A Mulher com Câncer Fora de Possibilidade
de Cura e as Diferentes Faces da Dor



Profa. Dra. Mara Villas Boas de Carvalho1
Profa. Miriam Aparecida Barbosa Merighi2

1Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo.
Docente da UNIFEOB - Centro Universitário da Fundação de Ensino Octávio Bastos –
São João da Boa Vista – SP. Enfermeira de Cuidados Paliativos e Dor.
2Orientadora, Enfermeira e Professora Associada do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil
e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo.



Profa. Dra. Mara Villas Boas de Carvalho


INTRODUÇÃO

Vivenciamos no momento atual uma realidade bastante complexa. Estamos de volta do tecnicismo e os olhares dos profissionais de saúde alargam-se, reencontrando os vínculos perdidos entre o curar, o cuidar e a humanização. Estamos em um momento em que percebemos com maior sensibilidade que as doenças da humanidade acontecem coladas à história das pessoas em seus aspectos biopsicoafetivo, social, espiritual e cultural.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que milhares de vidas poderiam ser salvas anualmente se o conhecimento existente e os melhores métodos para prevenir e tratar o câncer fossem utilizados.

Estima-se que, dos dez milhões de novos casos de câncer diagnosticados globalmente a cada ano, 1/3 poderia ser prevenido, 1/3 poderia ser tratado efetivamente e em 1/3 o alívio do sofrimento poderia ser alcançado através do controle antiálgico e de outros sinais e sintomas, dentro do contexto do programa de cuidados paliativos.

Atualmente, a prevenção primária, a detecção precoce e os cuidados paliativos são negligenciados em favor das abordagens terapêuticas, independentemente se elas são custo-efetivas ou melhoram a qualidade de vida dos pacientes.


Profa. Dra. Miriam Aparecida Barbosa Merighi


A dor intensa acontece em 60% a 80% dos pacientes com câncer avançado e 1/3 dos pacientes em tratamento antitumoral ativo, constituindo fator mais determinante de sofrimento relacionado à doença, mesmo quando comparado à expectativa de morte.(12)

A avaliação inadequada dos quadros álgicos e de suas conseqüências, a subestimação do sofrimento, a crença de que em algumas situações a dor é incontrolável ou de que seja necessária para a elucidação dos diagnósticos, receios quanto ao desenvolvimento de tolerância ou de dependência, o uso incorreto das terapias analgésicas e reabilitacionais são alguns, dentre vários outros, dos fatores relacionados com o insatisfatório controle da dor.(13)

O envolvimento direto pelo tumor é a causa mais freqüente de dor oncológica, ocorrendo em 65% a 85% dos pacientes que chegam aos serviços de oncologia. O tratamento do câncer é causa da dor em 15% a 25% dos pacientes recebendo quimioterapia, radioterapia à cirurgia.(12)

A autora acima refere ainda que os pacientes com câncer freqüentemente têm múltiplas causas de dor e em múltiplos sítios, 1/3 dos pacientes apresenta mais de um sítio doloroso, e 81% relatam dois ou mais sítios dolorosos.

O paciente com dor oncológica é um enfermo que precisa ser assistido muito de perto e com uma visão que possa abranger um atendimento global, e o(a) enfermeiro(a) é um profissional que deve estar capacitado para avaliar o paciente e os seus desconfortos físicos, auxiliar no controle dos efeitos colaterais, e também participar do ajuste do analgésico.

Pimenta(9) enfatiza que o paciente com dor oncológica deve passar por consultas com enfermeiros(as) de modo sistemático. “O foco do médico é o diagnóstico da dor e a prescrição analgésica. Embora o enfermeiro(a) também preocupe-se com essas questões, ele é um profissional muito importante no atendimento devido à sua formação generalista. Ele estuda fisiologia, farmacologia, mas também estuda as questões emocionais e culturais; possui uma formação ampla, que lhe possibilita ter uma visão panorâmica do cuidado à saúde, compreender e atuar em diversos aspectos da assistência ao doente.”

