O Desafio de Mudar Transformando as Pessoas
e a Profissão: O Sistema de Enfermagem do
Hospital Israelita Albert Einstein


Anna Margherita Toldi Bork
Mestre em Medicina Baseada em Evidências pela Unifesp.
Diretora da Divisão de Prática Assistencial do Hospital Israelita Albert Einstein.
Vice-Diretora da Escola da Saúde do Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein.


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Anna Margherita Toldi Bork


A Enfermagem historicamente tem se destacado como a “ciência do cuidar” desde os tempos de Florence Nightingale.

Recentemente, o valor agregado da profissão tem sido descrito em vários trabalhos científicos, como os de Aiken, Hyun Cho e Needleman et al. Estes trabalhos demonstram a influência direta da Enfermagem nos resultados clínico-assistenciais, como por exemplo a proporção enfermeiro-leito e sua relação com a taxa de mortalidade, o número de complicações pós-operatórias1,2 e ocorrências de eventos adversos3.

O corpo de enfermagem (enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem) em uma instituição de saúde é um dos principais veículos de cuidado e atenção dispensada aos clientes. E normalmente, no meio hospitalar, a Enfermagem representa mais de um terço dos profissionais que atuam nestes estabelecimentos, e segundo o Ministério da Saúde, abrange mais de 650 mil profissionais da área em todo o país.

A formação holística do enfermeiro lhe proporciona conhecimentos e habilidades para uma atuação profissional abrangente dentro do Sistema de Saúde, desde promoção até a reintegração dos indivíduos à sociedade.

No entanto, o modelo de assistência vigente ainda centraliza a maioria das ações assistenciais nos hospitais e clínicas de especialidades. Esta realidade vem sofrendo as influências da globalização, trazendo intensas transformações nos mercados e no setor da saúde. O ambiente para o atendimento à saúde cada vez mais se incorpora de gestão empresarial de ponta, buscando ser mais competitivo no mercado, tendo como meta a excelência de qualidade em todos os seus produtos e serviços.

Se refletirmos sobre a evolução dos modelos de gestão e seu impacto nas mudanças ocorridas na gestão dos serviços de saúde, podemos entender que existe um movimento de ações para adaptação e sobrevivência a um novo século. Na Enfermagem não tem sido diferente.

A enfermagem de ontem continha decisões centralizadas, ações pautadas na doença, um grande foco na hospitalização, um conceito que a maior experiência dirigia a melhor prática, uma preocupação com o cumprimento de tarefas e uma assistência ao paciente centrada em ações de enfermagem fragmentadas.

A pergunta que cabe agora é: “Será que a enfermagem do século XX poderá sobreviver no século XXI?”

Essa é uma questão para ser respondida individualmente, como profissionais, e coletivamente, como profissão. E este pode ser o dilema de um líder: a morte lenta ou a opção pela transformação.

A nossa visão é que a Enfermagem é fundamental no meio da saúde, valorizada por seu conhecimento especializado, suas habilidades no cuidado, para melhorar o padrão de saúde da população, garantindo-lhe uma assistência segura, efetiva e de qualidade.

Os indivíduos escolhem a Enfermagem como carreira, e nela permanecem, pelas oportunidades de crescimento pessoal e profissional, ambientes de colaboração e interdisciplinaridade efetivos e uma compensação que se relacione diretamente com seu papel e suas responsabilidades.

Entendemos que o fator humano é o grande diferencial quando falamos de cuidados a pacientes, e por essa razão os profissionais devem estar alinhados às novas necessidades de desempenho dentro de um novo contexto.

O enfermeiro deve buscar competências para o desempenho de um papel estratégico e para seus resultados, que envolvem, sem dúvida, o alcance de uma prática assistencial de excelência. Assim, falamos de uma prática baseada em evidências científicas, da capacidade de tomada de decisão, da preocupação com o desenvolvimento profissional contínuo, do julgamento clínico, da visão sistêmica e um pensamento crítico. Adicionalmente, falamos também de competências comportamentais como liderança e planejamento, comunicação, negociação, relações interpessoais e iniciativa, sendo estas as que efetivamente colaboram para o estabelecimento de uma relação de cuidado entre o enfermeiro e o seu cliente principal: o paciente e sua família.

Nesse cenário, a formação de uma equipe constituída por profissionais que demonstrem pensamento crítico e capacidade de resolução de problemas, combinados com habilidades técnico-científicas, é vital para o sucesso do processo de cuidar, que inegavelmente contribui para o fortalecimento da instituição no mercado de assistência à saúde.

