Ao longo dos anos os conhecimentos na área da dor foram sendo estendidos aos profissionais de diversas outras áreas da medicina, gerando uma maior preocupação em relação aos sintomas dolorosos dos pacientes. Pioneiro no tratamento da dor, o Hospital 9 de Julho aumentou sua atenção a esta área e tornou possível o Centro de Dor e Neurocirurgia Funcional. Idealizado pelo neurocirurgião do Grupo de Neurocirurgia Funcional do Hospital das Clínicas de São Paulo, Dr. Claudio Fernandes Corrêa, o Centro oferece, em um único local, todos os recursos disponíveis no mercado mundial para o tratamento da dor. Reúne, também, uma equipe multidisciplinar habilitada para tratar, especificamente, a dor dos pacientes.
Na área da neurocirurgia funcional, o Centro possibilita uma assistência completa, tanto em relação à avaliação clínica quanto ao tratamento medicamentoso. São tratados desde movimentos involuntários, como Parkinson, distonia, tremores essenciais, entre outros, e oferecidas todas as opções cirúrgicas existentes no mundo na área de neuroncologia, inclusive dispõe de radiocirurgia e braquiterapia.
O chefe do Centro de Dor e Neurocirurgia Funcional do Hospital 9 de Julho, Dr. Claudio Corrêa, falou nesta entrevista à Prática Hospitalar sobre a evolução, carências e desafios na área da dor no Brasil e abordou, também, as novas alternativas que o Centro trouxe para pacientes acometidos pela dor. Confira a seguir a entrevista na íntegra.
Prática Hospitalar - Como surgiu a idéia de criar o Centro de Dor e Neurocirurgia Funcional?
Dr. Claudio Fernandes Corrêa - Este Centro é fruto de uma idéia que iniciei em 5 de dezembro de 2001. No Hospital 9 de Julho trabalhávamos com dor há algum tempo e observamos que se fizéssemos o centro da maneira que ele foi feito hoje, ele seria o único do país a possuir uma área não adaptada, mas sim projetada especificamente e principalmente para o tratamento daqueles que têm dor. Assim, nosso Centro conta com profissionais da área da saúde mental, medicina física, área odontológica, neurológica, enfermagem e anestesiológica. Essa multidisciplinaridade de profissionais trabalha em um mesmo espaço, gerando idéias e fazendo reuniões para manterem-se integrados. Isso certamente viabilizou uma atenção melhorada ao paciente.
P. H. - Quais os serviços disponibilizados pelo Centro?
Dr. Claudio - O Centro possui tudo que existe de mais moderno em relação ao tratamento da dor. A assistência social, que é uma área muito valorizada nos EUA, é a única que precisamos melhorar. Além disso, temos serviços até melhores do que os oferecidos em outros países. Temos condições de tratar clinicamente todo paciente que apresentar dor; podemos, inclusive, realizar todo tipo de cirurgia que vise seu tratamento. Disponibilizamos, também, métodos neuroaumentativos, que incluem sistemas de infusão de drogas e métodos de neuroestimulação.
Damos assistência em medicina física: fisiatria, fisioterapia e acupuntura. Na área da psicologia, temos biofeedback, psicologia clássica e psiquiatria. Também dispomos de profissionais nas áreas de farmácia, fonoaudiologia e homeopatia.
Assim, com exceção da assistente social, temos todos os profissionais habilitados para assistir o paciente com dor, tais como farmacêuticos, enfermeiros, fonoaudiólogos, entre outros.
P. H. - De modo geral, os hospitais têm investido no tratamento da dor?
Dr. Claudio - A dor tem sido uma preocupação da maioria dos hospitais brasileiros, mas nenhum, com exceção do 9 de Julho, disponibiliza em um só local com todos os recursos existentes para o tratamento da dor.
