Prevenção de
Infecções Hospitalares


Entrevista com a Profa. Dra. Anna Sara Levin
Coordenadora do Grupo de Controle de Infecção Hospitalar do HC/FMUSP.


dra. anna sara
Profa. Dra. Anna Sara Levin


Embora as infecções hospitalares sejam um grande problema mundial, eventos não-infecciosos decorrentes da assistência à saúde em geral (não apenas hospitalar) também têm gerado complicadas situações no apoio a pacientes, de tal maneira que vem surgindo a necessidade de se utilizar a metodologia que é aplicada ao controle de infecções hospitalares, sendo preciso, inclusive, traçar novas estratégias de prevenção.

Com o crescimento da assistência prestada fora do ambiente hospitalar, a preocupação do profissional de controle de infecção passa a deixar de ser exclusivamente com o hospital, mas também com o atendimento domiciliar (home care), ambulatorial ou em clínicas particulares.

A orientação e a conscientização dos profissionais da saúde dentro dos hospitais já têm sido extremamente trabalhosas para as Comissões de Controle de Infecções Hospitalares e descentralizar o problema das infecções deste ambiente hospitalar será um desafio ainda maior.

A formação dos profissionais tem contribuído com o problema. A capacitação é necessária e urgente para que todos aqueles ligados à área de saúde coloquem em prática, seja nos hospitais ou em qualquer outro tipo de assistência, todas as medidas adequadas de prevenção a eventos inoportunos que possam complicar a situação clínica do paciente.

A Profa. Dra. Anna Sara Levin, coordenadora do Grupo de Controle de Infecção Hospitalar do HC/ FMUSP, aborda todas estas questões e outros relevantes tópicos sobre prevenção e infecção em entrevista à Prática Hospitalar. Confira os destaques desta entrevista.

Prática Hospitalar - Qual a situação dos hospitais brasileiros em relação à atuação das CCIHs? Estão satisfatórios os índices de atuação das CCIHs em relação ao número de hospitais existentes?
Profa. Dra. Anna Sara Levin - Na verdade, até por exigência da lei, estão sendo mantidas as Comissões de Controle de Infecções Hospitalares. No Estado de São Paulo, mais de 65% dos hospitais possuem a CCIH montada. No entanto, quando analisamos se a CCIH tem programa essa porcentagem diminui, e se avaliarmos o funcionamento do programa diminui ainda mais. Na verdade, pela lei, a exigência é que as CCIHs tenham um programa, mas na prática a maioria desses programas não funciona. Os grandes hospitais universitários e hospitais particulares normalmente têm. Acredito que a falta de profissionais de CCIHs contribua com o problema. Existe a necessidade de profissionais bem formados e capacitados, mas há pouco interesse dos hospitais em fazer cumprir a lei.

P. H. - Como a sra. vê a adesão dos profissionais em relação às medidas de controle de infecções?
Dra. Anna Sara - Quando temos uma comissão ela funciona um pouco como legislativo, ou seja, tem que atuar em todas as áreas do hospital, discute quais os grandes problemas e define os grandes rumos. No entanto, para implantar a CCIH no hospital é necessário o serviço de profissionais que só trabalhem com infecção hospitalar. A maioria dos hospitais não tem este serviço, porque eles acabam não montando ou contam com profissionais que não estão bem capacitados. Porém, o grande problema é que mesmo com bons profissionais e um bom serviço, quem lida com o paciente não é o profissional da CCIH, que conhece profundamente as medidas de controle e prevenção, mas sim o profissional que não conhece essas medidas. Então, acredito que o maior problema é educativo e não somente no sentido de ensinar informações ao profissional, mas sim educar para que seus conhecimentos teóricos sejam aplicados. No treinamento que fazemos aqui no hospital, observamos que os profissionais têm um grande nível de informação sobre infecção hospitalar, mas não põem em prática, de forma que não lavam as mãos quantas vezes deveriam, não fazem o isolamento como se deveria, não tomam cuidado quando fazem um procedimento invasivo, embora, se for realizada uma prova escrita de múltipla escolha, todos saberão responder corretamente, desde o auxiliar de enfermagem até o médico-chefe, mas se fizermos uma observação, não estão aplicando os conhecimentos. Então existe esta dissociação entre informação e atitude, que é uma barreira muito difícil de transpor.

Os profissionais das CCIHs detêm as informações de como prevenir, mas quem tem que praticar são os outros profissionais.

P. H. - Quais acredita serem hoje os principais objetivos das CCIHs? Esses objetivos estão sendo atingidos?
Dra. Anna Sara - O objetivo principal é a prevenção. Podemos trabalhar o tratamento, o tratamento pós-exposição ocupacional, desenvolver profilaxia após acidente com o profissional, mas o objetivo é prevenir.