Então vale questionarmos: Quais são as expectativas para o Sistema de Enfermagem de uma instituição? O que os líderes de enfermagem precisam ter ou ser para atingirem estas expectativas? Que tipo de estrutura se precisa ter para alcançar esta expectativa?

Procuramos responder a estas questões, dentro de nosso contexto hospitalar, por meio da implantação de um Sistema de Enfermagem que enxergamos como um dos caminhos para sobrevivermos e vivermos com maestria esta Nova Era.

Apresento agora ao leitor o Sistema de Enfermagem do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE), com a finalidade de compartilhar a nossa experiência nestes últimos três anos. Essa experiência foi publicada recentemente, em agosto de 2003, no livro Enfermagem de Excelência: da visão à ação4.

O SISTEMA DE ENFERMAGEM – UM ORGANISMO DINÂMICO

Como fundamento, primeiramente, estabelecemos nossa Filosofia e Visão a fim de determinarmos as diretrizes e os pilares de sustentação (figura 1), a saber:





- um novo modelo de gestão fundamentado na Administração Participativa, denominado Estrutura de Decisão Compartilhada de Enfermagem (EDCE);
- um modelo assistencial, cuja prática de enfermagem baseia-se em evidências científicas e que busca consolidar a interdisciplinaridade na assistência ao paciente e família, recebendo o nome de “Modelo Enfermeiro Referência do Paciente”;
- uma nova abordagem na área de educação continuada, englobando o Plano de Desenvolvimento das Competências Clínicas do Enfermeiro e o plano de Treinamento e Desenvolvimento de Profissionais do Nível Médio de Enfermagem.

O Sistema de Enfermagem tem como pilares a prática de enfermagem a beira-leito, a garantia de capacitação e qualificação de seus profissionais e o gerenciamento do ambiente assistencial local. Isto se dá por meio dos seguintes profissionais, respectivamente: Enfermeiro assistencial (com sua equipe de Auxiliares e Técnicos de enfermagem), Enfermeiro Master, e Enfermeiro Coordenador/Gerente.

O MODELO DE GESTÃO

O Modelo de Gestão em Enfermagem implementado no hospital em 2002 completou um ano e mobilizou mais de 1.400 profissionais de enfermagem.

O modelo de gestão, ora implantado, é baseado na Administração Participativa, e especialmente na área da Saúde tem sido bastante difundido no exterior, particularmente nos Estados Unidos, onde vem sendo implementado em diversas instituições desde a década de 80.

Neste modelo, as decisões são descentralizadas, as equipes de enfermagem participam ativamente da tomada de decisões, assumindo a responsabilidade sobre os resultados. Em média, 80% das decisões locais, que envolvem assuntos de enfermagem, podem ser resolvidas no local de prestação da assistência, sem necessidade de envolver as gerências. O conceito empregado tem, como meios de operação, fóruns de decisão (Times Assistenciais, Conselhos da Prática, Gerenciamento e Educação e Pesquisa), que são compostos por membros de todos os níveis hierárquicos, desde diretores até profissionais que prestam assistência à beira do leito. Para exemplificar o exposto, um paciente queixa-se da técnica utilizada para a troca de sua bolsa de diálise. A líder de enfermagem daquela unidade é quem recebe todas as queixas e elogios periodicamente. Nesse caso, ela encaminha a reclamação ao Time Assistencial, que analisa localmente e toma decisões para correção do problema. O Time Assistencial é um fórum composto de representantes de todos os profissionais de enfermagem daquela Unidade, especialmente os da linha de frente. O problema só será encaminhado a um dos Conselhos se envolver o Sistema de Enfermagem como um todo. A grande diferença é que no modelo anterior de gestão, a líder de enfermagem tomaria a conduta final.

Os primeiros resultados deste modelo implantado em 2002 pelo Einstein foram divulgados recentemente. Os indicadores comparam a satisfação do paciente e da equipe. O número de queixas relacionado à prestação de serviços de enfermagem, por exemplo, caiu drasticamente, de 36% para 8%, comparando-se 2001 e 2002. Já os elogios atribuídos ao setor cresceram 79% no período.

Enquanto o modelo anterior enfatizava a habilidade técnica e a hierarquia de cargos, este novo modelo prioriza o trabalho em equipe com foco no paciente e, além da parte técnica, valoriza as habilidades humanas e conceituais.

