O Estado de São Paulo possui o maior número de especialistas em infectologia de todo o Brasil. Em seu cadastro, a Sociedade Paulista de Infectologia (SPI) conta hoje com cerca de 400 sócios ativos, correspondendo a quase metade dos especialistas do país inteiro. Por essa razão, a SPI vem mantendo um papel de liderança no país e tem como principal objetivo voltar a atenção para a capacitação desse grande número de infectologistas que atuam no Estado e que progressivamente irá aumentar nos próximos anos.
“A Sociedade Paulista de Infectologia vem assumindo uma posição de destaque no contexto das especialidades médicas, por se tratar de uma especialidade crescente, não só pelas características das doenças que fazem parte da infectologia, como também pela íntima relação com os problemas de países emergentes, como é o nosso caso, e isso faz com que o interesse pela especialidade seja cada vez maior entre os médicos jovens que saem das universidades”, ressalta o ex-presidente da SPI e professor livre-docente da FMUSP, Dr. Antônio Alci Barone. De acordo com o médico, a infectologia tem se tornado também bastante atraente pelo fato de algumas patologias infecciosas, particularmente a Aids, as hepatites virais e o grande problema das infecções hospitalares, terem gerado uma alta demanda de profissionais especializados nessas áreas.
“São problemas que envolvem um atendimento de profissionais especializados, que além de serem infectologistas precisam ter um conhecimento bastante desenvolvido dessas respectivas doenças, pois se trata de doenças complexas, relacionadas a um diagnóstico difícil, freqüentemente baseado em exames de maior complexidade, de biologia molecular, anatomia patológica e, no caso da infecção hospitalar, um grande conhecimento em microbiologia, especialmente em bacteriologia, virologia e micologia”, diz o especialista. Para o Dr. Barone, a Sociedade Paulista de Infectologia deve se dirigir fundamentalmente aos infectologistas que estão na linha de frente, atuando nos ambulatórios e hospitais da rede pública e privada, sejam eles ligados ou não à atividade acadêmica, oferecendo-lhes a oportunidade de estar continuamente em contato com os grandes progressos que ocorrem na especialidade.
Conforme explica o médico, as sociedades de especialistas atuam na capacitação de seus profissionais basicamente através dos grandes congressos que realizam. No caso da SPI, os congressos são bianuais, alternando-se com o Congresso da Sociedade Brasileira: “São dois eventos hoje praticamente da mesma magnitude. Para nossa felicidade, na última gestão conseguimos realizar o 3º Congresso Paulista de Infectologia em Piracicaba, que foi um congresso comparável, não só em número de inscritos como do ponto de vista do nível científico, ao Congresso Brasileiro, e pretendemos agora manter essa tradição de forma crescente nos próximos eventos. Para tanto, estamos organizando já em fase final o 4º Congresso da SPI, que será realizado na cidade de Santos.”
Outras ações, segundo o infectologista, também são muito importantes dentro de uma sociedade médica, como por exemplo a realização de cursos de reciclagem e atualização, que na SPI vêm acontecendo de forma contínua, não só na capital, mas em várias cidades do interior e litoral. “Durante a minha gestão houve uma continuidade do que vinha acontecendo anteriormente, mas temos planos de fazer com que essas reuniões se realizem com maior freqüência nas cidades do interior, utilizando os locais que têm centros com maior capacidade de aglutinação como referência para a realização desses cursos que serão repetidos ao longo do ano, abrangendo o Estado inteiro”, salienta.
Uma outra finalidade também importante da SPI, segundo Dr. Barone, é atuar junto às autoridades de saúde pública do país, colaborando para que essas autoridades possam agir de forma adequada nos problemas de saúde relacionados à infectologia, que são numerosos e cada vez mais freqüentes. Além das antigas doenças infecciosas e parasitárias que comprometem grande parte da população, ainda há as novas epidemias, que se caracterizam não só pela sua gravidade, como pela elevada incidência, e ainda as doenças denominadas emergentes e reemergentes, que causam um importante prejuízo à saúde do hospedeiro humano e também exigem uma atuação rigorosa das autoridades de saúde.