P. H. - Qual o principal objetivo desse Centro de Dor?
Dr. Claudio - O objetivo principal é beneficiar o maior número possível de pacientes no sentido de tratar suas dores, de modo a oferecer todos os recursos necessários para que os profissionais tenham um suporte adequado para atender os pacientes. Contamos com uma equipe bem preparada para assistir o paciente com dor, de modo que, por exemplo, o oncologista vai continuar trabalhando na doença oncológica enquanto apenas esta equipe se preocupa com a dor de seu paciente. A equipe auxiliará não só o profissional de oncologia, mas também de cirurgias torácicas, ortopédicas, cirurgia do aparelho digestivo, etc.

Centro de Dor: moderno e bem estruturado.
|
Os convênios e seguros de saúde sabem que quem tem dor crônica gera um gasto enorme de tempo e dinheiro, pois esses pacientes mudam freqüentemente de consultório e repetem exames. Por isso é importante observar que quando concentramos todos os recursos em um único ambiente adequado para isso, conseguimos minimizar custos e melhores resultados surgirão em curto prazo.
P. H. - Qual a situação do Brasil na área da dor?
Dr. Claudio - Se compararmos a situação atual com cinco anos atrás, iremos observar uma grande melhora, principalmente porque um número maior de profissionais passou a ter acesso a informações e hoje são capazes de tratar a dor. Nos cursos de formação de profissionais não existe, na maioria deles, informações sobre o assunto, de modo que ao terminar um curso profissional na área da saúde o indivíduo não aprendeu nada a respeito do tratamento da dor.
Já os eventos realizados nesta área e as publicações que trazem informações sobre dor fizeram com que gradativamente muitos profissionais de diferentes áreas fossem adquirindo conhecimentos que facilitam ao tratar a dor.
P. H. - Como está a postura dos profissionais de outras áreas no que se refere ao tratamento da dor?
Dr. Claudio - Também melhorou. No caso da oncologia, na maioria das vezes o profissional não valorizava o fenômeno doloroso como deveria, mas hoje isso é menos freqüente, inclusive na reumatologia, na ortopedia e em outras áreas. O ortopedista em cirurgias ortopédicas, por exemplo, tratava a dor como algo que fazia parte da cirurgia, mas atualmente existe um cuidado especial em relação ao controle da dor pós-operatória, ou seja, uma atenção muito maior ao doente.
P. H. - Quais têm sido os principais desafios nesta área?
Dr. Claudio - O maior desafio é que o tratamento da dor neuropática, dor crônica mais difícil de ser tratada, está longe de ser totalmente resolvido, porque ela decorre da lesão do tecido nervoso e, ainda hoje, é impossível regenerar o tecido nervoso na sua totalidade. Neurônios que morreram não são recuperados. Se um dia conseguirmos fazer a regeneração, estaremos tratando a dor e curando o que a gerou. Então, por exemplo, em uma lesão por vírus da varicela que danificou o neurônio, talvez daqui alguns anos seja possível substituir este neurônio; um tiro na medula, que além de paraplegia gerou alteração de sensibilidade e dor, talvez um dia conseguiremos regenerar; um acidente vascular cerebral que evoluiu para dor talâmica, talvez consigamos recompor o tecido danificado. Hoje isso tudo ainda não é possível, portanto a maior dificuldade é a não-existência de uma condição clínica de regeneração completa do tecido nervoso lesado que é o causador da dor neuropática.
P. H. - Qual a importância do tratamento da dor em relação ao paciente oncológico?
Dr. Claudio - Todos os pacientes com câncer deveriam ter sua dor tratada, pois além do doente saber que tem uma doença difícil de ser controlada e de se preocupar com sua sobrevida, o sofrimento causado pela doença por si só (passando por radioterapia, quimioterapia, etc.) já é muito depreciativo em relação à qualidade de vida desse paciente. Se a dor fosse debelada parcial ou totalmente, seria possível uma melhor qualidade de vida para esse paciente. Ele conseguiria dormir, se alimentar e conviver melhor com a família e a sociedade.