Com a implantação deste modelo, os avanços puderam ser percebidos tanto no atendimento ao paciente quanto na satisfação da equipe. Esse modelo propicia agilidade nas decisões e um canal de comunicação efetivo, pois utiliza a melhor informação nas resoluções das situações vivenciadas no ambiente assistencial possibilitando maior proximidade com o paciente e sua família, além do aumento da qualidade dos serviços. Daí a redução significativa das queixas. Para os profissionais, o diferencial é o reconhecimento de sua atuação e maior satisfação daqueles que prestam cuidado direto ao paciente, devido à participação nas decisões que afetam o seu dia-a-dia e a qualidade de seu trabalho.

O MODELO ASSISTENCIAL

O Sistema de Enfermagem do hospital desenvolve um cuidado integral e individual, fundamentado em evidências científicas e no trabalho interdisciplinar. Baseia suas decisões no julgamento clínico do enfermeiro, de forma a melhor atender às necessidades do paciente e família, obtendo sua participação ativa nas decisões sobre o cuidado a ser prestado. O paciente é o centro do processo de cuidar, integrado na tomada de decisão e participante do planejamento e implementação deste cuidado. Esta visão do cuidado, como principal foco da Enfermagem, deriva da Filosofia e Ciência do Cuidar desenvolvida pela teorista de enfermagem Jean Watson, que combina uma visão humanista e uma base sólida de conhecimentos científicos. Nesta visão de mundo, associada às habilidades de pensamento crítico, a ciência do cuidado tem como foco a promoção da saúde e não somente a cura da doença.

Neste cenário, o profissional central é o Enfermeiro Assistencial. Ele é o responsável pelo planejamento dos cuidados e estabelecimento de vínculo com o paciente e sua família.

O enfermeiro, neste modelo, possui igualmente o papel de integrador, facilitador e coordenador das relações entre paciente, equipe multiprofissional, médicos e instituição, à beira do leito.

Importante lembrar que o modelo assistencial adotado pela Instituição é uma diretriz clara de como a organização propõe-se a atingir sua excelência assistencial. É essencial que o enfermeiro tenha a clareza de seu papel neste contexto e aproprie-se dele com autoridade e responsabilidade. Assim, dentre os vários papéis que este profissional possa agregar no transcorrer do processo assistencial, sua atividade deve estar alinhada com sua atuação ético-profissional.

A análise e o planejamento deste modelo iniciaram-se em 2001, e seus primeiros resultados foram divulgados no início do 2º semestre de 2002. Os indicadores são fundamentalmente uma comparação da satisfação do médico, do paciente e da equipe multiprofissional e de enfermagem, antes e depois de sua implantação.

Os gráficos 1 e 2 apresentam os resultados que obtiveram bons conceitos, a saber: opinião de médicos e da equipe de enfermagem.








Principais pontos de melhoria apontados pelo médico:
- Conhecimento, pela enfermeira, do “caso” do paciente sob seus cuidados.
- Atuação da enfermeira RP como integrador da assistência ao paciente.
- Integração da equipe multi-profissional no atendimento do seu paciente.
- Assistência de enfermagem prestada ao seu paciente.

Principais pontos de melhoria apontados pela Enfermagem:
- Maior participação nas decisões tomadas em sua unidade de trabalho.
- Maior autonomia de ação para o trabalho.
- Encaminhamento para resolução de problemas na unidade.
- Respeito por sua opinião.
- Seu nível de motivação para o trabalho.
- Maior motivação de seu colega para o trabalho.
- Organização do volume de trabalho ou tarefas.

A implantação deste modelo foi concluída no final de fevereiro de 2003, incluindo todas as áreas assistenciais da instituição. O processo completo de implantação envolveu 1.259 profissionais de enfermagem e 315 profissionais da saúde.

O impacto desta iniciativa pode ser evidenciado quando comparamos as médias de expectativas dos pacientes e famílias entre 2000 a 2002, onde a Enfermagem se apresenta com 4,35 pontos (escala de avaliação: 0 a 5), passando do 4º para o 2º lugar no ranking anual das áreas.

O número de queixas espontâneas e elogios no período, como apresentado anteriormente, também são sensores do impacto da implantação do modelo assistencial.

Dentre os resultados da implantação deste modelo, o monitoramento sistemático de indicadores assistenciais de enfermagem, tais como: índice de úlcera de pressão, índice de flebite por cateter venoso periférico, índice de queda, entre outros, e o acompanhamento do risco de exposição a estes eventos (gráfico 3).





O MODELO DE EDUCAÇÃO CONTINUADA

O desenvolvimento técnico-científico, como uma das principais diretrizes do Sistema de Enfermagem, visa propiciar a capacitação profissional e a humanização do atendimento, fornecendo subsídios à implantação do modelo assistencial institucional e o atendimento ao paciente e médico.