“A Sociedade tem uma linha de atuação no que diz respeito à participação ativa em todos os órgãos que auxiliam as autoridades de saúde pública, estabelecendo normas, leis, regras, maneiras de atuar, não só em relação ao diagnóstico, como também do ponto de vista de tratamento e de prevenção dessas doenças”, informa o especialista. A SPI teve a oportunidade de participar, através de seus diretores e associados, de várias comissões assessoras da Secretaria de Saúde, no intuito de dar apoio ao governo do Estado de São Paulo e também ao próprio Ministério da Saúde. “Na realidade, existe atualmente uma tradição das próprias autoridades de solicitarem a colaboração das sociedades médicas, uma vez que os especialistas têm mais condições técnicas de emitir opinião.” As comissões assessoras que as Secretarias de Saúde dos Estados organizam, ou mesmo o Ministério, discutem amplamente todos os aspectos relacionados ao controle das doenças, diagnóstico e tratamento, fazendo com que os programas de atenção à saúde se realizem de uma forma contínua e abrangente. “Acredito que há um apoio bem dirigido às atividades administrativas da SPI e dessa maneira as dificuldades vêm diminuindo bastante, mesmo aquelas que já ocorreram no passado e ainda persistem, particularmente no que diz respeito à capacidade financeira das sociedades, que fica limitada, na maioria das vezes, à contribuição que elas recebem da federada”, ressalta o médico.
CONSENSO DE HEPATITE C
Entre as ações da última gestão da SPI está a realização do I Consenso da Sociedade Paulista de Infectologia na abordagem da hepatite C, apresentado durante o 3º Congresso Paulista de Infectologia, no ano de 2002, na cidade de Piracicaba. Este Consenso será atualizado no próximo Congresso em Santos.
“As hepatites virais são uma área em que temos procurado investir fortemente. Embora a hepatite B seja conhecida há mais de 30 anos, a hepatite C é uma doença relativamente nova, que vem tomando proporções de uma epidemia muito grande no Brasil todo”, diz o especialista, esclarecendo: “Procuramos dar um destaque a esse problema em primeiro lugar porque é uma área ainda de muitas dúvidas, controvérsias; existem consensos com condutas variadas, nacionais e internacionais, de modo que também achamos importante trazer uma contribuição regional, pois temos de considerar a doença em nosso meio, levar em consideração os nossos pacientes, as nossas capacidades, ou seja, a abordagem da hepatite C do ponto de vista do médico que vive no Estado de São Paulo, e com isso poder contribuir, inclusive, para que esse consenso seja aproveitado em outros Estados ou mesmo em todo o território nacional.”
De acordo com o Dr. Barone, o I Consenso de Hepatite C obteve um feedback muito positivo entre os especialistas, repercutindo não só em todo o Estado de São Paulo, mas no Brasil inteiro, e tem servido de apoio assistencial e didático, sendo utilizado em aulas, cursos e conferências como referência para a abordagem da hepatite C. “Evidentemente, outras áreas da especialidade também estão merecendo uma atenção maior dos especialistas do Estado de São Paulo e muito provavelmente essa nova gestão irá contemplar esses outros aspectos que não tivemos a oportunidade de efetivar na gestão anterior”, completa.
O grande desafio futuro da Sociedade Paulista de Infectologia, segundo o médico, é dar condições para que a população tenha uma assistência médica adequada em relação às doenças que envolvem a especialidade, com maiores recursos, não só do ponto de vista de pessoal da área de saúde, mas também de equipamentos, através dos meios diagnósticos necessários, e medicamentos mais efetivos para tratar os doentes. “Necessitamos ainda dos meios de prevenção adequados, pois a visão do médico infectologista é a de prevenir as doenças, uma vez que as patologias infecciosas e parasitárias, de maneira geral, são bastante preveníveis, não só por medidas de imunização, como por medidas de saneamento básico e outras que as autoridades de saúde seguramente poderão colocar em prática para evitar que a doença se propague e atinja um número maior de indivíduos”, ressalta, complementando: “Felizmente, notamos que hoje existe, principalmente nos centros maiores, uma filosofia clara de voltar as atenções e os recursos para a prevenção das doenças, que certamente é o objetivo maior da medicina”, conclui.