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| Dra. Marisa D'Agostino Dias |
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O Novo e Maior Desafio
da Terapia Intensiva
Há 40 anos, o início das atividades das Terapias Intensivas coincidiu com a informatização da sociedade como um todo e da área médica em particular. A entrada em operação de equipamentos microprocessados para diagnóstico, monitorização e terapêutica modificou aceleradamente a abordagem dos pacientes graves. Como conseqüência, a atividade do médico intensivista deixou de ser empírica ou complementar, tornando obrigatória a especialização. Atualmente, dentro das UTIs de bom nível, a maioria dos médicos que atendem os pacientes é especialista.
Nossa especialidade médica exige constante revisão e atualização como as outras, porém com uma importante diferença. O médico intensivista deve ter um conhecimento aprofundado de alterações metabólicas e de insuficiência orgânica de pacientes clínicos e cirúrgicos, tanto previamente saudáveis como portadores de comprometimentos orgânicos variáveis. Por isso, o intensivista deve ser um especialista, porém ao mesmo tempo um generalista.
As prescrições dos pacientes internados em UTI contêm uma grande quantidade de itens, que vão desde dietas especiais (enterais e parentais), antibióticos, anticoagulantes, protetores do trato digestivo, cardiotônicos, drogas vasoativas, sedativos, curarizantes, anti-hipertensivos, antitérmicos, antieméticos, antidiarréicos, analgésicos, até medicamentos específicos, como antineoplásicos ou anti-helmínticos. Logo, o médico intensivista também deve ter conhecimentos dos efeitos de drogas tanto antigas como novas, além das interações das mesmas.
A popularização e disponibilidade da Internet acrescentou ainda maior rapidez de acesso a todas as novidades científicas. Em poucos minutos pode-se saber se uma conduta pode ou não ser adequada para um determinado paciente.
Em suma, na UTI pode-se atender com eficiência pacientes cada vez mais graves e complexos. Muitos doentes que antes seriam casos sem solução, atualmente são recuperados e têm alta da UTI e do hospital e podem retomar sua vida produtiva.
A contrapartida, entretanto, é que muitos pacientes graves e complexos que sobrevivem à fase aguda da UTI, em lugar de terem alta, entram numa situação intermediária de certa estabilidade, da qual não se recuperam. São os “pacientes crônicos de UTI”. Em todas nossas Unidades há inúmeros casos de pacientes que permanecem dependentes de assistência ventilatória mecânica por período de meses e até anos internados. Um pequeno número pode ter alta para casa em sistema de “home care”, mas a maior parte por motivos diversos permanece na UTI. Esse grupo de pacientes infinitamente mantidos no limbo da UTI está se tornando cada vez maior, posto que são inevitáveis dentro do atual sistema de atendimento. Não havendo possibilidade de prever com segurança que a evolução final será essa, nem se pode imaginar de não se iniciar o tratamento, o que poderia ser uma eventual solução, desde que aceito pelo paciente e família.
Assim, os médicos intensivistas altamente preparados e com toda tecnologia e informação disponíveis a seu alcance são por enquanto incapazes de oferecer alguma solução para esse novo problema representado pelo acúmulo de pacientes “crônicos de UTI”. Por incrível que pareça, esse é o novo e maior desafio da Terapia Intensiva dos nossos dias.
Dra. Marisa D’Agostino Dias |