Dentro do modelo de educação continuada, a Divisão de Prática Assistencial do HIAE implementou estratégias para sustentação de um sistema organizacional de aprendizado contínuo, baseado na administração participativa, interdisciplinaridade e incentivo à pesquisa científica, para a busca de evidências que sustentem a prática de enfermagem.

O modelo é descentralizado, realizado localmente junto à equipe de enfermagem e inclui um plano diretor voltado a atender as necessidades de desenvolvimento e capacitação de enfermeiros e do nível médio de enfermagem.

Esta iniciativa exigiu, entre outras ações, a revisão das competências clínicas dos enfermeiros e a implantação do Plano de Desenvolvimento das Competências Clínicas do Enfermeiro (PDCCE), que entre as suas finalidades tem como meta consolidar o pensamento crítico do enfermeiro e otimizar a interface com a equipe multidisciplinar. O PDCCE é um método educacional que possibilitou identificar e classificar os enfermeiros de acordo com as suas competências clínicas e a aplicação do conhecimento científico na prática assistencial (gráfico 4). Este processo é liderado por enfermeiros experientes, com mestrado ou doutorado, e cujo diferencial está em sua atuação direta junto a pacientes e equipes e não em salas de aula.





O plano de Treinamento e Desenvolvimento de Auxiliares e Técnicos do Sistema de Enfermagem tem seus objetivos direcionados para implementação de uma sistemática regular de capacitação, de modo a facilitar atitudes proativas e permanente interação destes profissionais com os assuntos referentes à assistência ao paciente e de gestão organizacional.

Além disso, a Enfermagem do HIAE conta com a infra-estrutura do Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, onde os profissionais têm acesso a um programa de educação continuada, incluindo e-learning e cursos da universidade corporativa, além de uma biblioteca que dispõe de acervo técnico-científico com publicações nacionais e internacionais em mídia impressa e eletrônica. Oferece, ainda, um programa interno de formação/educação continuada para promoção de Auxiliares em Técnicos de Enfermagem, que também é extensivo gratuitamente para profissionais que atuam em hospitais e prontos-socorros da Secretaria Municipal da Saúde. Atua também na organização de eventos científicos do Sistema de Enfermagem do hospital, voltados a difundir à comunidade de profissionais da área de saúde conhecimentos nas especialidades de Enfermagem; e sobretudo em alavancar o Simpósio Internacional de Enfermagem (SIEN), que em suas duas primeiras edições abordou as estratégias aqui apresentadas, sendo I SIEN: Experiência Profissional e Evidência Científica – a Identidade do Enfermeiro e II SIEN: Competência Profissional - da visão à ação, evento este transcorrido em agosto deste ano. Em março de 2004 irá acontecer o I Simpósio Nacional para Técnicos e Auxiliares de Enfermagem.

Em relação à formação em enfermagem, dados recentes do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – INEP-MEC mostram a existência de 153 cursos de Enfermagem de nível superior no país. O Einstein faz parte desses números. A Escola da Saúde oferece cursos de enfermagem em nível técnico, superior e pós-graduação nas especialidades de enfermagem pediátrica e neonatal, estando em fase final de desenvolvimento do curso de enfermagem oncológica.

CONCLUSÃO

O trabalho de uma liderança desafia pessoas por meio da idéia de que uma mudança não é tão simples, mas inevitável. As mudanças podem causar conseqüências que nem sempre poderão ser antecipadas ou evitadas. Existe um hiato entre o ontem e o contexto atual. Ao invés de ficarem congelados com o temor de encontrarem o lado escuro da mudança, os líderes nunca devem desistir de continuar se movendo para que estabeleçam um serviço de excelência no novo contexto do século XXI. É preciso construir um meio para que transitemos de um lado para o outro. Precisamos definitivamente pensar como líderes num novo contexto. Se tomarmos tempo para criarmos uma visão e um propósito para nossa vida, possivelmente conseguiremos pensar nosso trabalho com um olhar mais abrangente, mais crítico e estratégico.

REFERÊNCIAS

1. Aiken L Clarke SP, Sloane DM, Sochalski J, Silber J. Hospital nurse staffing and patient mortality, nurse burnout, and job dissatisfaction. JAMA 288(16):1987-1993, October 23/30, 2002.
2. Needleman J et al. Nurse-staffing levels and the quality of care in hospitals. N Engl J Med (2002).
3. Cho SH, Ketefian S, Barkauskas VH, Smith DG. The effects of nurse staffing on adverse events, morbidity, mortality, and medical costs. Nursing Research. 52(2):71-79, March/April 2003.
4. Bork AMT. Enfermagem de Excelência: Da Visão à Ação. 1ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara Koogan; 2003.