Novas Fronteiras no Tratamento
Sistêmico do Câncer
Por Luciana Rodriguez

Solenidade de abertura com especialistas
organizadores do evento. |
Após o grande sucesso das cinco últimas edições do Simpósio Mineiro de Oncologia, o Centro de Estudos e Pesquisas Oncológicas de Minas Gerais, CEOMG, realizou entre os dias 14 e 17 de abril, em Belo Horizonte, MG, a sexta edição desse evento, que trouxe como tema central as Novas Fronteiras do Tratamento Sistêmico do Câncer.
Estiveram presentes ao evento oncologistas clínicos, cancerologistas, radioterapeutas, cirurgiões oncológicos, enfermeiros, gastroenterologistas, otorrinolaringologistas, psicólogos, proctologistas, farmacêuticos e demais profissionais ligados ao tratamento do câncer.
Durante os quatro dias de evento o público pôde assistir a conferências que abordaram temas de grande importância para profissionais que atuam direta ou indiretamente no tratamento do câncer, inclusive com acesso às mais recentes novidades no tratamento de diversos tipos de tumores.
O evento reuniu renomados representantes da oncologia brasileira, que palestraram sobre o tratamento sistêmico de tumores gastrointestinais, de pulmão, mama, cólon e reto e da bexiga. Abordaram, também, as novas fronteiras no tratamento sistêmico dos carcinomas de cabeça e pescoço, leucemia mielóide crônica e linfomas não-Hodgkin agressivos. Uma das mesas mais comentadas do evento foi sobre Receptores de fatores de crescimento epitelial. Pequenas moléculas bloqueadoras do sistema tirosina quinase. Mecanismo de ação. “Hoje estamos trabalhando com novidades terapêuticas, tais como novas abordagens de hormônios e de anticorpos monoclonais às quais não tínhamos acesso. O grande interesse observado durante a conferência que abordou os receptores de fatores de crescimento deve-se ao fato de que estamos bloqueando estes receptores com pequenas moléculas, mas as associações destas novas abordagens e a hormonioterapia ainda estão muito obscuras. São muitas as novidades que aparecem nos países desenvolvidos, mas ficamos na superficialidade. No entanto, estamos apostando nestas hipóteses, mesmo sabendo que são apenas apostas”, afirma o Chefe do Serviço de Oncologia Clínica da Santa Casa de Belo Horizonte e Presidente do Simpósio Mineiro de Oncologia, Dr. Sebastião Cabral Filho.

Dr. Sebastião Cabral Filho |
O último dia do evento foi dedicado especialmente ao tratamento sistêmico do câncer de mama e desde então começaram a ser traçadas as novas abordagens para a próxima edição do evento. “O Simpósio Mineiro está definitivamente instalado no calendário de eventos oncológicos do Brasil. Certamente ultrapassamos a fronteira mineira e o mais importante é que temos proporcionado a confraternização e interação entre os palestrantes e o público presente. Já estamos trabalhando no VII Simpósio Mineiro de Oncologia, cujo tema central será A Oncologia no Mundo Real, ou seja, em 2005 iremos analisar o que estas novas fronteiras, apresentadas em 2004, poderão oferecer a nossos pacientes”, adianta o presidente do evento.
Confira a seguir as considerações de alguns dos especialistas que palestraram durante o VI Simpósio Mineiro de Oncologia.

Dr. Roberto de Almeida Gil |
RECEPTORES DE FATORES DE CRESCIMENTO EPITELIAL
“Avanços nas áreas de biologia celular e molecular têm possibilitado melhores expectativas em relação ao tratamento do câncer. Um deles é o conhecimento sobre a composição química e o funcionamento dos receptores de fatores de crescimento epitelial e a sua inter-relação com a divisão celular e os mecanismos de desenvolvimento das neoplasias. Isso tem permitido o desenvolvimento de anticorpos monoclonais utilizados como agentes terapêuticos em caso de tumores, especialmente nos casos de câncer de mama, onde estes têm demonstrado eficácia. A padronização dos critérios para sua utilização deve ser realizada. Para indicação dos anticorpos monoclonais é necessária a seleção adequada do paciente que pode vir a se beneficiar como o uso desta estratégia terapêutica. O trabalho conjunto entre a clínica e a patologia, incluindo o perfil imuno-istoquímico, é fundamental para a obtenção de resultados comparáveis aos obtidos na Europa e Estados Unidos, atestando a boa perspectiva desse tipo de terapia. Além disso, a quimioterapia metronômica, com baixas doses de quimioterápicos, e a utilização de pequenas moléculas e sua associação com a quimioterapia, são promissoras no tratamento de diferentes tumores.”

