Especialistas Discutem Novas Terapêuticas
em Tumores Urológicos



Por Flávia Lo Bello



Prof. Dr. Fernando Medina da Cunha


O Centro de Oncologia Campinas e a Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas promoveram, no dia 13 de julho, o 1º Simpósio de Uro-oncologia de Campinas. O evento, dividido nos módulos “contribuições diagnósticas nos tumores urológicos”, “câncer renal”, “câncer de bexiga”, “câncer de testículo” e “câncer de próstata”, reuniu médicos oncologistas clínicos, urologistas, radioterapeutas e cirurgiões, com o objetivo de discutir os avanços mais recentes na área da uro-oncologia.

Além das palestras, foi realizada uma teleconferência, em que foram mostradas imagens do Departamento de Urologia do Fox Chase Cancer Center, com o tema “Nephron Sparing Surgey for Renal Cell Carcinoma”, em decorrência de parceria firmada entre o Centro de Oncologia Campinas e o Philadelfia International Medicine. “Em cada um dos nossos eventos trazemos um assunto instigante e hoje a nefrectomia parcial é muito utilizada nos tumores de células renais, daí a importância dessa discussão”, explica o oncologista clínico e Diretor do Centro de Oncologia Campinas, Prof. Dr. Fernando Medina da Cunha, que fez parte da comissão científica do simpósio.

Dr. Medina realizou a palestra “VEGF como alvo terapêutico no câncer renal”, em que apresentou os resultados preliminares do uso do novo anticorpo monoclonal bevacizumab (Avastina), uma droga que tem se mostrado uma boa opção terapêutica nos tumores renais avançados metastáticos. Segundo o especialista, o tumor de células renais é bastante freqüente, correspondendo a cerca de 3% de todos os tumores que ocorrem nos EUA. “O tumor de células renais não responde à quimioterapia convencional e nem ao tratamento com radioterapia, e com a manipulação imunológica estamos conseguindo, ainda que as respostas sejam baixas, melhores resultados terapêuticos”, diz o médico, ressaltando que atualmente o tratamento standard neste tipo de tumor é a manipulação imunológica com interleucina-2 e interferon alfa.

Segundo o oncologista responsável pelo Serviço de Oncologia Urológica da Escola Paulista de Medicina e membro integrante do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, Dr. Carlos Dzik, que em uma das palestras abordou o tema “Bioquimioterapia no câncer renal avançado”, o tratamento do câncer de rim ainda é um desafio para os oncologistas, pois até hoje a oncologia baseia o tratamento em quimioterapias de ação citotóxica, que não funciona nesse tipo de câncer. “Foi necessário nos últimos 20 anos que surgissem drogas que respeitassem um pouco mais a forma de comportamento desse tipo específico de câncer. Daí surgiram os moduladores de resposta biológica - o interferon e a interleucina - que são o pilar do tratamento dessa doença, mas ainda com resultados bastante frustrantes.” O especialista diz que os trabalhos que utilizaram a imunoterapia associada à quimioterapia ou outras formas de tratamento, como o ácido retinóico, obtiveram taxas de resposta próximas de 30%.


Dr. Carlos Dzik


“É difícil tentar definir um padrão no tratamento do câncer de rim quando temos um tratamento que é muito tóxico, cujo benefício é muito pequeno. Temos indivíduos cuja doença é indolente no seu comportamento e existem muitos grupos que optam por observar esses doentes durante um tempo”, explica Dr. Dzik, completando: “Nos deparamos muitas vezes com pacientes mantendo uma boa qualidade de vida por um tempo prolongado com muito pouco tratamento ou nenhum tratamento, e com uma doença lentamente progressiva”. Para o médico, é possível que o interferon prolongue a sobrevida de uma parcela pequena desses indivíduos, mas é preciso ter bom senso na hora de escolher o tratamento para cada paciente.

