolomida com outros agentes antineoplásicos, isto ainda está em uma fase experimental. Existem vários estudos tentando combinar a temozolomida com ácido retinóico, temozolomida com irinotecano e com outras drogas, como imatinib ou gefitinibe, mas isso ainda é completamente experimental, portanto não faz parte, ainda, de nossa rotina.

P. H. - Como o sr. analisa a radioterapia com a temozolomida e a quimioterapia com a temozolomida?
Dr. Artur - A radioterapia com a temozolomida, por todos os estudos que vêm sendo conduzidos em fase I e II, parece ser uma forma de tratamento que de fato parece apresentar benefício e ser algo que veio para ficar.

No que diz respeito à combinação da temozolomida com outros quimioterápicos, ainda existe a necessidade de que novos estudos sejam conduzidos para sabermos quais pacientes irão se beneficiar desta associação e se ela deve ser oferecida a algum grupo específico de pacientes.

P. H. - Como deve ser o procedimento de uso de temozolomida em gliomas de alto grau?
Dr. Artur - Dentro do tratamento do pós-operatório imediato, a temozolomida deve ser associada a radioterapia e posteriormente também deve seguir a radioterapia. Nos pacientes inoperáveis ela pode ser usada também junto com a radioterapia, e em pacientes recidivados que já tenham feito radioterapia no passado a temozolomida deve ser usada como agente isolado em cinco dias consecutivos a cada 28 dias. Existe a suposição de que talvez doses baixas por tempo prolongado possam ser mais eficientes, mas há poucos dados neste sentido no momento.

P. H. - Como o sr. analisa as técnicas de braquiterapia e radiocirurgia?
Dr. Artur - As duas técnicas podem ser empregadas nos gliomas malignos e são freqüentemente empregadas, especialmente a radiocirurgia. A braquiterapia vem perdendo um pouco de espaço, mas as duas têm uma limitação importante, que é o fato de atuarem numa pequena área de volume cerebral e o próprio volume tratado é limitado pela técnica. Nenhuma das duas técnicas pode ser aplicada a lesões de maior volume. Além disso, os gliomas têm um aspecto muito infiltrativo, que faz com que nunca consigamos tratar a doença toda através da braquiterapia ou radiocirurgia, porque áreas infiltrativas de tumor não estão fazendo parte do campo de tratamento. Então, esta é uma das razões pelas quais a radioterapia tem uma certa limitação de ordem prática no tratamento destes pacientes. Ela é sempre utilizada, mas está dentro desta limitação.

P. H. - Quais têm sido os gliomas malignos mais incidentes?
Dr. Artur - Habitualmente, pelo menos na minha prática, os gliomas de alto grau. No entanto, é necessário considerar o fato de que os pacientes com gliomas de baixo grau dificilmente são referidos ao oncologista. Existem também estudos de uso de temozolomida em gliomas de baixo grau, mas esses pacientes, ainda hoje, dificilmente chegam ao oncologista.

P. H. -
Existe algum fator em especial que contribui com a incidência de gliomas malignos?
Dr. Artur - Nada claramente identificado, exceto em casos excepcionais nos quais existe uma predisposição hereditária, como ocorre na síndrome de Li Fraumeni e na síndrome de neurofibromatose, mas a maior parte dos casos ainda tem uma etiologia desconhecida. Neste caso, sobre as antenas de celulares, por exemplo, que freqüentemente as pessoas voltam a citar como causa, não há nenhuma comprovação específica.