Prof. Dr. Geovanni Dantas Cassali
Professor Adjunto - Depto. de Patologia Geral-ICB/UFMG.
Subcoordenador do Programa de Pós-Graduação em Patologia da UFMG.
Coordenador do Laboratório de Patologia Comparada - ICB/UFMG. |
USO DO TRANSPLANTE DE MEDULA ÓSSEA COMO
TRATAMENTO DE LINFOMAS AGRESSIVOS: 1ª E 2ª LINHA
“Em relação às indicações do transplante de medula óssea no tratamento dos linfomas agressivos, está havendo atualmente uma grande evolução na seleção de pacientes candidatos a esse procedimento. O tratamento convencional vem sendo modificado com novos regimes. Entretanto, as principais questões envolvem uma nova classificação biológica caracterizada pelo perfil molecular destes pacientes. Novos grupos prognósticos também estão sendo estabelecidos com os novos métodos diagnósticos de imagem: o PET scan pode identificar pacientes nos quais a presença de uma lesão residual após o tratamento quimioterápico inicial não determina a adoção de uma estratégia agressiva.
Mesmo com esta perspectiva, as indicações clássicas para o transplante autólogo nestes pacientes ainda prevalecem - são os pacientes que apresentam uma recaída quimiossensível após o tratamento habitual. No entanto, uma publicação recente de um grupo francês identificou, em pacientes com fatores prognósticos negativos ao diagnóstico, a possibilidade de uma maior sobrevida quando estes pacientes eram submetidos ao transplante autólogo ainda em primeira remissão. Como mencionado, houve nos últimos anos uma grande evolução em relação à quimioterapia convencional. O tratamento clássico vem sendo modificado com a inclusão de novas drogas, a introdução dos anticorpos monoclonais e a intensificação dos regimes habitualmente utilizados com intervalos mais curtos entre os tratamentos.
Ocasionalmente, pacientes refratários podem ser beneficiados com o transplante alogênico. Esta estratégia é limitada, não apenas pela necessidade de identificação de um doador compatível, como também pela maior morbidade.

Dr. Daniel Goldberg Tabak
Hematologista e Oncologista.
Membro da Academia Nacional de Medicina. |
O mais importante no momento é conseguirmos incorporar rapidamente esta tecnologia de definição do perfil molecular, pois assim poderemos selecionar de uma forma mais inteligente quais pacientes realmente precisam de tratamento mais intenso. Existem ainda hoje pacientes que podem ser curados sem precisar de um tratamento mais agressivo e existem pacientes que nem mesmo o transplante será capaz de curá-los. Os estudos em linfomas e tumores sólidos estão amadurecendo e esta modalidade de diagnóstico molecular poderá selecionar grupos específicos nos quais será possível avaliar qual a modalidade terapêutica mais adequada. Este será um dos grandes avanços dos próximos anos.”
RADIOTERAPIA NO CÂNCER INICIAL DO
ESTÔMAGO E DO PÂNCREAS
“Os cânceres de estômago e pâncreas são doenças cujo tratamento não é muito amplo. São doenças de abordagem cirúrgica nas quais posteriormente à cirurgia não se tem alcançado grandes resultados com a radio e quimioterapia. De modo geral, a sobrevida de pacientes portadores de tumor no estômago e principalmente no pâncreas é muito baixa. Assim, o intuito da comunidade científica, tanto nacional quanto internacional, é conseguir descobrir algo que prolongue essa sobrevida.
Em câncer de estômago parece haver um consenso de que após a cirurgia deve-se proceder com radioterapia e quimioterapia porque há um ganho geral, tanto na sobrevida do paciente quanto no controle local da doença. Já em câncer de pâncreas o panorama é mais sombrio, pois a doença é mais grave, a sobrevida é muito curta e normalmente o tumor não é ressecável, mas a tendência é fazer um tratamento adjuvante, ou seja, quimioterapia isolada ou associada à radioterapia. No câncer de pâncreas, o tratamento não está muito bem definido; a Escola Européia, por exemplo, preconiza somente o uso da quimioterapia, e a Escola Americana, a sua associação com a radioterapia. Temos observado a associação das duas técnicas e parece que traz mais benefícios.