Figueiredo(4) refere que não só o médico como outros profissionais ligados à saúde (enfermeiros, farmacêuticos, etc.) recebem uma formação insuficiente ou inadequada no que se refere à morfina como formidável recurso paliativo.

Nesse contexto, podemos notar que a forma de cuidar do paciente com dor, entendendo-se que seu sofrimento é genérico, tem-nos dado a oportunidade de acesso ao seu espaço existencial durante todo o tratamento, cujo resultado pode ser a evolução para a cura ou, muitas vezes, para o enfrentamento da terminalidade. Trata-se de uma proposta de cuidado capaz de respeitar o enfermo e, ao mesmo tempo, dar-lhe qualidade de vida, durante o tempo que lhe resta viver, oferecendo-lhe tratamento adequado e escuta suficientemente aberta e respeitosa, capaz de possibilitar-lhe entrar vivo na morte, de forma digna.

Em face dessas considerações, julgamos ser necessário desenvolver estudos com mulheres com câncer fora de possibilidade de cura, vivenciando as diferentes faces da dor. O interesse pelo tema do cuidar no processo de morrer surgiu da atuação da primeira autora deste estudo, durante o curso de graduação em Enfermagem, quando iniciou as atividades em campo de estágio. Inúmeros questionamentos faziam-se presentes com relação à ação da prática, especialmente quando tratava-se da pessoa doente no processo de terminalidade.

Dentre esses, observava que, desde os espaços físicos disponíveis no hospital, havia uma inadequação para o atendimento a essas pessoas que, ora estavam isoladas em quartos afastados, tidos como “leitos de morte”, ora estavam em quartos coletivos, separadas umas das outras por biombos. Soma-se a estes fatos a permanência do paciente em isolamento em seu leito, distante do que lhe é precioso, como a própria casa, seus objetos pessoais, seus sonhos e seus familiares, visto que estes podem visitá-lo somente em dias e horários preestabelecidos pela instituição. Quanto aos cuidados prestados pelos profissionais de saúde nesse momento, segundo nossa ótica, eram e são ainda hoje bastante limitados, na medida em que são centrados em procedimentos técnicos.

Sentimos, então, a necessidade de compreender o significado do cuidar no processo de morrer, tema esse que culminou na tese de doutorado da primeira autora deste estudo (Carvalho, 2003). Tal estudo com as mulheres com câncer no processo de morrer revelou, dentre os resultados, a importância das diferentes faces da dor, temática essa que apresentamos neste artigo.

CAMINHO METODOLÓGICO E FILOSÓFICO

Nossas inquietações impulsionaram-nos a indagar e a investigar as diferentes faces da dor na perspectiva da mulher com câncer no processo de morrer. Para tanto, após a revisão dessa temática, percebemos que uma pesquisa qualitativa com abordagem fenomenológica poderia contribuir para a elucidação dos nossos propósitos.

A pesquisa fenomenológica é pertinente à enfermagem, por buscar compreender o homem em sua totalidade existencial, pois as respostas são dadas por pessoas que vivenciam e experienciam o fenômeno, em uma dada sociedade histórica e culturalmente situada.(7)

Qualitativa porque esta abordagem permite descrever, interpretar e aproximar de uma maior compreensão a totalidade do homem, a sua unidade de vida como seu ser de liberdade e participação, responsável por suas vivências. Procura também aprofundar-se nos significados das ações e relações humanas (aspirações, crenças, valores e atitudes), diferentemente da pesquisa quantitativa, que procura captar do fenômeno apenas a região visível-concreta.

Como ciência do rigor, a fenomenologia procura analisar a experiência humana de uma forma rigorosa.(1)

Optamos por desenvolver esta temática pelo ângulo da visão existencial. Desse modo, encontramos no pensamento filosófico de Martin Heidegger o fio norteador e condutor para a análise e a interpretação dos significados emergidos dos dados coletados, uma vez que Heidegger,(5,6) em seu estudo sobre existencialismo, não separa a razão da emoção, e sim questiona o modo de ser na existência, elucidando que esse ser engloba a totalidade que lhe é possível apreender em seu ser com base na mundaneidade, ou seja, no modo essencial de viver, que se fundamenta de diversas maneiras.

