Panorama Atual da Micologia Médica
Requer Novos Desafios


Entrevista com a Profa. Dra. Maria Luiza Moretti
Professora Titular de Infectologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.
Diretora do Laboratório de Epidemiologia Molecular em Doenças Infecciosas – LEMDI da Unicamp.


Por Cynthia de Oliveira Araujo


Profa. Dra. Maria Luiza Moretti


A micologia médica mundial sofreu grandes mudanças nos últimos tempos. Paralelamente a um número crescente de espécies de fungos, já documentado na epidemiologia das infecções fúngicas, houve o desenvolvimento de novos recursos diagnósticos e terapêuticos. Hoje, essas infecções já são responsáveis por uma parcela significativa de complicações infecciosas em pacientes graves, como, por exemplo, imunodeprimidos e transplantados, que permanecem hospitalizados por tempo prolongado e são submetidos a procedimentos médicos invasivos.

Nesta entrevista à Prática Hospitalar, a Dra. Maria Luiza Moretti, Diretora do Laboratório de Epidemiologia Molecular em Doenças Infecciosas – LEMDI – da Unicamp, conhecedora e pesquisadora do assunto há muitos anos, aborda a prevalência dessas infecções, a importância dos recursos diagnósticos e terapêuticos, a necessidade de estudos farmacoeconômicos nessa área e da troca de experiências entre infectologistas, hematologistas, transplantadores e intensivistas, que comumente tratam esses pacientes, além do importante trabalho desenvolvido no Laboratório de Epidemiologia Molecular em Doenças Infecciosas da Unicamp (LEMDI).

Prática Hospitalar - Qual a prevalência das infecçõesfúngicas no mundo?
Dra. Maria Luiza Moretti - As infecções fúngicas oportunistas, em especial a candidemia, representam aproximadamente entre a quarta e sétima causa de infecção de corrente sangüínea nos hospitais de grande porte no mundo. Além disso, apresentam alta mortalidade, variando de 35% a 70% dos casos.

P. H. - E nos hospitais brasileiros?
Dra. Maria Luiza - Nos hospitais brasileiros universitários e de grande porte, a freqüência é muito semelhante à dos hospitais do mundo.

P. H. - Quais os patógenos mais prevalentes?
Dra. Maria Luiza - As infecções por leveduras do gênero Candida são as mais freqüentes, acometendo os pacientes gravemente enfermos hospitalizados em unidades de risco, como a unidade de terapia intensiva e os fungos filamentosos do gênero Aspergillus têm especial incidência nos pacientes neutropênicos, como os transplantados de medula óssea e os transplantados de órgãos sólidos.

P. H. - Quais os métodos mais eficazes no diagnóstico de Candida e Aspergillus?
Dra. Maria Luiza - O diagnóstico das infecções por Candida é realizado principalmente pelo encontro do fungo nas culturas, tais como hemoculturas, culturas de secreções, etc. É importante ressaltar que os sinais clínicos também podem colaborar no diagnóstico de candidemia, bem como os fatores de risco associados.

Quanto ao Aspergillus sp, o diagnóstico de aspergilose invasiva é realizado com base no diagnóstico de imagens, como a tomografia de tórax, onde pode ser visualizados o sinal do halo e o sinal do crescente; o encontro de hifas no exame histopatológico de tecidos, e também a detecção da elevação de títulos de galactomanana no sangue.

P. H. - Como optar pelo melhor método de diagnóstico?
Dra. Maria Luiza - Infelizmente, o melhor método diagnóstico nem sempre está disponível. O sistema automatizado de hemoculturas, a realização de tomografias de tórax seqüenciais em pacientes gravemente imunocomprometidos (transplantados de medula óssea, por exemplo), a pesquisa de antigenemia para Aspergillus, nem sempre estão disponíveis nos hospitais.

P. H. - Quais os principais fatores de risco para as infecções fúngicas?
Dra. Maria Luiza - Os principais fatores de risco associados são o uso de antibióticos de amplo espectro e o tempo prolongado de antibióticos, a grave imunossupressão, o uso de corticosteróides, nutrição parenteral, procedimentos invasivos, uso de cateteres intravasculares, grandes cirurgias, entre outros.

P. H. - Quando e como o especialista deve suspeitar de que o paciente sofre de uma infecção fúngica que pode ter uma pior evolução?
Dra. Maria Luiza - Quando o paciente apresentar os fatores de risco anteriormente citados e, principalmente, quando o paciente apresentar uma somatória de fatores de risco, febre prolongada em uso de antibiótico de amplo espectro, piora das condições clínicas em vigência do uso de antibióticos.

