Entre os dias 16 e 20 de março, aconteceu na cidade de Salvador, Bahia, o Biennial Scientific Meeting of the International Association for the Study of the Liver, o Congresso da Sociedade Internacional para Estudo das Doenças do Fígado (IASL), juntamente com o 18º Meeting of the Latin American Association for the Study of the Liver (Congresso da Associação Latino-Americana para Estudo do Fígado - ALEH). O evento reuniu cerca de 700 especialistas, entre brasileiros e 350 estrangeiros, para discutir o que existe de mais moderno e atual na área da hepatologia.
“Uma das coisas mais importantes deste evento foi sem dúvida nenhuma reunir profissionais do mundo todo no intuito de intercambiar experiências, e com isso houve um crescimento científico enorme”, salientou a presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia, Dra. Edna Strauss, uma das responsáveis pela organização local do evento. “Certamente o objetivo do Congresso foi atingido, o de divulgar as doenças do fígado, de expandir o conhecimento, de melhorar o nível dos nossos profissionais, inclusive de incentivar a pesquisa e a investigação, promovendo uma educação médica continuada”, acrescentou.
Entre os temas de destaque, o hepatocarcinoma foi bastante discutido: “O prognóstico do hepatocarcinoma melhorou muito, porque hoje existem normas de tratamento, algoritmos para se fazer um diagnóstico mais precoce e com isso obter-se mais vantagem no tratamento”, ressaltou o professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, Dr. Luiz Guilherme Costa Lyra, que também fez parte do comitê brasileiro do Congresso. Atualmente, com o diagnóstico mais precoce e o desenvolvimento de métodos de tratamento mais eficientes, a sobrevida dos pacientes com hepatocarcinoma aumentou. Dr. Lyra diz que métodos como a alcoolização do tumor são bastante eficazes em determinados casos. “Se for detectado um tumor de até 3 cm, através desse método é possível estabilizar a doença por um ou dois anos, que é o tempo que o paciente espera por um transplante”, enfatiza o especialista, complementando: “Além da alcoolização direta no tumor, pode-se fazer também a termoablação, com agulhas que fazem coagulação térmica e destroem a área tumoral. Esta técnica não elimina o tumor, mas permite que o indivíduo sobreviva, aguardando por um ou dois anos numa lista de transplante”, esclarece.
Dr. Lyra destacou também a palestra da professora Guadalupe Garcia, da Universidade de Yale (EUA), que fez uma revisão completa sobre o tratamento atualizado da hipertensão portal, comparando o tratamento com medicamentos e o tratamento realizado através de métodos endoscópicos. “A professora Guadalupe mostrou que as drogas como os bloqueadores ainda têm lugar no tratamento da hipertensão portal, e o método endoscópico mais prevalente é a ligadura das varizes de esôfago com bandas elásticas”, salienta o médico.
Durante o Congresso foram apresentados, ainda, os programas de vacinação, como por exemplo da hepatite B, que reduziram bastante a incidência de tumores de fígado no mundo inteiro. “Mostrou-se também que o tratamento da hepatite C pode levar à cura, desde que seja bem indicado. Se fizermos o diagnóstico precoce de uma complicação do vírus C, podemos fazer um tratamento mais precoce e com uma sobrevida melhor”, informa Dr. Lyra. De acordo com o especialista, quando a doença está avançada, o único recurso é o transplante. “A importância de diagnosticar a doença no início é que mesmo que esses pacientes não sejam selecionados para o tratamento, eles evitam a associação de outras doenças, que é o que mais agrava a hepatite C.” Atualmente, segundo o médico, os pacientes que têm indicação para tratamento são aqueles que não apresentam uma lesão avançada e nem uma lesão mínima, ou seja, aqueles com uma lesão intermediária. “Nestes, o tratamento é benéfico para a evolução da doença em 50% a 80% dos casos, podendo-se até reverter a infecção e obter a cura”, afirma.