Outra razão que nos motivou a optar pela fenomenologia fundamentou-se na questão de que o fenômeno em estudo remete-se e aproxima-se da fenomenologia existencial, uma vez que conviver com a mulher com câncer fora de possibilidade de cura e as diferentes faces da dor é uma experiência concreta, vivenciada pela mulher em seu mundo-vida, no qual esta pessoa, como sujeito-consciente-no-mundo, experiencia essa situação atribuindo à mesma significados, conforme sua visão de mundo, de acordo com seus costumes, saberes e valores, vividos intersubjetivamente com o outro. Valendo-se do enfrentamento de sua realidade, permitiram-nos abordá-las, a fim de desvelar o fenômeno na sua essência.

Definimos como sujeitos da pesquisa mulheres com câncer, com idade acima de 18 anos, tratadas na divisão de oncologia de um hospital-escola, instituição filantrópica, que atende ao Serviço Único de Saúde – SUS -, a convênios e particulares, na cidade de Campinas, diagnosticadas pela equipe médica como fora de possibilidade de cura, ou seja, pessoas que não responderam ao tratamento oncológico, que passaram da fase curativa para a dos cuidados paliativos, encontrando-se na fase do processo de morrer.

Tendo em vista a natureza deste estudo, o número de mulheres considerado como sujeitos participantes não foi estipulado inicialmente, mas determinado no transcorrer das entrevistas, em razão dos conteúdos de suas falas, ou seja, a partir do momento em que percebíamos que os discursos mostravam-se repetitivos ao responderem às nossas inquietações e, assim, compreender o fenômeno. Desta forma, 11 mulheres participaram desta pesquisa.

Dessas 11 mulheres, oito foram acompanhadas por uma das pesquisadoras desde o início do diagnóstico de câncer no referido serviço de oncologia, nove foram atendidas pelo SUS e duas por meio de convênio. Os discursos foram obtidos entre as sessões de quimioterapia em ambulatório e/ou nas intervenções, de forma individual, em ambiente privado, entre abril e agosto de 2001.

Iniciamos a organização do trabalho de campo selecionando os sujeitos e fazendo o agendamento gradual para obtenção dos discursos, respeitando preferências de data, horário e local, garantindo-lhes o sigilo e anonimato, de conformidade com o previsto na Resolução n. 196/96 do Conselho Federal de Saúde sobre pesquisas com seres humanos. Cabe mencionar que as mulheres deram seu consentimento livre e esclarecido quanto às perspectivas e ao propósito desta investigação e que o projeto de pesquisa deste estudo foi submetido ao Comitê de Ética da instituição hospitalar, sendo aprovado sem restrição.

Procurou-se deixá-las o mais “livre” possível, e assim seguir espontaneamente a linha de seus pensamentos e de suas experiências, tomando o cuidado para não interrompê-las e não intervir no seu discurso, baseado nas questões:

Me fale como posso cuidar de você. Como você gostaria de ser cuidada?

Os discursos foram identificados com a letra d seguidos do numeral seqüencial 1...11. Cabe observar que ocorreram muitas interrupções durante o encontro, geradas ou advindas, especialmente, por momentos de muita emoção, mormente quando as mulheres reportavam-se às suas expectativas de vida, à situação dos filhos, à vida conjugal, à doença propriamente dita e sobre os cuidados prestados pelos profissionais de saúde.

A leitura minuciosa das descrições dos sujeitos teve como finalidade captar a presença dos aspectos comuns nas falas das mulheres que participaram do estudo, isto é, as convergências, as divergências que permitiram o emergir das categorias temáticas concretas. A análise e a interpretação dos significados apreendidos mostraram-se suficientes para a compreensão do fenômeno deste estudo.