Dr. José Eduardo Ferreira Monteiro de Moura
Médico Oncologista da Santa Casa e do Hospital
de Belo Horizonte. Presidente do Centro
de Estudos e Pesquisas Oncológicas de Minas Gerais, CEOMG. |
A maior dificuldade hoje no tratamento de pacientes com tumores gastrointestinais é conseguir dispor de tecnologia para tratar os pacientes. Em tumores de pâncreas e estômago, por exemplo, a técnica de radioterapia tem que ser muito bem elaborada e os hospitais não têm como disponibilizar isso para todos seus pacientes, pois nesta técnica mais elaborada o custo é maior e exige equipamentos específicos. Isso tudo contribui freqüentemente para a inviabilidade do tratamento. O custo das novas drogas, que muitas vezes não são cobertas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), dificulta ainda mais o tratamento destes tumores. As novas tecnologias ficam muito restritas a um pequeno número de pacientes. Estas são as grandes dificuldades nos dias de hoje. Acredito que o médico brasileiro está tendo uma boa formação, bom treinamento, mas pouca oportunidade de utilizar aquilo que aprendeu.”
POSIÇÃO DA CIRURGIA EM CARCINOMA DE CABEÇA
E PESCOÇO LOCALMENTE AVANÇADO
“Nos últimos dez anos houve uma grande evolução no tratamento dos tumores de cabeça e pescoço devido à parte diagnóstica, que se tornou mais eficiente através da introdução dos exames endoscópicos, que fazem parte do dia-a-dia nos consultórios dos otorrinolaringologistas e dos métodos terapêuticos que estão mais eficientes, tais como quimioterapia, radioterapia e as cirurgias. Com o avanço tecnológico proporciona-se melhor resposta de sobrevida, curabilidade e resultado estético funcional.
A incidência destas doenças no Brasil gira em torno de 5% de todos os tumores malignos do corpo humano. Estes índices, no entanto, junto ao aumento do número de fumantes, pois o cigarro nestes casos é um dos principais inimigos, pois induz a formação dos chamados carcinomas de células escamosas. Evidentemente, existem também outros tumores malignos de cabeça e pescoço que não são tabaco-dependentes. Em geral, os tumores com maior prevalência são em laringe, cavidade oral e na região da orofaringe.
A cirurgia de cabeça e pescoço participa deste grupo multidisciplinar terapêutico em duas fases, no diagnóstico através de exames, biópsias, estadiamento do tumor e também no próprio momento cirúrgico; ademais, posteriormente os pacientes são encaminhados para radioterapia, quimioterapia ou ambas.
Estamos evoluindo cada vez mais no diagnóstico precoce destes tumores, através de imagem e endoscopia. Do ponto de vista terapêutico, a tendência é agirmos de maneira mais conservadora no paciente, ou seja, através da associação de drogas cada vez mais modernas, eficazes, menos agressivas, com menos efeitos colaterais e radioterapias mais seletivas, com equipamentos de última geração. Desta forma, será possível ressecar a lesão do paciente preservando a maior parte das estruturas, de modo que o paciente terá melhor qualidade de vida e reintegração na sociedade.

Dr. Manoel Cataldo
Otorrinolaringologista. Cirurgião de Cabeça e Pescoço.
Diretor do Otorrinocenter de Belo Horizonte. |
Muitas drogas para uso nestes tumores estão ainda em fase de teste, mas já temos sinais indicativos de que aumentarão a sobrevida do paciente e proporcionarão melhor qualidade de vida, tolerabilidade e menos efeitos colaterais. Diagnóstico, cirurgia de cabeça e pescoço, quimioterapia, radioterapia, imunologia e o processo de recuperação do paciente através de fisioterapia, fonoaudiologia, etc., são o conjunto que realmente pode melhorar o futuro do tratamento do câncer de cabeça e pescoço.”
HORMONIOTERAPIA EM CÂNCER DE MAMA
”Com a grande quantidade de informações disponíveis na mídia em geral, temos recebido pacientes cada vez mais jovens com diagnóstico de câncer. Trata-se, muitas vezes, de mulheres sem filhos, na pré-menopausa e um grande percentual de pacientes com receptor estrogênio positivo. Geralmente, muitas destas pacientes possuem tumores pequenos, com axila negativa e assinatura gênica de um tumor de bom prognóstico. Diversos trabalhos têm mostrado que nestas pacientes o tratamento de hormonioterapia exclusiva tem o mesmo papel e impacto na sobrevida livre de doença quando comparado ao CMF.
Nestas pacientes em que utilizamos um análogo LHRH, geralmente opta-se pela goserelin associada, se for baixo risco, ao tamoxifeno. No entanto, um recente trabalho publicado no New England apontou para uma vantagem do exemestano que ainda não demonstrou impacto na sobrevida total, mas alcançou um impacto maior na sobrevida livre de doença.
No tratamento das pacientes jovens, temos o anastrozol, o letrozol e o fulvestranto. Este último é uma nova modalidade terapêutica injetável que inibe definitivamente os receptores estrogênicos e possui a vantagem de que quando a paciente é pré-menopáusica, doença recidivada ou receptor positivo, necessitará de apenas duas injeções subcutâneas ou uma intramuscular e outra subcutânea de análogo LHRH e fulvestranto, obtendo assim as mesmas respostas terapêuticas de uma quimioterapia.
Naquelas pacientes receptor positivo, com doença metastática, que já fizeram adjuvância com antraciclina e utilizaram uma segunda linha, como por exemplo um taxano; a possibilidade do uso dos inibidores da aromatase na pós-menopausa, quando ela é HER positiva associada ao Herceptin e ao trastuzumab, também tem dado boas respostas. São terapêuticas isentas de efeitos colaterais, de modo que paciente e médico se sentem muito confortáveis, principalmente com estes trabalhos randomizados, duplos-cegos, que dão subsídio científico ao especialista para que ele possa discutir tudo isso com sua paciente.