Exatamente na dor oncológica, o especialista está autorizado a utilizar alguns procedimentos de interrupção de vias da condução da dor. Então existem muitas alternativas que podem ajudar ou às vezes aliviar por completo a dor do paciente oncológico. Lembro que 40% a 60% dos pacientes que têm doença oncológica devem apresentar dor durante a sua evolução e 10% deles vão requerer um procedimento mais invasivo para o alívio da sua dor.
Não acredito que o paciente oncológico tenha que receber um cuidado maior do que outro paciente, mas sem dúvida a dor dele tem que ser tratada e voltada para esta questão de oferecer a ele uma melhor qualidade de vida.
P. H. - Qual o papel da morfina no tratamento da dor?
Dr. Claudio - A morfina e seus derivados são analgésicos puros muito importantes. No passado foram muito utilizados para dor oncológica. Hoje, descobrimos receptores de opiáceos no joelho e em outras áreas do corpo. Assim, em algumas circunstâncias, não em todas e sempre sob a orientação de profissionais habilitados, os opiáceos podem ser prescritos não necessariamente só para pacientes com dor oncológica.
Tanto a morfina como também seus derivados são drogas que podem e são freqüentemente utilizadas em dores musculares, fibrose peridural e outros tipos de dor que podem em algum momento ter benefício com o uso de opiáceos reforçando a analgesia.
P. H. - O fato do Brasil ser um dos países que menos utilizam a morfina é um indício de que tratamos menos a dor do que outros países?
Dr. Claudio - Acredito que não seja apenas por este fator, embora isso realmente ocorra. Tenho impressão de que a falta de orientação da população, que relaciona os opiáceos a uma morte breve, e a desinformação por parte dos profissionais da saúde, são o que mais interfere no tratamento da dor. É claro que alguns opiáceos são dificultados na sua prescrição, requerem um prontuário especializado, exigindo que o médico vá à Secretaria da Saúde, ou seja, gera um certo trabalho, sendo este, também, um fator que dificulta.
P. H. - As opções terapêuticas existentes hoje para o tratamento da dor aguda e crônica são suficientes?
Dr. Claudio - A terapêutica da dor tem evoluído muito ao longo dos anos. O tratamento da dor aguda sempre foi mais fácil. Na dor crônica lançamos mão de antidepressivos, principalmente tricíclicos e de anticonvulsivantes, que são remédios que sabidamente interferem no alívio da dor crônica e neuropática.
É um pouco utópico acreditarmos em medicamentos muito específicos para isso, porque o fator gerador do problema continua existente, pois não conseguimos regenerar o tecido lesado e há uma certa dificuldade de qual o remédio perfeito para o problema. Por exemplo, a alodinia, que é uma dor terrível, que aparece por estímulos não-dolorosos, como o tecido da roupa tocando a pele, é muito melhorada com a gabapentina, sendo então um anticonvulsivante importante. Já a dor paroxística, que parece um choque, é muito melhorada com o uso de carbamazepina e a oxcarbazepina, ou seja, são dois anticonvulsivantes excelentes para isso. Já as dores que são do tipo queimação são melhoradas com o uso de amitriptilina e imipramina, que são antidepressivos tricíclicos.
Então, no arsenal terapêutico existem falhas decorrentes do fato de não estarmos tratando a causa, mas sim os sintomas, portanto a causa continua existindo. No dia em que for possível tratar a causa, chegaremos ao ideal.
P. H. - Qual sua postura em relação à medicina alternativa no que se refere ao tratamento da dor?
Dr. Claudio - Se eu fosse muito descrente em relação a esta área, no mínimo diria que ela é importante porque ativa de alguma maneira o sistema supressor de dor. A pessoa, ao procurar determinada técnica ou profissional, cria tanta expectativa e tanto envolvimento que isso ativa importantemente o sistema inibidor de dor. São alternativas importantes, no mínimo, como estimulantes para o sistema supressor de dor.