Fadiga Relacionada ao Câncer



Ione Jayce Ceola Schneider1 - Simone Marilene de Souza Lopes2
Dra. Cacilda Maria Rogério Furtado3

1Fisioterapeuta da Clínica Integrada da Mama, CLIMAMA. Especilizanda em Fisioterapia
Cardiorrespiratória na Universidade Gama Filho. 2Farmacêutica da Clínica Integrada da Mama, CLIMAMA
e do Centro de Pesquisas Oncológicas de Santa Catarina, CEPON. 3Médica Oncologista. Responsável
Técnica da Clínica Integrada da Mama, CLIMAMA e Chefe do Serviço de Oncologia Clínica do Centro
de Pesquisas Oncológicas de Santa Catarina, CEPON.



Dra. Cacilda Maria Rogério Furtado
(à esq.), Ione Jayce Ceola Schneider e
Simone Marilene de Souza Lopes


Pacientes e profissionais da área da saúde geralmente podem diferenciar a fadiga experimentada pela população geral da fadiga clínica associada com o câncer ou seu tratamento. O termo “astenia” tem sido usado para descrever fadiga em pacientes oncológicos, mas não há um significado especifico.(1)

A fadiga relacionada ao câncer é definida pelos profissionais como “incomum, persistente, sensação subjetiva de cansaço relacionada ao câncer ou seu tratamento, que interfere nas atividades usuais”.(2) Os pacientes podem caracterizar a fadiga em termos como falta de energia, diminuição cognitiva, sonolência, distúrbios de humor ou fraqueza muscular.(1,3)

Esta condição é muito comum em pacientes que recebem quimioterapia e é prolongada ao término desta e causa diminuição na qualidade de vida como outros efeitos colaterais da terapia; também possui impacto emocional, social e custos econômicos para os pacientes e familiares.(4,5)

A fadiga é um sintoma prevalente reportado por pacientes em tratamento oncológico. No estudo apresentado por Curt, realizado com pacientes que receberam quimioterapia com ou sem radioterapia, 76% experimentaram fadiga mensalmente.(5) No estudo de Cella et al., que utilizou os critérios de diagnóstico para fadiga relacionada ao câncer propostos pelo CID 10, somente 17% dos pacientes reportaram fadiga após um ano do término do tratamento.(6)

No estudo realizado por Jacobsen et al. houve evidências de que a fadiga é problema clínico significante durante a quimioterapia adjuvante para o câncer de mama. A piora da fadiga é de dez a 14 dias depois do último tratamento. Mulheres que receberam quimioterapia reportam que a fadiga interfere nas atividades gerais, na capacidade de tomar banho e se vestir, nas atividades de trabalho normais, na capacidade de concentração, na relação com outros, no prazer de viver e no humor.(2)

A maioria dos médicos e enfermeiros reportou náusea como sendo o efeito colateral que mais afeta os pacientes. Em segundo, na percepção dos médicos, é a perda de cabelo, e dos enfermeiros, a fadiga. Em contraste, aproximadamente metade dos pacientes (41%) reportaram a fadiga como o efeito que mais afeta durante o tratamento, enquanto 12% dos pacientes reportaram a náusea e somente 8%, a queda de cabelo. Mesmo após o término do tratamento, a percepção dos efeitos colaterais pelos pacientes permaneceu a mesma.(7)

O estudo de Vogelzang et al. revelou que a fadiga é raramente discutida no cenário clínico e raramente tratada. Nesse estudo, 61% dos pacientes disseram que a fadiga afeta suas vidas mais que a dor relacionada ao câncer, comparado com somente 37% dos oncologistas.(8)

A fisiopatologia da fadiga em qualquer indivíduo pode ser multifatorial. Os fatores predisponentes incluem a própria doença, terapias antineoplásicas, distúrbios metabólicos, alterações de humor ou sono, e outros problemas.(3) Os mecanismos propostos incluem anormalidade do metabolismo de energia relacionado ao aumento de exigência (devido ao crescimento do tumor, infecção, febre ou cirurgia); diminuição da disponibilidade de substratos metabólicos (devido à anemia, hipoxemia ou deficiência nutricional); ou produção anormal de substâncias que diminuem o metabolismo ou funcionamento normal dos músculos (citoquininas e anticorpos). Outros mecanismos propostos ligam a fadiga a distúrbios de sono e depressão maior. A evidência destes mecanismos não está clara.(1,9)

A intervenção na fadiga relacionada ao câncer consiste na educação do paciente, na causa da fadiga, no tratamento farmacológico e não-farmacológico. Segundo o NCCN (2000), todos os pacientes devem ser informados que podem desenvolver fadiga moderada a severa quando passam por uma terapia, como radioterapia, quimioterapia ou bioterapia, e que a fadiga ocorre em conseqüência do tratamento e não necessariamente como indicação que o tratamento não está sendo eficaz ou que a doença esteja progredindo. Ainda, é necessário aconselhar os pacientes sobre estratégias para diminuição da fadiga, como técnicas de conservação de energia, lazer e manejo do estresse. Se uma causa da fadiga for identificada, como anemia, insônia, depressão, desordens metabólicas ou hipotireoidismo, estas devem ser tratadas primariamente.(10)

As intervenções não-farmacológicas podem incluir um programa de exercício moderado para aumento da capacidade funcional e de tolerância à atividade, psicoterapia para decréscimo das alterações cognitivas e melhora do humor, e correção dos distúrbios nutricionais e do sono. As farmacológicas incluem antidepressivos, psicoestimulantes, corticosteróides e eritropoetina, que podem ser usados para tratamento da fadiga; no entanto, suas indicações devem ser avaliadas devido aos efeitos colaterais que estas drogas podem causar, aumentando assim a fadiga.(1,10)

Profissionais de saúde precisam entender que o sintoma ou síndrome da fadiga é um sinal de desequilíbrio para mente, corpo e espírito. Assim como o tratamento da dor requer atenção de todos os três, o da fadiga também requer este cuidado. Se há uma guerra contra o câncer, também é necessária uma guerra equivalente contra a fadiga e os outros efeitos colaterais.(9) É necessário entender o significado da fadiga para pacientes com câncer e informá-los sobre este efeito colateral e entender melhor seu impacto; a qualidade de vida dos pacientes pode substancialmente melhorar.(8)

REFERÊNCIAS

1. Portenoy RK, Itri LM. Cancer related fatigue: guidelines for evaluation and management. The Oncologist 1999;4:1-10.
2. Jacobsen PB, Hann DM, Azzarello LM, Horton J, Balducci L et al. Fatigue in women receiving adjuvant chemotherapy for breast cancer: characteristics, course, and correlates. Journal of Pain and Symptom Management oct 1999;18(4).
3. Portenoy RK. Cancer related fatigue: an immense problem. The Oncologist 2000;5:350-352.
4. Curt GA, Breitbart W, Cella D et al. Impact of cancer related fatigue on the lives of patients: new findings from the fatigue coalition. The Oncologist 2000;5:353-360.
5. Curt GA. The impact of fatigue on patients with cancer: overview of fatigue 1 and 2. The Oncologist 2000;5(Suppl 2):9-12.
6. Cella D, Davis K, Breitbart W, Curt G. Cancer related fatigue: prevalence of proposed diagnostic criteria in a united state sample of cancer survivors. Journal of Clinical Oncology July 15 2001;19(14):3385-3391.
7. Dillon E, Kelly J. The Status of cancer fatigue on the island of ireland: aifc professional and interim patient surveys. The Oncologist 2003;8(Suppl 1):22-26.
8. Volgelzang NJ, Breitbart W, Cella D et al. Patient, caregiver, and oncologist perceptions of cancer-related fatigue: results of a tripart assessment survey. Int J Radiat Oncol Biol Phys 1997;34:4-12.
9. Berger A. Treating Fatigue in cancer patients. The Oncologist 2003;8(Suppl 1):10-14.
10. NCCN, 2000 National Comprehensive Cancer Network. NCCN Practice Guidelines for Cancer-related Fatigue. NCCN Version 2000.