Dra. Cacilda Maria Rogério Furtado
Médica Oncologista. Diretora da Climama. Presidente da
Fundação Pró-Mamae da Associação da Mulher
Catarinense Portadora de Câncer, AMUCC. |
Os inibidores da aromatase ainda não possuem indicação específica para pré-menopausa, por esta razão, na pré-menopausa utilizamos junto a um análogo LHRH. A grande vantagem do análogo LHRH é que induzimos a menopausa por um tempo predeterminado e no caso da paciente decidir que quer voltar a menstruar, ou que, apesar dos riscos, quer ter filhos, é um direito dela, de modo que os riscos são conhecidos, mas muitas experiências de mulheres que optaram por isso deram certo.
Tanto o letrozol, o anastrozol, o exemestano e o fulvestranto são drogas muito boas, os dois primeiros são competitivos, o exemestano inibe definitivamente o receptor e tem uso intracelular e o fulvestranto inibe e destrói o receptor. Provavelmente, daqui a alguns anos teremos cada vez mais acesso à tecnologia e as pacientes que poderão ser tratadas com inibidor de hormônios alcançarão resultados similares ao tratamento quimioterápico, mas com menos efeitos colaterais.
O quimioterápico é um tratamento importante e efetivo, as drogas mais importantes atualmente são as antraciclinas, os taxanos e o vinorelbina. Geralmente, todas estas drogas causam alopecia, os taxanos provocam síndrome pé-mão e a antraciclina pode elevar a musculatura cardíaca. No caso dos hormônios, o efeito colateral é a menopausa precoce, que seriam os fogachos, que podem ser tratados com antidepressivos e a perda da massa óssea, que pode ser corrigida com medicamentos e exercícios físicos e alimentação saudável.”
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Simpósio Aborda Tratamento do Câncer de Mama Avançado
Durante o VI Simpósio Mineiro de Oncologia e VI Encontro dos Residentes do CEOMG, a AstraZeneca realizou um simpósio-satélite que proporcionou um amplo debate sobre o Faslodex® no tratamento do câncer de mama avançado. Estiveram participando das apresentações os especialistas Dr. Sérgio Lago, Professor Assistente da Disciplina de Oncologia Clínica da PUC/RS e Preceptor da Residência em Oncologia Clínica do Hospital Santa Rita de Porto Alegre, e o oncologista Dr. Carlos Augusto Andrade, que palestraram, respectivamente, sobre dados clínicos do Faslodex® e a posição de Faslodex® na seqüência de tratamento do câncer de mama. O Presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Dr. Roberto de Almeida Gil, coordenou a mesa. Segundo ele, estudos recentes com esta droga têm mostrado que um de seus principais benefícios é o tempo de duração da resposta. “Nos trabalhos comparativos, esta droga manteve maior tempo de resposta em comparação a outros hormônios anteriormente utilizados. Além disso, em alguns estudos, a taxa de resposta deste medicamento se mostrou um pouco maior quando utilizado em pacientes que já tinham sido submetidos a manipulações prévias por hormonioterapia”, conta o presidente da SBOC, que ao final do evento falou sobre as perspectivas futuras do Faslodex® no tratamento do câncer de mama. “Talvez no futuro, em algumas pacientes, já possamos iniciar o tratamento da doença metastática na mulher pós-menopáusica direto com Faslodex®, daí a importância de conseguirmos manter a resposta por um período maior”, concluiu.
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