Em uma das sessões do Congresso, foram mostradas as perspectivas das novas drogas que ainda estão em fase experimental para o tratamento da hepatite C. Na opinião do Dr. Lyra, as drogas atuais para a doença, com o uso do interferon peguilado mais a ribavirina, melhoraram a eficiência do tratamento. “As drogas atuais melhoraram bastante o prognóstico da doença, mas só promovem um sucesso terapêutico em 50% a 80% dos casos, conforme o tipo de vírus, e não podem ser utilizadas em quem tem doença avançada e também não apresentam muito sucesso em quem tem doença mínima. Sendo assim, novos medicamentos poderão no futuro colaborar para elevar esse índice de eficiência terapêutica da hepatite C”, revela.
Foram realizadas ainda palestras sobre o tema esteatose hepática, doença que pode evoluir para cirrose hepática. “As pessoas com excesso de peso devem fazer exame de sangue para detectar se essas enzimas (transaminases) que estão ligadas a alterações hepáticas estão ou não alteradas. Certamente nem todas as pessoas com excesso de peso terão essas enzimas alteradas, mas se tiverem, o principal tratamento é o emagrecimento”, diz o especialista. Atualmente, vêm-se testando drogas para o tratamento da esteatose hepática, porém, segundo o médico, ainda não há resultados eficientes. “No início, a perda de peso poderá remover parte dessa gordura do fígado e fazer com que a alteração nos exames de sangue se normalize e o paciente possa ter uma boa qualidade de vida, mas essa é uma atenção que os médicos precisam ter nesse grupo de pacientes”.
HEPATOLOGIA BRASILEIRA
“Um congresso internacional realizado no Brasil é sempre importante. Isso demonstra que os centros brasileiros estão se capacitando cada vez mais e hoje despertam a atenção da comunidade científica internacional. Também a possibilidade de juntar a comunidade latino-americana de hepatologia é algo que sempre buscamos, porque temos uma discrepância muito grande do ponto de vista científico em relação aos grandes centros mundiais, e se conseguirmos uma complementaridade, poderemos avançar muito mais.
A hepatologia brasileira é de nível internacional e isso está muito bem comprovado, porém uma crítica pertinente à Sociedade é que nós estimulamos pouco os nossos jovens e é preciso sempre estimular a renovação. Há muitas pessoas hoje fazendo teses, cursos de mestrado e doutorado, profissionais que estão sendo agregados aos serviços e que precisam ter um espaço maior. Esse é o grande segredo dos EUA. Nos congressos americanos, podemos observar uma velocidade de renovação, na qual o indivíduo mais novo acaba estimulando o indivíduo mais velho, e isso é muito significativo para a ciência médica.
Um dos temas sobre o qual eu falei foi a hepatite E, que é uma hepatite transmitida pela via oral. Existe uma falta de conhecimento muito grande em relação a essa doença na América do Sul; os dados do Brasil são conflitantes de uma região para outra. Na verdade, é grande o nosso desconhecimento da realidade epidemiológica em relação às hepatites. A maioria dos países da América Latina não tem conhecimento de qual é a real prevalência das hepatites virais, sobretudo as hepatites B e C. Observamos durante este evento que vários países latinos não têm um programa de tratamento de hepatites, o que é muito preocupante, e o Brasil está ainda numa fase incipiente nessa questão.”

Prof. Dr. Raymundo Paraná
Professor Livre-Docente de Hepatologia Clínica da
Universidade Federal da Bahia.
“O Congresso trouxe para o Brasil expoentes da hepatologia que mostraram os resultados dos trabalhos mais recentes realizados no exterior, deixando-nos bastante atualizados com o que vem acontecendo fora do país. A qualidade dessas apresentações contribuíram para elevar o nível do evento. Em uma das sessões tivemos a oportunidade de mostrar um trabalho realizado em diversos centros brasileiros incluindo mais de 130 pacientes com hepatite crônica C que já tinham feito um tratamento prévio com interferon clássico e ribavirina e que não tinham conseguido a eliminação viral. Eram pacientes que não tinham uma expectativa de tratamento atual. Esses pacientes receberam o interferon peguilado-alfa-2a associado à ribavirina; e, desses, conseguimos um índice de resposta muito considerável, de forma que 51% dos pacientes denominados recidivantes (que chegaram a negativar o vírus em algum momento do tratamento) conseguiram negativar o vírus seis meses após o término do tratamento, e cerca de 26% daqueles pacientes que não tinham respondido de maneira nenhuma ao interferon clássico (não respondedores) conseguiram também essa resposta.
