Laboratório do Sono do Hospital
das Clínicas de São Paulo Valoriza Assistência e
Investe em Pesquisa


Entrevista com o Dr. Flávio Aloé
Médico Neurofisiologista Clínico do HC/FMUSP.


Por Luciana Rodriguez


Dr. Flávio Aloé



Síndrome da apnéia do sono, ronco, insônias, narcolepsia, sonambulismo, bruxismo, síndrome das pernas inquietas e muitos outros transtornos do sono têm-se tornado cada vez mais conhecidos da comunidade médica e do público leigo. Na maioria das vezes, a falta de boa qualidade de vida dos portadores está diretamente relacionada com esses transtornos.

Centros de todo o mundo especializados no tratamento dos transtornos do sono têm despertado a atenção de profissionais da área médica e comunidade leiga em relação à importância do tratamento destas doenças do sono. A questão da conscientização é, ainda hoje, um grande desafio, mas atitudes como a comemoração dos 50 anos do sono REM, fase integrante do sono em que ocorrem os sonhos, têm contribuído para o disseminação do conhecimento na pesquisa básica e clínica sobre o sono e seus transtornos.

O Laboratório do Sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo tem disponibilizado recursos que auxiliam no tratamento de pacientes que sofrem de transtornos do sono e planeja para o futuro próximo aumentar suas pesquisas na área. O médico neurofisiologista clínico do HC/FMUSP, Dr. Flávio Aloé, comenta nesta entrevista à Prática Hospitalar o funcionamento desse laboratório, a situação atual dessa área no Brasil e no mundo e as perspectivas futuras.

Confira a seguir os destaques da entrevista.

ESTRUTURA E ATENDIMENTO

O Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo presta atendimento em ambulatório e disponibiliza em seu Laboratório do Sono o exame de polissonografia, além de atuar na área de ensino e pesquisa na área do sono. Ao ser atendido no ambulatório, o paciente é avaliado e se necessário encaminhado ao laboratório para realizar o exame de diagnóstico. Trata-se de uma moderna infra-estrutura, composta por equipamentos computadorizados. O Laboratório do Sono foi oficialmente fundado em 1990 e começou a funcionar pouco tempo depois. Ao longo desse período, o equipamento foi sendo modernizado e o conhecimento médico ampliado, acompanhando a literatura mundial.

Atualmente, o principal objetivo do laboratório do sono tem sido a assistência à população. A pesquisa está nos objetivos do laboratório, sendo que novos projetos estão em planejamento para os próximos meses.

São dois os principais exames realizados no local. Um deles é a polissonografia, que analisa o período noturno ou o estágio de sono principal durante o tempo em que o paciente está no laboratório sendo analisado, de tal maneira que sabemos tudo o que acontece durante seu sono. Temos também um outro tipo de exame (menos freqüente) que mede, em cinco diferentes oportunidades, o tempo que a pessoa demora para adormecer.

Ambos os exames são relativamente padrões, pois são feitos semelhantemente em vários centros do Brasil e do mundo. Desta forma, não temos um produto diferenciado que ofereça mais ou menos vantagens de diagnóstico a nossos pacientes.

DIAGNÓSTICO E INCIDÊNCIA

O diagnóstico mais freqüente no laboratório é o transtorno respiratório durante o sono (roncos e apnéias do sono). A causa da apnéia na maioria das vezes é multifatorial e essa doença causa nos pacientes dificuldade de memória e de concentração, obesidade, pressão alta, cansaço, sonolência, entre outros sintomas altamente desgastantes para os pacientes.

No caso da insônia, a causa pode estar relacionada a ansiedade, depressão, estresse, dor muscular, ambiente inadequado (muito barulho, calor ou frio, colchão ruim...), entre outras causas. A maior parte dos pacientes com insônia são mulheres entre 30 e 50 anos de idade, enquanto o ronco e a apnéia acometem em sua maioria homens em torno de 45 anos de idade, mas acomete mais as mulheres no período da menopausa.

As mulheres freqüentemente sofrem de insônias devido à má qualidade de vida e as insônias têm desempenhado um papel determinante na transformação ou na indução de um transtorno depressivo. Além disso, é comum o uso inadequado e abusivo de medicamentos para dormir, como benzodiazepínicos e outras substâncias que podem causar tolerância e ou dependência. Já as síndromes dos transtornos respiratórios ou apnéias obstrutivas têm papel determinante na contribuição para transtornos cardiovasculares.


Sala de monitoramento dos pacientes.


SITUAÇÃO ATUAL

A área do sono não é um problema somente no Brasil. Existe uma demanda de casos muito grande também na Europa e nos Estados Unidos. A prevalência de transtornos do sono, por exemplo, em insônia chega a 20% da população em uma das estimativas mais modestas e a apnéia atinge de 8 a 12%. Desta forma, são necessários muitos leitos para possibilitar o atendimento dessa demanda reprimida.

No Brasil, tínhamos poucos leitos nos últimos anos, mas este número vem crescendo progressivamente. Além disso, a própria especialidade está sendo divulgada nos meios médicos e não-médicos. Assim, o acesso ao conhecimento, tanto da população leiga quanto da comunidade médica, tem melhorado bastante. Sabemos disso porque muitas pessoas têm sido encaminhadas para os centros especializados para serem diagnosticadas.

Em termos gerais, o tratamento do sono precisa de uma conscientização geral. É preciso alertar que existem diversos problemas sérios relacionados ao sono e sobre a enorme importância do quesito higiene do sono, ou seja, que as pessoas durmam o tempo adequado, evitem álcool e cafeína, procurem deitar e levantar em horários regulares, não usem a cama para ler, ver televisão ou alimentar-se (evitar ficar na cama sem dormir), não se alimentem em horário próximo ao de deitar-se, evitar cochilos durante o dia, praticar atividades físicas regularmente, entre outros. O papel do transtorno do sono ou da falta de boa qualidade do sono pode ser determinante no que se refere a riscos como acidentes operando máquinas, veículos, etc.


Quartos equipados para avaliação dos pacientes.


PRINCIPAIS DESAFIOS

Ainda hoje enfrentamos muitos desafios ao tratar algumas patologias menos comuns e desenvolver alguns tratamentos na área do sono. Fazer a conscientização da comunidade leiga e da comunidade médica sobre sono normal e transtornos do sono também tem sido um grande desafio.

Existem alguns problemas em relação ao tratamento que são universais. Para alguns pacientes com apnéia grave, por exemplo, precisamos prescrever um respirador mecânico, mas devido ao custo elevado torna-se inviável a sua utilização nos tipos de pacientes que atendemos. Então, muitas vezes acabamos não tendo possibilidade de proporcionar o tratamento mais adequado. Assim, nosso maior desafio é fazer com que as autoridades de saúde prestem atenção neste problema e auxiliem neste tipo de tratamento.