Dr. Newton Barros

Hospital sem Dor


Sob certos aspectos um hospital não deixa de ser uma instituição ambivalente, pois lida com a vida e a morte. O ambiente interno de um hospital mostra contrastes evidentes: a maternidade, onde predomina a alegria e felicidade e a UTI, onde ansiedade, preocupação e tristeza são os sentimentos mais presentes entre pacientes e familiares. Embora seja lugar para curar doenças, um hospital também pode ser causa de problemas, como é o caso das infecções resistentes. Quando surgiram os primeiros hospitais, o pouco conhecimento e ausência de recursos terapêuticos fez com que se tornassem ambientes onde o cuidado, o alívio do sofrimento e o consolo dos enfermos eram os únicos objetivos. Nos dias de hoje, a necessidade de funcionar como empresas e a preocupação em manter sempre atualizada a alta tecnologia modificaram tanto os objetivos do hospital que passaram a surgir projetos com a finalidade de humanizá-los. Talvez pela constatação de que tratamentos também provocam sofrimento, quem sabe pela avaliação negativa que chega ao serviço de atendimento ao cliente ou por sugestão do departamento de marketing. É possível que todos estes fatores tenham influenciado, mas o mais forte deles, sem dúvida, foi o movimento mundial relacionado com a valorização da qualidade de vida. Neste particular, os estudiosos do assunto têm questionado a relação custo/benefício dos tratamentos em contraposição à máxima do “curar a qualquer custo” que predominou por longo período, estimulada pelas descobertas da ciência trazendo solução para muitas enfermidades até então consideradas incuráveis. Na atualidade, diante das opções de escolha de tratamentos, as pessoas preferem aquele que ocasione menos sofrimento, menor risco e menor possibilidade de seqüelas.

Existe ainda uma questão que atravessou os tempos, pouco modificou-se com a tecnologia e é uma das principais causas de piora da qualidade de vida dentro de um hospital: a dor. O hospital ainda é um local onde a atenção de todos está voltada para o tratamento e a cura dos pacientes e muito pouco é dedicado ao alívio da dor, a maneira mais simples de humanizar o atendimento. Que melhor atenção ao cliente do que mantê-lo aliviado de dores durante a hospitalização? E que treinamento para funcionários de hospital poderá passar noções de cuidado humano que a preocupação com a dor dos pacientes, parte da vivência diária de toda a enfermaria? Sem falar na diminuição do tempo de internação, das complicações e custos menores de um paciente sem dor, atendendo às exigências administrativas do hospital-empresa. E o marketing, tendo como base as avaliações positivas dos clientes, poderia sugerir a expressão “aqui não se sente dor” para qualificar a instituição e atrair mais interessados em tratar-se neste ambiente humanizado. Instituir a dor como o 5° sinal vital a ser medido em todo paciente hospitalizado é a maneira mais simples de atingir estes objetivos.

Há necessidade de disseminar esta idéia, romper resistências, preconceitos e avançar rumo ao futuro. Hospital moderno não é apenas aquele com tecnologia de ponta e bela estrutura arquitetônica funcional. Modernizar é ter recursos humanos de qualidade que façam os clientes se sentir bem cuidados e suas famílias amparadas em todos os momentos.

Hospital moderno é hospital sem dor.




Dr. Newton Barros
Chefe do Serviço de Dor e Cuidados Paliativos do
Hospital Nossa Sra. da Conceição – Porto Alegre.
Presidente eleito da SBED