Algo muito importante é a postura da direção do hospital. É preciso que ela enxergue a importância dessa prevenção. No hospital em que atuo, desde a década de 70 consideramos muito importante não lesar a pele do paciente na hora de retirar os pêlos antes da cirurgia. Passando a gilete antes da cirurgia, aumenta-se o risco de infecção. Se antes da cirurgia não se usar lâmina, mas sim um barbeador que não machuca a pele, o risco de infecção cai. O papel da diretoria do hospital consiste em abolir as lâminas e comprar os barbeadores (tricotomizadores). Outra decisão foi parar de fazer a tricotomia na enfermaria, mas sim no centro cirúrgico (houve resistência quanto a isso por parte das equipes, que estavam acostumadas com a enfermagem fazer isso na noite anterior da cirurgia no quarto). Quando a administração do hospital concordou, a idéia foi implantada. Houve reuniões, algumas áreas de resistência, mas foi implantada, por isso é fundamental o papel da administração do hospital. Quando a administração enxerga a importância da atuação, tudo funciona bem. Quando a administração de um hospital compra uma idéia, contrata um bom profissional, apóia as iniciativas, os resultados ficam bem melhores.

P. H. - Como deve ser feito o procedimento de prevenção nos serviços home care e ambulatorial?
Dra. Anna Sara - Não podemos pensar somente em infecção em hospitais, pois existe assistência que é feita fora do hospital. Temos a hemodiálise (existem muitas clínicas de hemodiálise não ligadas a hospitais, onde o paciente vai três vezes por semana sofrer um acesso vascular, ou seja, um procedimento invasivo), o atendimento em casa, o home care. Existe o hospital-dia, também, e hoje o paciente está ficando cada vez menos no hospital e optando por tratamento fora. Nosso problema de infecção está associado à assistência à saúde. Acredito que deveríamos prestar atenção não somente às infecções, mas nos eventos adversos que têm ocorrido por causa da assistência à saúde. Metodologias que utilizamos para infecção hospitalar deveriam ser utilizadas para eventos não-infecciosos, tais como formação de escara e complicações de acesso venoso da diálise. Obviamente é necessário primeiramente fazer um estudo detalhado dos eventos mais complicados dessas situações de assistência à saúde. Além disso, é preciso traçar estratégias de prevenção. Provavelmente, em um serviço home care é mais difícil avaliar a qualidade do serviço que está sendo destinada ao paciente. Em diálise utilizamos uma série de indicadores que não são infecciosos. Enfim, precisamos enxergar além dos hospitais e das infecções, isto é, considerar a infecção hospitalar como o evento adverso do atendimento especializado. Sabemos que o uso de cateteres, UTIs e procedimentos invasivos traz uma série de complicações. Por isso, é preciso cautela no uso de cateteres para diminuí-las.

P. H. - Quais têm sido as infecções mais freqüentes no Brasil?
Dra. Anna Sara - Todas as infecções associadas a procedimentos invasivos: as infecções por cirurgia em que se submete o paciente a um procedimento cirúrgico. Há também o grupo de pacientes com infecções associadas a tratamentos muito agressivos, como quimioterapia ou transplante. Procedimentos realizados em Unidade de Terapia Intensiva também têm grande incidência de infecções, por exemplo, associadas a ventilação mecânica e ao cateter venoso.

As infecções urinárias têm sido as mais incidentes e todas estas infecções estão relacionadas a algum procedimento. É quase zero o risco de infecção urinária sem procedimento, pois o paciente tem uma sonda ou uma cirurgia urológica. Desta forma, para a precaução devemos nos preocupar com os procedimentos, por exemplo:

- lidar com a sonda da melhor ma- neira possível;
- um maior cuidado na instalação da sonda;
- no cuidado da sonda;
- não violação da sonda;
- a própria indicação de uso.

Tudo isso porque sabemos que este é o fator de risco. Então, à medida que se conhece os fatores de risco dos pacientes é preciso minimizá-los.

P. H. - Qual a situação do Brasil, hoje, em relação à resistência bacteriana? Quais as perspectivas em relação à terapêutica antibacteriana?
Dr. Anna Sara - Os dados que temos dos grandes hospitais brasileiros indicam que existem altas taxas de resistência bacteriana. Acredito que ao se falar em resistência bacteriana temos que considerar os antibióticos, que aumentam o risco à medida que vão sendo utilizados. O antibiótico deve ser controlado, evitando que o paciente use de maneira inadequada; mas de qualquer forma, ele sempre será usado e temos que considerar que não é somente o mau uso que gera resistência, mas sim o uso. Um segundo ponto é que, se você não usa as técnicas adequadas de controle de infecções, são transmitidos germes multirresistentes de um paciente para outro.

Acredito que as estratégias no controle de antimicrobianos são importantes, mas não são fundamentais. A administração do hospital gosta porque tem uma redução de custos, ou seja, o controle de antimicrobianos é melhor para o paciente porque usa o mínimo de antimicrobiano necessário, e é uma estratégia de controle de custo. Já do ponto de vista da infecção, acredito que este controle ajuda, mas não é tudo. Estou convencida de que as práticas básicas de infecção hospitalar são o que controlam a resistência, porque controlam a disseminação. Acredito que o grande problema no Brasil nessa área, atualmente, seja a falta de laboratórios de microbiologia, até porque o custo de procedimentos nestes laboratórios é muito alto e paga-se pouco pelo exame.