O RECEPTOR DO FATOR DE CRESCIMENTO EPITELIAL
O receptor do fator de crescimento epitelial [EGFR], purificado e caracterizado por Stanley Cohen em 19801 é uma glicoproteína da membrana plasmática composta de um domínio de ligação extracelular, de um segmento transmembrana lipofílico e de um domínio intracelular de tirosina cinase. O EGFR é um membro da família de fatores de crescimento HER que inclui HER-1, HER-2, HER-3 e HER-4, importantes mediadores do crescimento celular, diferenciação e sobrevivência. O EGFR é ativado através da homodimerização com outro EGFR ou heterodimerização com outro membro da família HER, por exemplo, HER-22. A heterodimerização gera um sinal mais potente do que a homodimerização. Existem vários ligantes que se acoplam ao EGFR, tais como o fator de crescimento epidermal, o fator transformador de crescimento alfa [TGF a], anfirregulina e betacelulina. A ativação do complexo EGFR-tirosina cinase tem sido identificada como um evento iniciador da cascata de sinalização intracelular levando à proliferação, sobrevivência, angiogênese e metastatização. Kari et al.3 reportaram recentemente que células malignas, que possuem um contato inadequado com a matriz estromal, necessitam da ativação do EGFR para sobreviver. A ativação do EGFR estimula a produção do fator de crescimento vascular endotelial [VEGF], considerado como principal fator angiogênico4. A autofosforilação dos resíduos de tirosina cinase em cada membro do par de receptores é seguida da ligação de proteínas mensageiras citoplasmáticas resultando na iniciação de diferentes cascatas de sinalização, incluindo aquelas mediadas pela proteína ativada por mitógenos [MAP] e pela proteína cinase B [AKT]. Eventualmente, os complexos receptor-ligante são internalizados e reciclados ou degradados. O EGFR é expresso em tecidos normais e neoplásicos em todas as camadas germinativas, particularmente nas de origem epitelial e, juntamente com os ligantes, exerce um papel importante na progressão do ciclo celular, proliferação, diferenciação e sobrevivência celular5. Alguns tumores superexpressam os receptores de EGF quando comparados a células normais. Cerca de um terço de todos os tumores epiteliais, tais como câncer colorretal, câncer de cabeça e pescoço, pâncreas, pulmão e mama. A expressão do EGFR está freqüentemente associada à agressividade da neoplasia, menor sobrevida e maior freqüência de doença metastática6.
Existem variações importantes entre laboratórios quanto aos métodos de identificação dos níveis de expressão do EGFR. O método mais comumente utilizado é a imunoistoquímica7, em função da facilidade de utilização do método e da disponibilidade na maioria dos serviços. O uso de PCR reversa para determinar os níveis de RNA mensageiro parece ser mais sensível e mais específico na determinação de EGFR do que imunoistoquímica7.
BLOQUEIO TERAPÊUTICO DO EGFR
Em 1981, John Mendelsohn postulou que o bloqueio da ativação do EGFR poderia inibir a proliferação de células porque células neoplásicas são mais sensíveis à inibição seletiva do EGFR quando comparadas às células normais e finalmente agentes seletivos anti-EGFR poderiam ser desenvolvidos1. Em 1983 e 1984, Mendelsohn e cols. publicaram uma série de artigos demonstrando que o bloqueio do EGFR através do anticorpo monoclonal murino 225 inibia a proliferação celular em culturas e em xenoenxertos8,9. Eles também demonstraram que o bloqueio do receptor inibia a tirosina cinase. Este foi o primeiro exemplo de uma terapia dirigida contra um produto de um oncogene.
Nos últimos anos, uma mudança dramática ocorreu na terapêutica oncológica. A pesquisa tem sido centrada no desenvolvimento de terapias que têm como alvo produtos de genes com mutações. A terapia dirigida contra o EGFR tornou-se realidade com a criação de anticorpos anti-HER-1/EGFR, tais como cetuximab [Erbitux®], ABX-EGF, EMD72000, H-R3 e MDX-447 e anti-HER-2/neu, tais como trastuzumab [Herceptin®] e 2C4 e também de agentes que atuam diretamente na tirosina cinase, tais como o gefitinib [Iressa®] e OSI-774 [Tarceva®].
