Osvaldo Giannotti Filho:
o Médico e o Homem

O MÉDICO

Em sua vida acadêmica transcorrida na Escola Paulista de Medicina, Giannotti foi sempre muito participante: monitor, estagiário, presidente do Centro Acadêmico Pereira Barreto, representante do Corpo Discente na Congregação da Escola Paulista de Medicina e no Conselho Departamental da Escola Paulista de Medicina.

No Hospital A. C. Camargo fez a sua residência médica de 1971/73, onde durante 22 anos sua carreira foi sempre ascendente: médico titular do Departamento de Anatomia Patológica, Coordenador da Residência Médica, Diretor do Departamento de Anatomia Patológica e Superintendente do hospital.

Em 1974, Giannotti tornou-se Docente de Anatomia Patológica na Escola Paulista de Medicina e na Faculdade de Medicina do ABC. Na Escola Paulista de Medicina e no Hospital A. C. Camargo foi paraninfo de turmas de formandos. Tais homenagens prestadas a um anatomopatologista são uma ocorrência rara, aqui e no estrangeiro, o que confirma o seu prestígio entre os graduandos.

O meu relacionamento profissional com o Giannotti remonta ao ano de 1970, quando cumpria o estágio no Departamento de Anatomia Patológica, onde eu era médico titular. O seu trabalho de macroscopia era executado com diligência e disciplina. Sempre fez questão de fazer ele próprio o exame macroscópico das peças cirúrgicas, mesmo após exercer o cargo de titular, o que lhe trouxe inúmeros benefícios ao longo de sua carreira, devido à precisão da macroscopia.

Excelente patologista cirúrgico e oncopatologista, Giannotti pontificou na patologia mamária. Sua bela tese de mestrado “Doença de Paget do Mamilo: estudo anatomopatológico de 85 casos” revelou a maior incidência percentual da literatura mundial até então.

Como Diretor da Defesa Profissional da Associação Paulista de Medicina (1982), transformou-se em bombeiro itinerante, tanto na capital como no interior, deslocando-se constantemente para acudir problemas profissionais conflitantes. No desempenho de sua longa presidência na APM 1983-87, tornou-se um dos maiores presidentes da mesma. Ao dotá-la de uma Assessoria de Imprensa, trouxe a público pela primeira vez a atuação científica e comunitária da Associação.

Na Fundação Antonio Prudente, ao ser nomeado Superintendente do Instituto Central 1985-87, dedicou-se em tempo integral ao trabalho, tendo realizado uma administração inovadora. Criou a Central de Quimioterapia e permitiu que os doentes adultos (Inamps) pudessem gozar da companhia de familiares acompanhantes, visando um maior conforto e solidariedade aos mesmos; realizou a primeira, e até hoje única, pesquisa de opinião entre os doentes de ambulatório e internados, abrangendo todo o atendimento. Em 1991 ocupou o cargo de Diretor do Departamento de Anatomia Patológica.

Gianotti foi o grande apoiador e incentivador do Programa de Ensino dos Cuidados Paliativos ao Paciente Fora dos Recursos Terapêuticos de Cura (paciente terminal) a nível de graduação, que resultou na instalação do Ambulatório de Cuidados Paliativos e o Setor de Cuidados Paliativos da Clínica Médica da Unifesp/EPM.

O HOMEM

A figura do profissional deve ser plasmada a partir da matriz do homem. Giannotti foi um líder nato. O seu relacionamento com as pessoas, colegas, colaboradores, amigos, foi baseado no respeito e confiança mútuos, não importando a faixa etária nem a social. Todos o chamavam simplesmente de Giannotti. Foi um amigo na real acepção da palavra. Teve um caráter retilíneo, conciliador, sonhador, lutador pelas causas perdidas. Intransigente com as infrações éticas e morais. Preocupou-se constantemente com as implicações humanas do laudo histopatológico, quase sempre fatal para o doente. Suas ações foram quase sempre uma conotação comunitária. Inconscientemente, o seu lema foi sempre o de “servir e não servir-se”. Um traço marcante era o sorriso franco, amável, por vezes embaraçado e quase se desculpando, por vezes maroto... ele foi intrinsecamente apegado às suas origens, às suas duas alma mater – a Escola Paulista de Medicina e o Hospital A. C. Camargo.

Giannotti faleceu no último dia 20 de abril, em sua residência e a sós. O seu desaparecimento é uma das maiores perdas pessoais que já sofri.


Prof. Dr. Marco Tullio de Assis Figueiredo