O caminho da ontologia fundamental de Martin Heidegger abriu horizontes e criou inúmeras possibilidades para que pudéssemos compreender o cuidar, entender, esclarecer, desvelar os modos possíveis do viver da mulher no processo de finitude. Nesta fase de análise dos relatos das mulheres, o objetivo do estudo, bem como as questões norteadoras, conforme mencionado anteriormente, estiveram implícitos em todos os momentos. Para desvelar o fenômeno, utilizamos procedimentos preconizados pelo método fenomenológico e as ciências humanas, como pressupostos de análise. Desse modo, para alcançar o sentido do ser de cada participante, buscamos em cada um dos depoimentos dos sujeitos a presença de algumas das estruturas fundamentais do Ser proposta por Martin Heidegger, delimitando, então as unidades de sentido*.

Finalmente, as unidades de sentido contidas em cada discurso foram agrupadas e relacionadas entre si, sem deixar de indicar os momentos que são específicos na descrição de cada fala, interligando os sentidos que foram desvelados pelos sujeitos. Nessa fase, por meio desse agrupamento das unidades de sentido, emergiram as categorias temáticas, aqui denominadas de Unificações Ontológicas.

Fundamentando-se em Fernandes(3) na obra de Heidegger, Ser e Tempo, denominaram-se como Unificação Ontológica as unificações de sentido que aparecem nos discursos com base nas existenciárias, isto é, da compreensão que o homem tem de si mesmo em relação à sua situação histórica e ôntica.

Os sentidos contidos nos depoimentos das mulheres revelaram o ser-mulher-com-câncer e fora de possibilidade de cura, por meio das estruturas fundamentais do Ser, aqui trabalhadas como unificações ontológicas, extraídas dos discursos das mulheres que foram: o ser-aí e as diferentes faces de dor; o cuidar como possibilidade de solicitude; a relação autêntica e inautêntica no processo do cuidar; a angústia do morrer; o ser-no-mundo e a autonomia para morrer.

A dor é um fenômeno universal; é, ao mesmo tempo, particular e própria, com uma miríade de sensações, sentimentos e significados. Por meio dos discursos das mulheres que conviviam com o câncer e fora de possibilidade de cura, foi possível desvelar o modo de ser-aí nas diferentes faces de dor.

CONSTRUINDO A ANÁLISE DOS RESULTADOS

O ser-aí como presença em seu universo existencial apresenta modos diferentes de vivenciar o seu mundo. Ao deparar-se com a dor, insere em seu espaço subjetivo a condição de senti-la, permitindo-se perceber e transitar por várias faces dessa dor. Com isso, no decorrer da doença ele manifesta muitas dores, não se fixando em nenhuma delas, pois ao buscar a sua verdade ele passa pela transcendência de si mesmo.

“Tenho muita dor. Eu sinto que as pessoas perdem a paciência com a gente. Elas acham que a gente está com frescura, fazendo fita, que sinto dor porque quero (choro). Não é bem assim. A dor é muito forte. Às vezes acho que não vou agüentar, não vou dar conta. Quando ela (dor) vem, peço a Deus me levar embora o quanto antes. Quantas vezes a gente toca a campainha para chamar as enfermeiras para nos dar o remédio, e elas levam um tempão pra virem, isso quando vêm. As companheiras de quarto é que acabam levantando da cama e vão chamar as moças. Aí elas vêm e acham ruim. Elas falam que eu não sei esperar, eu sou muito afobadinha, e dizem que tenho que ter paciência. Sabe, a dor não é nelas. A médica vem de manhã me ver, eu falo com ela para dar um remédio mais forte pra tirar a dor, e o que acontece? Eu acho que elas esquecem, eu continuo tendo dor (d-1)**.”

“A dor é do doente. Não perguntam para o paciente se ele permite ser tocado; a todo momento a gente é invadida, o corpo, a alma, o espírito. Me sinto uma máquina avariada. Uma nau sem rumo. O cuidado está longe de ser verdadeiro. São questões desumanas, não tem nada humano (d-4).”

“Olham sua pressão, sua temperatura..., levam-me para o banho, é como se estivessem lidando com um boneco. Retiram minha camisola, mexem em meu corpo como uma máquina danificada. Quantas dores (d-6).”