Por se tratar de agentes que especificamente bloqueiam vias críticas para o desenvolvimento e progressão de células neoplásicas, eles têm fornecido uma nova direção à terapêutica antineoplásica. Em função da alta especificidade destes agentes, eles são geralmente bem tolerados, não causando as toxicidades comumente relacionadas aos agentes quimioterápicos e à radioterapia. Quando combinados aos tratamentos convencionais, os agentes-alvo podem aumentar a eficácia terapêutica sem aumentar a toxicidade de forma significativa.
CETUXIMAB: DESENVOLVIMENTO E ESTUDOS PRÉ-CLÍNICOS
Os primeiros anticorpos monoclonais foram produzidos por Köhlher e Milstein em 1975, que demonstraram a possibilidade de fundir linfócitos B murinos expostos a determinados antígenos com células de mieloma imortalizadas10. Os primeiros anticorpos monoclonais anti-EGFR foram produzidos por Mendelsohn e cols.1 Os estudos com o anticorpo murino M225 demonstraram alta afinidade com o receptor do EGF e bloqueio da tirosina cinase, no entanto, a utilização do M225 levou ao aparecimento de anticorpos antimurinos capazes de neutralizá-los.
O anticorpo quimérico, humano e murino, cetuximab [C225] foi desenvolvido com o objetivo de evitar essa neutralização. Cetuximab liga-se ao EGFR com alta afinidade, impedindo a ligação com EGF e TGFa e subseqüente ativação do receptor. Possui uma meia-vida prolongada de três a quatro dias, permitindo a administração semanal. Estudos pré-clínicos demonstraram a capacidade de indução de remissão completa de tumores em xenoenxertos11. Os mecanismos que contribuem para a atividade antitumoral do cetuximab são, além do bloqueio do receptor do EGF, a supressão da angiogênese através da redução da expressão de VEGF em células tumorais4 e a indução de citotoxicidade celular dependente de anticorpo. Cetuximab é capaz de estimular a internalização do EGFR levando à degradação e diminuição no número de receptores disponíveis na superfície celular. Cetuximab potencializa a atividade citotóxica de vários agentes, tais como doxorrubicina, cisplatina, paclitaxel, gencitabina e topotecano.
Estudos pré-clínicos de xenoenxertos em camundongos das linhagens de carcinoma colorretal HT29 e DLD1 demonstraram inibição da fosforilação da tirosina cinase do EGFR levando ao retardo de crescimento tumoral dos tumores tratados com cetuximab em relação aos controles tratados com solução salina12. A combinação de cetuximab com CPT-11 inibiu o crescimento de células tumorais resistentes ao CPT-11 isolado. Os exames histológicos dos espécimes tratados revelaram que o tratamento combinado com cetuximab e CPT-11 levaram ao aumento da apoptose celular e necrose comparado a cada agente isolado12.
ESTUDOS DE FASE I E II
Estudos de fase I foram conduzidos em pacientes portadores de tumores que expressavam EGFR13, demonstrando boa tolerabilidade do cetuximab e alcançando uma dose de saturação inferior à dose máxima tolerada. Erupção cutânea foi o efeito colateral mais freqüente. A dose de ataque escolhida a partir dos estudos fase I foi de 400 mg/m2 administrados em duas horas, seguida de uma dose semanal de manutenção de 250 mg/m2 administrados em uma hora.
Uma série de estudos fases I/II14 se seguiu demonstrando resultados bastante promissores com o uso de cetuximab isolado ou em combinação com agentes quimioterápicos em pacientes portadores de câncer de cabeça e pescoço, câncer colorretal, câncer de pulmão não-pequenas células.
O estudo de Shin e cols.15 em pacientes portadores de câncer de cabeça e pescoço avançado com progressão pós-quimio e radioterapia mostrou resposta parcial ou completa em seis de nove pacientes com o uso de cetuximab e cisplatina. Três dos pacientes que responderam ao tratamento haviam recebido cisplatina anteriormente.
Saltz e cols. apresentaram16 um estudo de fase II em pacientes portadores de câncer colorretal avançado, expressando EGFR, que progrediram após o uso de CPT-11. Dos 120 pacientes que progrediram em uso de CPT-11, 22,5% atingiram resposta parcial quando o C225 foi adicionado.