P. H. - Quais os riscos para pacientes graves em Unidades de Terapia Intensiva?
Dra. Maria Luiza - Os pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva estão expostos a diversos fatores de riscos já citados, além da própria patologia de base que motivou a internação na UTI.

P. H. - Quais os custos para o diagnóstico tardio dessas infecções?
Dra. Maria Luiza - As infecções fúngicas aumentam o tempo e principalmente o custo de internação dos pacientes. Sem mencionar a elevada mortalidade das infecções fúngicas, que pode alcançar de 30% a 70% dos casos.

P. H. - Qual sua experiência no tratamento dessas infecções no(s) serviço(s) no(s) qual(is) atua?
Dra. Maria Luiza - O infectologista atua principalmente nas infecções fúngicas dos pacientes com infecção pelo HIV, nos pacientes graves internados nas UTIs juntamente com o intensivista e com o hematologista para a melhor condução dos casos de infecções fúngicas.

P. H. - Qual a importância de infectologistas, hematologistas, transplantadores e intensivistas trocarem suas experiências sobre o tratamento de infecções fúngicas?
Dra. Maria Luiza - Tais especialistas são os médicos que estarão cuidando mais freqüentemente de pacientes com infecções fúngicas invasivas. Por isso, a importância do conhecimento das infecções fúngicas nestes grupos de pacientes.

P. H. - O que os especialistas esperam dos novos antifúngicos?
Dra. Maria Luiza - Os especialistas esperam antifúngicos com menor toxicidade e com espectro de ação amplo, além de uso oral de drogas antifúngicas com boa biodisponibilidade para o tratamento seqüencial das infecções fúngicas. Lembrando que o custo tem papel fundamental em nosso país e que custos altos podem limitar o uso de drogas novas e eficazes.

P. H. - Os estudos farmacoeconômicos nessa área podem ser válidos? Por quê?
Dra. Maria Luiza - Sim. Os estudos de farmacoeconomia devem ser implementados para melhor esclarecimento dos custos x benefícios dos novos antifúngicos.

P. H. - Como avalia as últimas mudanças no cenário da micologia médica?
Dra. Maria Luiza - Nos últimos anos estamos observando mudanças na freqüência da distribuição das espécies de Candida nas candidemias. Por exemplo, a Candida albicans, que representou o agente mais freqüente de candidemias no início da década de 90, vem perdendo a liderança para o aumento crescente das espécies não-albicans, como a C. glabrata nos Estados Unidos e a C. tropicalis e C. parapsilosis no Brasil. Outro aspecto a destacar é o aumento de espécies não-albicans resistentes ao fluconazol.

P. H. - Quais as vantagens do surgimento dos novos antifúngicos?
Dra. Maria Luiza - Os novos antifúngicos vêm trazer ampliação do espectro de ação para fungos emergentes e refratários à terapêutica antifúngica convencional, como o Fusarium sp e o Scedosporium sp. Também trazem novas opções terapêuticas para as espécies não-albicans, além da vantagem do uso oral para terapêutica. E apresentam menor toxicidade quando comparados à anfotericina B.

P. H. - Gostaria que comentasse o trabalho desenvolvido no Laboratório de Epidemiologia Molecular em Doenças Infecciosas (LEMDI) da Unicamp.
Dra. Maria Luiza - O LEMDI desenvolve pesquisas na área de epidemiologia molecular tanto para bactérias como para fungos. Realiza testes de suscetibilidade aos antifúngicos, pelos métodos do NCCLS, E-test, Bio Cell Tracer e tipagem molecular de bactérias e fungos pelas técnicas de eletroforese em campo pulsátil (PFGE) e PCR, além de estudos que envolvem seqüenciamento tanto de fungos como de bactérias. Atualmente, estão em andamento pesquisas com Aspergillus, Fusarium, Cryptococcus e Candida no âmbito de infecções fúngicas e em relação a bactérias, Pseudomonas aeruginosa, Staphylococcus aureus, Staphylococcus epidermidis, Klebsiella sp e Enterococcus sp. Os estudos envolvem pacientes imunocomprometidos por diferentes patologias, inclusive Aids, como pacientes ambulatoriais e não-imunocomprometidos. São realizadas as investigações comprobatórias de surtos intra-hospitalares, tanto no HC-Unicamp como para outros hospitais, além de estudos na área de infecção hospitalar. Realiza pesquisas colaborativas internacionais com Chiba University, Japão, para os estudos das infecções fúngicas e mais recentemente com a University of Calgary no Canadá e o CPQDA da Unicamp para o desenvolvimento de estudos sobre biofilmes.