O significado dessa dor jamais é alcançado em sua totalidade, uma vez que a pessoa em seu sentir não se encerra na condição de estar doente. Esses depoimentos expressam com clareza a experiência vivida em meio à dor. Lendo e relendo estes relatos, pudemos compreender que a mulher com câncer espera da parte dos profissionais de saúde, especialmente do médico e do enfermeiro, maior solicitude no trato e respeito à sua dor como um “chamado” para ser olhada e cuidada na dimensão da dor.

O homem é um ser de relações e, por isso, sempre apresenta uma relação consigo e com o mundo como ser-com e ser-si-mesmo. O paciente oncológico vive em razão de uma visita médica, de um exame, da hora da droga a ser administrada e de outros cuidados. Enfim, precisa de atenção. Tudo isso faz com que o sujeito organize sua estratégia de enfrentamento das demandas pesadas que a doença impõe.

Percebe-se nas verbalizações acima que são várias as formas de dor enfrentada, e o tempo é vivenciado por cada mulher de forma singular, pois muitas vezes sentem-se “descuidadas” no que se refere à sua dor, que é tratada, às vezes, de forma não-holística, o que caracteriza distanciamento do cuidar em relação à dor emocional e espiritual. Neste sentido, as falas retratam com clareza o cotidiano da assistência prestada a este tipo de clientela. Os profissionais de saúde não conseguem perceber que, ao lado da dor fisiopatológica, há uma dimensão existencial da dor. Nesse descompasso, ambos os lados perdem oportunidades de aproximações.

Desta forma, nota-se que a situação existencial é inseparável da temporalidade. O tempo une os sentidos do existir e, por isto, a temporalidade é o sentido da existência. O homem é um movimento temporal ao qual Heidegger chama de história. Existir é o mesmo que se temporalizar, conforme manifestado abaixo:

“A dor do tratamento é horrível. Ah! É uma dor horrível! É uma dor de expectativa. É uma dor que dá muito medo, principalmente com a incerteza quanto ao futuro... Tem a dor física, que é a dor que você tem pelo câncer. Tomo remédio. Tomo morfina. Tomo, porque eu tenho muita dor, e se eu não tomar eu não ando... Tem também a dor emocional. É uma dor que dói muito. Vamos supor, a dor do medo de morrer. Às vezes eu fico pensando assim: se fosse para mim morrer, cair aqui e morrer, era uma beleza, mas é aquele medo de você voltar para o hospital. É aquela dor de você estar só, sem ninguém dos familiares. É uma dor por dentro de você, e ter que pensar que você vai ter que ficar deitada num leito, não sabe quanto tempo, não sabe o que te espera. É angustiante. É uma dor no peito, é uma dor que vem aqui de dentro. Tem hora que eu falo: “será que hoje eu estou sentindo uma dor física ou será que hoje estou sentindo uma dor emocional?” (d-8).”

É marcante a expressão: “É uma dor por dentro de você!” Na existência essa dor se faz presente alcançando a própria essência e a verdade, dando autenticidade à dor em relação à plenitude do Ser. Aqui, nesta fala, não importa a origem da dor, mas sim o mundo que ela habita, ou seja, a própria morada do Ser. Somente quem a experiencia, quem vive é que sente e percebe dentro de si a impossibilidade da clareza, mas, sim, a possibilidade do existir.

Já a próxima fala mostra a dor emocional. O adoecer por câncer é uma facticidade que pode provocar o afastamento da mulher das ocupações do cotidiano, reconduzindo-a à angústia originária que é vivenciada na presença do si-mesmo e a afasta das “coisas do mundo”. Nesse sentido, a mulher esforça-se para conseguir lidar com sua situação de vida e tenta ser ela mesma responsabilizando-se pela própria existência.

“Como é difícil. Posso dizer pra você que é insuportável. É muita dor para uma só pessoa. Estou só, não tenho com quem falar, não tenho perspectivas de futuro. Tenho muito medo do que está para acontecer (d-2).”

Estas verbalizações mostram percepções e vivências diferenciadas. O sentimento da falta de controle do paciente pela sua dor, o desamparo, o sentir-se abandonado e não compreendido são fatores que podem aumentar sua dor. Essa angústia é exacerbada quando é percebida como algo isolado.