O estudo fase II randomizado denominado BOND17 avaliou 329 pacientes portadores de câncer colorretal EGFR positivo que progrediram em uso de CPT-11, randomizados numa fração de 2 para 1 em relação ao cetuximab/CPT11 versus cetuximab isolado. Este estudo demonstrou uma maior taxa de resposta [23% versus 11%, p = 0,0074], controle do crescimento tumoral [56% versus 32%, p = 0,0001] e um aumento do tempo para progressão [4,1 meses versus 1,5 meses, p < 0,0001] favorecendo a combinação de cetuximab em relação ao cetuximab isolado. O tempo mediano de sobrevida foi mais longo para o grupo que recebeu a combinação comparado com cetuximab isolado [8,6 meses versus 6,9 meses] não sendo, no entanto, estatisticamente significativo [p = 0,48]. A ausência de diferença estatisticamente significativa provavelmente está relacionada à utilização de cetuximab associado ao CPT-11 nos pacientes que progrediram em uso de cetuximab isolado.
Quatro estudos fase II em câncer de pulmão foram reportados recentemente18-21. Dois estudos investigaram a combinação de cetuximab com gencitabina/carboplatina21 e de paclitaxel/ carboplatina19 em primeira linha no tratamento de câncer de pulmão não-pequenas células metastático. Robert et al.21 reportaram 35 pacientes submetidos à combinação de cetuximab com gencitabina e carboplatina: 29% dos pacientes apresentaram resposta parcial, sobrevida mediana livre de progressão de 5,5 meses e sobrevida mediana de 10,3 meses. Kelly et al.19 reportaram 31 pacientes tratados com cetuximab associado a paclitaxel e carboplatina, demonstrando uma taxa de resposta de 29%, progressão livre de doença de 4,5 meses e sobrevida mediana de 15,7 meses. O estudo fase II randomizado conduzido por Gatzmeier18 comparou cetuximab em combinação com cisplatina/vinorelbina com cisplatina/vinorelbina isolados em 72 pacientes. Resultados preliminares de eficácia demonstraram uma vantagem significativa para o grupo que utilizou cetuximab [53% versus 32%]. O estudo de Kim e cols.20 avaliou o uso de cetuximab combinado com docetaxel em segunda linha em 54 pacientes, demonstrando uma taxa de resposta de 22%, sobrevida livre de progressão de 2,6 meses e sobrevida mediana de 7,5 meses. Cetuximab pode ser combinado com múltiplos regimes quimioterápicos em regimes de primeira e segunda linhas no tratamento de câncer de pulmão não-pequenas células com resultados promissores em estudos fase II aguardando resultados de estudos fase III.
Algumas questões interessantes foram geradas a partir dos estudos fase II. Uma delas foi a necessidade de superexpressão do EGFR para obtenção de resposta ao bloqueio do receptor. A taxa de resposta entre tumores com níveis de expressão de 1+, 2+ ou 3+ foi em torno de 22%16. Este achado é contrário aos estudos com trastuzumab, nos quais altos níveis de expressão do receptor [3+] são necessários para que haja resposta clínica. Um outro achado interessante dos estudos do Dr. Saltz está relacionado ao aparecimento de erupções cutâneas e resposta ao tratamento: dos 27 pacientes que responderam ao tratamento, 26 apresentaram erupções cutâneas.
Os principais efeitos colaterais compilados a partir de 21 estudos que utilizaram o cetuximab1, envolvendo 813 pacientes foram erupções cutâneas em 77% dos pacientes, sendo grau 3 e 4 em 16% dos casos, diarréia em 6% dos pacientes, astenia em 9% dos casos e reação alérgica em menos de 2% dos pacientes.
CONCLUSÕES
Em conclusão, o bloqueio do EGFR é uma realidade no tratamento de vários tipos de neoplasia e os anticorpos, primariamente o cetuximab, representam uma maneira efetiva de bloqueio com resultados promissores em uma série de estudos apresentados, possuindo um perfil de toxicidade bastante aceitável.
REFERÊNCIAS
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