A grande mensagem desse trabalho é que esses indivíduos que não responderam ao tratamento prévio e que estão sem nenhuma chance terapêutica, podem com o uso do interferon peguilado, num percentual bastante elevado, responder e se livrar do vírus. Esperamos que a partir desses dados, a Secretaria de Saúde passe a considerar esses pacientes como possíveis candidatos ao tratamento com interferon peguilado, atualmente só disponível para pacientes virgens de tratamento e que tenham o genótipo 1. Dessa forma, esperamos que esse trabalho possa abrir uma nova perspectiva para esses pacientes e com isso deter a progressão da doença.”

Prof. Dr. Edison Parise
Professor Adjunto da Unifesp/EPM.
“Numa sessão interativa, da qual participei, pudemos discutimos alguns casos interessantes com a platéia e eu mostrei o caso de uma moça jovem que apresentou um quadro febril bastante sugestivo de dengue. A paciente fez uso de acetaminofeno numa dose terapêutica de 4 g/dia, para os sintomas de febre e dor muscular da dengue, porém não foi valorizado o fato de que ela havia tido um consumo de álcool um pouco maior nos últimos dias. O acetaminofeno hoje representa na Inglaterra e também nos EUA a principal causa de hepatite fulminante, o que ocorre com doses tóxicas do medicamento (superiores a 10 g), fazendo com que haja uma destruição maciça das células hepáticas. No entanto, quando existe uma associação do acetaminofeno, mesmo em doses terapêuticas, associado ao consumo de álcool, pode haver uma toxicidade muito acentuada no fígado (toxicidade acidental) com evolução para uma hepatite aguda grave, necessitando, por vezes de um transplante hepático. A dificuldade no tratamento desses casos talvez seja o reconhecimento rápido do quadro. Ao menor sinal de toxicidade por acetaminofeno, o tratamento deve ser feito preferencialmente nas primeiras quatro horas, para reverter o efeito tóxico e evitar o caminho para uma destruição maciça do fígado.”

Dr. Mário Pessoa
Médico Hepatologista, Pesquisador do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.
“A hepatite C é hoje considerada um problema de saúde pública. Um levantamento feito pela Sociedade Brasileira de Hepatologia mostra que há uma prevalência muito elevada da doença no país inteiro, atingindo cerca de 2% da população. O vírus C é bastante importante, porque cerca de 70% dos indivíduos que adquirem a infecção evoluem para a hepatite crônica e, embora numa proporção menor, mas ainda assim numa porcentagem importante, ao redor de 20% desses indivíduos podem evoluir para cirrose hepática. Assim, do ponto de vista médico, é importante não só evitar a hepatite C, mas prevenir outras situações que possam agravar a doença e a sua progressão.
Com relação ao tratamento atual da hepatite C, tema da minha palestra, felizmente hoje, para uma parcela desses pacientes, o governo disponibiliza os medicamentos necessários, seja o interferon clássico ou o interferon peguilado. No tratamento mais moderno, que é feito com o peginterferon + a ribavirina, para os pacientes que têm o genótipo tipo 1 (o genótipo mais difícil de se tratar), cerca de 50% conseguem cura da doença. Entre os que têm os genótipos 2 e 3, ao redor de 80% negativam o vírus. Esses dados representam um índice muito importante, pois há dez anos essa resposta não era atingida nem em 10% dos pacientes; portanto, houve realmente, com o advento dos interferons peguilados, um avanço muito grande no tratamento dos pacientes com hepatite crônica C.”

Prof. Dr. Angelo Alves de Mattos
Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia e
Professor Titular da Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre.