A Fundação Centro de Controle de Oncologia do Amazonas (FCecon) tem desenvolvido nos últimos cinco anos uma série de iniciativas no âmbito da prevenção, controle e tratamento do câncer no Amazonas. Com o apoio e parceria de diversas instituições, uma das grandes conquistas da FCecon foi a implantação do Programa Viva Mulher, que tem conseguido alcançar grande número de amazonenses que não tinham acesso ao diagnóstico e tratamento do câncer de colo uterino.
A discrepância no que se refere à distribuição de recursos humanos qualificados e de tecnologia de suporte indispensável à assistência na área de oncologia entre os vários Estados da União concorre, além de outros fatores geográficos, biológicos e culturais, para a perpetuação de uma população com alta incidência e prevalência de infecção pelo vírus HPV e conseqüentemente de lesões precursoras e do próprio câncer do colo uterino.
É sobre esse assunto que o Prof. Dr. Manoel Jesus Pinheiro Coelho, presidente da FCecon, fala em entrevista à Prática Hospitalar.
PROGRAMA VIVA MULHER
Tratar o câncer no Brasil constitui um grande desafio, especialmente devido a limites impostos, tais como: tetos financeiros, diferenças regionais (geográficas e culturais), educacionais e outros. No entanto, ao se admitir uma grande dificuldade no tratamento do câncer, por exemplo, nos Estados do Sul e Sudeste do Brasil, torna-se, portanto, inegável a gravidade da situação num Estado como o Amazonas, que possui características regionais totalmente diferentes do restante do Brasil.
O desmatamento da Mata Amazônica, neste Estado, alcança percentuais de apenas 2%, cuja finalidade foi a implantação de cidades e demais acessos. A densidade demográfica peculiar de pouco mais de um habitante por km2 dificulta a operacionalização dos Programas.
As nossas estradas são rios, o transporte é feito por barcos e canoas e as distâncias percorridas são enormes. No entanto, mesmo em meio a essas adversidades, a FCecon e suas parcerias implantaram nos 62 municípios do Amazonas o Programa Viva Mulher no ano de 1999 (fig. 1), tendo como meta a prevenção e detecção precoce, especialmente dos cânceres do colo uterino e mama, tumores que juntos representam 69% de todas as formas de câncer do sexo feminino no Estado do Amazonas. Possivelmente, é esta a região brasileira com o maior número de casos de câncer do colo uterino.

Sabemos que no Brasil, o tumor mais incidente é o de mama. No Amazonas há proporção de três tumores de colo uterino para um tumor de mama.
Mensalmente, nos é referenciada a média de 39 casos novos de câncer de colo uterino e, destes, cerca de 70% são casos de estadiamento avançado (fig. 2).

Ao longo destes cinco anos, investimos em treinamento de recursos humanos, disponibilizamos recursos financeiros e acreditamos na colheita futura e que hoje já nos sinaliza com augúrios de sucesso.
Nesse período, realizamos 490 mil exames Papanicolaou e embora ainda não tenha havido diminuição da incidência de casos de câncer de colo uterino, já é evidente o fenômeno “down staging”, com casos em estágios mais favoráveis.
Esperamos que ao final de dez anos, com a manutenção do programa e as adequadas adaptações que se fizerem necessárias, consigamos inverter o quadro atual, que no momento revela incidência ascendente dos cânceres de colo uterino e mama (fig. 3).

Não bastassem as dificuldades inerentes ao quadro crônico e de limitações humanas no combate ao câncer, as decisões políticas de imposições de limites, como teto físico e financeiro, engessam as gestões na luta para suprir as necessidades mais imediatas de expansão na assistência onde a demanda é sempre maior que a oferta. Por exemplo, o hospital consegue internar apenas um determinado número de pacientes por mês e realizar um número preestabelecido de quimioterapias/mês. No entanto, esse teto é geralmente inferior à quantidade de pacientes que atendemos. No que se refere ao aspecto financeiro, nos é estipulado um valor limite, que quando ultrapassado não é pago.
Esta “Síndrome do Lençol Curto”, que cobre a cabeça e descobre os pés, vem historicamente sendo um dos grandes impedimentos ao crescimento na assistência oncológica com qualidade no Brasil e especialmente no Amazonas.
PERFIL DA MULHER AMAZONENSE
Em 2002, 45% das mulheres residentes no interior do Estado fizeram o Papanicolaou pela primeira vez e, na capital, cerca de 23% nunca haviam realizado o exame anteriormente (fig. 4).

Outro desafio é o resgate do público de maior risco de câncer, para a realização do exame com periodicidade adequada, integrando-as ao programa. Para tal, realizamos uma “intensificação” trienal.
O Papanicolaou é exame extremamente barato numa avaliação simples de relação custo x benefício.
DESAFIOS, APOIOS E RESULTADOS
No Programa Viva Mulher, inicialmente investimos em recursos humanos. Treinamos mais de duas mil pessoas ao longo destes cinco anos, entre elas médicos, enfermeiros, assistentes e técnicos de citologia. Treinamos os profissionais de todos os municípios do Amazonas, em Manaus, a fim de que obtivéssemos uma maior garantia da sua permanência no município de origem. Como os municípios são muito dispersos e há dispersão dos habitantes dentro dos próprios municípios, começamos a comunicação via rádio, divulgando as datas e locais em que estaríamos prestando atendimento assistencial e de treinamento.
As equipes da FCecon chegam de hidroavião, barco ou canoa e trabalham ali dia e noite durante dois ou três dias fazendo coleta. Além da dificuldade de chegar aos municípios, temos outra barreira, que é a informação do resultado do exame. Temos utilizado os correios, transportes fluviais e quaisquer outras alternativas disponíveis, envolvendo inclusive as representações dos municípios.
A sensibilização e o apoio da mídia foram conseqüência da credibilidade na marca FCecon, que influenciou e conquistou ainda outros tantos parceiros.
Reunimos em uma caminhada no centro de Manaus 2.500 pessoas, com o objetivo comum de chamar a atenção da sociedade para a problemática do câncer no Amazonas.
São várias as ações que revelam a relação extremamente saudável da FCecon, instituições públicas, sociedades científicas, representações da sociedade civil, igrejas e organizações não-governamentais.
Foram desenvolvidos fóruns de discussões com apoio das ONGs, com foco no Programa Viva Mulher, combate ao tabagismo, além de outras iniciativas relacionadas.
Construímos em parceria com a sociedade civil a Liga Amazonense Contra o Câncer e Rede Feminina de Combate ao Câncer, o Grupo de Apoio à Criança com Câncer, que hoje disponibiliza ao público-alvo o lar da criança com câncer que prevê a companhia de um adulto (pai, mãe ou responsável) durante todo o tratamento, contando ainda com acompanhamento psicológico e ações educativas.
Por intermédio da Coordenação dos Programas de Prevenção e Controle do Câncer, estabelecemos comunicação entre os 62 municípios do Estado através de telefone, fax e/ou Internet.
As sociedades científicas (Cancerologia, Mastologia, Ginecologia, Trato Genital Inferior, Patologia, Radiologia e outras) têm colaborado com o suporte técnico indispensável na qualificação de médicos e treinamento de recursos humanos de nível técnico.
A Liga Amazonense Contra o Câncer conta hoje com aproximadamente 20 mil contribuintes voluntários, o que representa substancial apoio ao desenvolvimento deste trabalho.
O resultado final de tudo isso é que o Governo do Estado está investindo cerca de R$ 60 milhões na construção do maior complexo hospitalar de câncer do norte do Brasil. Passaremos de 60 para 193 leitos e serão disponibilizados todos os recursos tecnológicos necessários para o diagnóstico e tratamento na área de Oncologia.
A FCecon é o único Hospital de Câncer da Região Norte, além do existente no Estado do Pará e que fica a quase duas horas de distância de Manaus por via aérea, respondendo, portanto, pela assistência a uma expressiva área deste continente que é o Brasil, e do seu maior patrimônio, que é a Amazônia com os seus habitantes.