Buscar o sentido e o significado que as mulheres atribuem à sua dor e qual o espaço que esta ocupa em sua vida é de suma importância para o processo do cuidar, bem como conhecer suas histórias e experiências vividas transcorridas em seu mundo.

Além disso, quando se trata de depoimentos e vivências, deve-se estar atento aos aspectos subjetivos. É necessário enfatizar todas as faces da dor, entendendo que esta é gerada em e por instâncias pessoais.

“Gostaria que quando a gente chamasse, as enfermeiras fossem mais prestativas, principalmente quando chamo porque estou com dor. Elas dizem que já vai. Você com dor, a dor aumenta, você chora, e nada... Cada vez que fico internada, fico às vezes mais de uma semana sem ver meus filhos. É muito difícil, tenho saudades deles e eles de mim. Às vezes interno porque tenho muita dor, pela falta de ar, infecção. Veja como está meu abdome, olha o tamanho, fora o desconforto respiratório que causa na gente (d-11).”

A dor, embora tão conhecida, continua gerando desafios. Como compreender a própria dor? E nós, profissionais de saúde, como compreender a dor do outro, o significado por ele atribuído à sua dor? Como cuidar, acolher, minimizar o sofrimento, dignificar a vida, ressignificar a existência em situação-limite da mulher hospitalizada que está vivenciando esta dor?

Todos esses conflitos podem estar expressos e inter-relacionados como se pode observar na fala apresentada: “Uma outra coisa importante e que, às vezes, deixa muito a desejar, com relação à dor: às vezes você precisa implorar, chorar, para eles trazerem remédio para a dor. Acho muito importante, eles deveriam desenvolver maior sensibilidade e acreditarem na dor da gente... Fora as nossas outras dores, de ficar internada aqui, sentir enjôos, vômitos, não poder comer o que você tem vontade (d-7).”

Maneiras diferentes de compreender a dor do outro geram possibilidades para que se possa efetivar mudanças na construção da existência, a fim de enfrentar, com coragem, os desafios da vida e da morte. Acreditamos que ter a dor subestimada também se constitui em uma faceta da dor enfrentada pelas mulheres em estágio avançado da doença. Esse é um dos sintomas que também geram angústias e limitações.

Neste sentido, conforme lembra,(11) a dor deve ser avaliada para além da sua dimensão física. Acrescentamos que também devem ser levadas em consideração as dimensões emocional, social e espiritual, integradas e indissociáveis, que envolvem o sofrimento em maior ou menor grau em quem o experiencia.

“A verbalização abaixo revela com clareza a dor social tão freqüente nesta clientela que vivencia o câncer: “Às vezes acaba o remédio em casa, preciso dele pra dor e não tenho dinheiro pra comprar, recebo cento e oitenta reais. Como é que a gente pode sobreviver com tão pouco dinheiro? Não dá nem para fazer as despesas de mercado. Pra ajudar, o A. (companheiro), ele gosta de beber, acaba exagerando sempre, e aí é que é duro pra mim. Não sei o que faço. Na verdade, não posso fazer nada. Estou dependente da boa vontade das pessoas (choro) (d-1).”

A dor também pode ser importante sinal de comunicação. Pode ser uma manifestação de que algo não vai bem no organismo, o que demanda providências. Uma outra dimensão pode ser vista: a dimensão psicológica, em que a dor relaciona-se com o psíquico, e com o mundo de “dentro” de cada mulher.

“Eu nunca sei o que estou sentindo. Eu tive uma psicóloga, então ela me ensinou muita coisa. Ela fez com que eu soubesse separar um pouco da dor física e um pouco da dor emocional. Eu não sofro tanto por causa disso (d-8).”

Pode-se apreender pelos discursos que as alterações físicas, ocasionadas pelo câncer, ou seu tratamento, interferem na vida da mulher. Heidegger(6) quando fala em mundo refere-se àquele que está inserido em outros mundos, visto que o mundo já é existência como presença no sentido e no modo de existir. Para esse autor, a existência da dor já inclui as dimensões do Ser no campo emocional, social, espiritual e físico.