“Se eu fosse optar por um tratamento de primeira linha para um paciente jovem e que tem condições de realizar esse tipo de tratamento, tentaria a IL-2 em altas doses, mesmo que explorando um ganho ou uma remissão completa da doença numa fração muito pequena desses indivíduos, pois a única alternativa até hoje que conseguiu demonstrar taxas de cura, mesmo que pequenas, é a IL-2 em altas doses”, afirma Dr. Dzik. Segundo o oncologista, no último Asco de 2004 surgiram dois ou três estudos mostrando que é possível talvez modificar a história da doença com drogas que alterem o comportamento biológico do câncer de rim, diminuindo a sua capacidade de produzir vasos sangüíneos, fazendo diminuir a velocidade de crescimento do tumor e, em associação com o interferon, promover maiores taxas de resposta e maiores sobrevidas.

“As drogas biológicas vêm demonstrando um resultado positivo. Estamos hoje diante de uma mudança de paradigma no tratamento do câncer de uma maneira geral, com drogas mais eficientes, que atuam num alvo terapêutico específico, diminuindo sistematicamente as toxicidades da quimioterapia e com respostas bastante promissoras”, opina Dr. Medina. A Avastina já está sendo comercializada nos EUA e deve ser lançada no Brasil nos próximos meses. “Quando comparada com placebo num estudo fase II, a Avastina promoveu o dobro de tempo para progressão da doença. Enquanto com o placebo o tumor progredia em aproximadamente 2,5 meses, os pacientes que receberam altas doses de Avastina apresentaram o dobro de tempo para progressão da doença, e isso vem, sem dúvida, mudar a abordagem do tratamento do câncer renal. Dessa forma, estamos aguardando novos estudos para que possamos determinar o valor real dessa droga no tratamento dos tumores renais”, conclui.

CÂNCER DE PRÓSTATA

Segundo o professor associado de Urologia e responsável pelo Setor de Uroncologia da Unicamp, Prof. Dr. Ubirajara Ferreira, um dos coordenadores do módulo que abordou o tema câncer de próstata, este tipo de tumor é o mais freqüente na área uro-oncológica e por isso é causa de preocupação muito grande para a especialidade, inclusive pelo número de óbitos. Um dos problemas relacionados à doença, segundo Dr. Ferreira, é a aceitação do tratamento pelo paciente devido aos importantes efeitos colaterais. “Normalmente, os tratamentos curativos levam a uma incidência, que não é desprezível, de impotência e também a alguns níveis de incontinência urinária; dessa forma, temos que investir na conscientização do homem para a prevenção e detecção precoce da doença e também na conscientização de que o tratamento curativo, apesar dos efeitos colaterais, existe numa boa porcentagem dos casos”, ressalta.


Prof. Dr. Ubirajara Ferreira


Com relação aos tumores não-curativos, o médico diz que há uma série de alternativas sendo testadas, principalmente em termos de bloqueio hormonal e outras modalidades, no sentido de aumentar a sobrevida dos pacientes sem afetar a qualidade de vida. “Tanto a radioterapia quanto a cirurgia são boas indicações. A radioterapia, principalmente a braquiterapia, traz menos efeitos nocivos em relação à impotência.” O médico afirma que uma das tendências atuais é o bloqueio hormonal, especialmente com a bicalutamida, uma estratégia que vem propiciando efeitos colaterais menores em relação à parte sexual. “Esta modalidade de tratamento parece também promover melhora na sobrevida em câncer de próstata localmente avançado. Embora isso ainda não tenha sido comprovado, consideramos uma boa alternativa neste grupo de pacientes”, salienta. Com relação à quimioterapia para os tumores avançados, de acordo com Dr. Ferreira, uma estratégia muito utilizada é a combinação com os taxanos somados a algum tipo de corticóide, principalmente a prednisona. “Entretanto, apesar de ser uma boa opção, ainda deixa muito a desejar em relação à sobrevida, devendo ser indicada em casos bastante selecionados.”

O oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein e do Centro Paulista de Oncologia, Dr. Óren Smaletz, que falou sobre “Tratamento precoce de pacientes com recidiva bioquímica no câncer de próstata”, explica que cerca de 30% dos pacientes diagnosticados com câncer de próstata localizado e que são submetidos a tratamento cirúrgico ou radioterápico podem desenvolver aumento do PSA após o tratamento. “A discussão atual gira em torno de como realizar a abordagem nesse grupo de pacientes que recidivam, pois faltam estudos randomizados que direcionem o melhor tratamento para esses pacientes”, salienta. “O câncer de próstata é uma doença de várias faces”, diz Dr. Smaletz, “temos que utilizar recursos para entender como o nosso paciente irá se comportar: Se ele é um paciente que terá um câncer indolente ou um câncer agressivo, ou se a recidiva dele é local ou distante. Acredito que identificando isso conseguiremos direcionar melhor o tratamento, minimizando os efeitos colaterais e proporcionando o tratamento mais adequado para o paciente”, completa.


Dr. Óren Smaletz


RADIOTERAPIA

Hoje há várias abordagens possíveis com radioterapia no tratamento do câncer de próstata”, diz a radioterapeuta do Centro de Oncologia Campinas Dra. Ludmila de Oliveira Siqueira, que realizou durante o simpósio a palestra “Avaliação crítica das opções de radioterapia para pacientes com câncer de próstata”. De acordo com a radioterapeuta, uma das alternativas é a teleterapia, realizada por aceleradores lineares e a técnica conformacional, que utiliza planejamento virtual em 3D, baseado em reconstrução digital de cortes tomográficos do paciente, e atualmente se impõe como imprescindível para um bom tratamento radioterápico. “Ela permite empregar doses bem mais elevadas e, portanto, com maior chance de cura, apenas na próstata, preservando ao máximo os órgãos vizinhos.” Dentro da teleterapia conformacional, há a radioterapia de intensidade modulada (IMRT), na qual o ganho é a possibilidade de poupar ainda mais, principalmente o reto, em alguns casos em que a anatomia do paciente dificulte a redução de dose neste órgão.


Dra. Ludmila de Oliveira Siqueira


A outra forma de empregar a radioterapia no tratamento dos tumores de próstata, conforme explica Dra. Ludmila, é a braquiterapia, um método em que se coloca material radioativo dentro da próstata sob raquianestesia guiado por ultra-som transretal. “Atualmente temos três isótopos utilizados: o iodo, o paladium e o iridium de alta taxa de dose. Os trabalhos têm mostrado que os implantes apresentam excelentes resultados quando realizados em pacientes do grupo de baixo risco, como tratamento exclusivo, ou como um reforço de dose nos pacientes que tem alto risco (PSA muito elevado, Gleason alto, grande volume tumoral na próstata).” Segundo a especialista, administrar uma dose de radioterapia externa conformacional e reforçar essa dose dentro da glândula com um dos isótopos tem se mostrado uma técnica aparentemente com melhores controles bioquímicos nestes pacientes com fatores de risco mais graves. 

“Os resultados em termos de cura dessas técnicas dependem da situação do tumor. Temos três grupos de doentes, considerando-se os fatores de risco, baseados no nível de PSA, no Gleason e na extensão do tumor dentro da glândula. Assim, há os grupos muito favoráveis, os grupos de risco intermediário e os grupos de alto risco”, salienta Dra. Ludmila, esclarecendo que nos grupos de bom prognóstico, a radioterapia externa ou a braquiterapia promovem resultados comparáveis aos da prostatectomia radical. “Dessa forma, a radioterapia tem sido uma técnica cada vez mais utilizada, considerando a idade do paciente ou mesmo a sua escolha, porque a radioterapia em qualquer das suas formas tem um índice muito menor de complicações, tanto de incontinência urinária quanto de impotência.”

Os grandes questionamentos atuais sobre a radioterapia no câncer de próstata são com relação à abordagem nos pacientes com grau de risco intermediário e alto. “Ainda não há dados conclusivos se é melhor fazer, nestes casos, radioterapia externa isolada ou associada com bloqueio hormonal, ou ainda radioterapia externa com reforço com implante de material radioativo com ou sem bloqueio hormonal. Os trabalhos estão em andamento e temos que aguardar os resultados”, finaliza.