Acompanhando as mulheres em sua terminalidade, pudemos observar que cada pessoa vive o processo de morrer, em íntima relação com o seu existir, com o seu modo peculiar de ser-no-mundo-com-os-outros.

O medo da dependência, do que vai acontecer com os familiares, de deixar os filhos menores, a impossibilidade de realizar projetos, a dor da finitude, somada à perda da autonomia sobre a própria vida, expressam a profundidade da dor vivida por estas mulheres. O depoimento a seguir mostra a preocupação por não poder decidir sobre sua própria autenticidade, caracterizando a dor da terminalidade.

“Você tem me acompanhado praticamente em toda a minha trajetória, dentro e fora desse hospital, em casa, e também à minha família. Não está sendo fácil para mim e para eles. Sei que não tenho muito tempo para resolver as minhas pendências, e o que me preocupa mais é a minha caçulinha que estou criando. Ela é muito novinha para ficar sem mãe outra vez (d-5).”

As diversas faces da dor apresentadas nesta unificação ontológica direcionaram-se para o ser-no-mundo na relação do ser-aí, do ser-com, do ser-em, como a preocupação com o modo de ser na terminalidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Consideramos que os profissionais de saúde devem sensibilizar-se para oferecer aos pacientes fora de recursos de cura a possibilidade de um novo olhar para o cuidar, percebendo novos horizontes capazes de ampliar seus conhecimentos na interface com o ser-aí e as diferentes faces de dor.

No ato de cuidar, estes necessitam utilizar planejamento adequado e avaliação constante da dor, entendendo-a como quinto sinal vital, tão importante quanto os demais - pressão arterial, temperatura, pulso e respiração. É necessário que adotem medidas não só eficazes, mas também afetivas, no relacionamento terapêutico estabelecido com a pessoa fragilizada pela doença, contemplando ainda o cuidar com compaixão, sensibilidade, tolerância, paciência, carinho, afeto, envolvimento e proteção.

Conhecer a realidade enfrentada pelas mulheres que se dispuseram a expor suas angústias e sofrimentos, em comoventes e dolorosos relatos impõe-nos o compromisso de sermos agentes de transformação do padrão de cuidado até então oferecido. Não se concebe mais que qualquer paciente, hospitalizado ou não, que padeça de dor, especialmente a oncológica, por sua intensidade crescente, seja (des)cuidado ou (sub)cuidado.

Conclamamos a todos os profissionais de saúde a ampliar suas competências profissionais, inserindo em sua (trans)formação a possibilidade concreta do atendimento à sua clientela de forma absolutamente humanizada, onde o paciente seja compreendido como um ser único em sua multipluralidade corpo-mente-espírito. Construir um novo conceito de cuidar começa com a prática dos velhos conceitos positivos e a eliminação dos negativos, um ambiente assistencial mais humanizado, no qual o enfoque maior deve ser “o ser pessoa”.


Trabalho extraído de Tese de doutorado apresentada à Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, em São Paulo, SP, julho de 2003.* Unidades de sentido são expressões espontaneamente percebidas nas descrições dos sujeitos focalizando o fenômeno que está sendo estudado.(3)

** Para efetuar a análise, os discursos foram numerados de 1 a 11, precedidos da letra d. Dessa forma a sigla d-1 significa que este “trecho” foi extraído do discurso 1...


REFERÊNCIAS

1. Boemer MR. A morte e o morrer. 3ª ed. Ribeirão Preto: Holos 1998.
2. Carvalho MVB. O cuidar no processo de morrer na percepção das mulheres com câncer uma atitude fenomenológica. [tese] São Paulo (SP): Escola de Enfermagem da USP; 2003.
3. Fernandes MFP. Conflitos éticos da enfermeira: uma abordagem heiggeriana. [tese] São Paulo (SP): Escola de Enfermagem da USP 1998.
4. Figueiredo MTA. A dor no doente fora dos recursos de cura e seu controle por equipe multidisciplinar (Hospice). Rev A. Hospitalar. 8/96 Ano VIII – n. 89 – agosto/199