Tabagismo entre Adolescentes:
Prevalência e Prevenção



Dr. Adelmo Souza Machado Neto1 - Prof. Dr. Almério de Souza Machado2
Prof. Dr. Almério Machado Júnior3

1Mestre em Medicina Interna pelo Curso de Pós-Graduação em Medicina e Saúde do Departamento
de Medicina UFBA. Título de Especialista em Clínica Médica e Pneumologia.
2Professor Adjunto do Departamento de Medicina da Faculdade de Medicina da UFBA.
3Professor Assistente da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública de Salvador - BA.
Mestre em Medicina Interna pelo Curso de Pós-Graduação em Medicina e Saúde.



Prof. Dr. Almério Machado Júnior (à esq.),
Prof. Dr. Almério de Souza Machado e
Dr. Adelmo Souza Machado Neto


INTRODUÇÃO

O tabagismo é um problema grave no mundo e também no Brasil.(1) Além de causar as doenças vastamente conhecidas relacionadas ao tabaco (doença pulmonar obstrutiva crônica, câncer de pulmão, entre outros cânceres, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral), o tabaco é responsável por grande número de incapacitações e óbitos precoces, redução da qualidade de vida, aumento do custo de saúde e social, constituindo-se numa das principais fontes de poluição ambiental intradomiciliar em todo o mundo,(2-4) pois o consumo do tabaco atingiu a proporção de uma epidemia global.(5) Nos EUA (1965 a 1995), o tabagismo vem tendendo a se reduzir entre os indivíduos mais velhos, porém vem sendo mantido pelos mais jovens.(6)

Este problema toma especial vulto quando algumas doenças, que ocorrem principalmente em adultos e idosos, vêm sendo observadas também entre jovens, tomando-se como exemplo as alterações funcionais respiratórias obstrutivas.(7) O tabaco é responsável pela maior freqüência de problemas respiratórios entre adolescentes e jovens (infecções do trato respiratório inferior e superior, alergias, asma, tosse crônica, redução do volume pulmonar), alterações da saúde bucal (halitose, doenças gengivais, e lesões da cavidade oral) e redução da capacidade física.(8-17) A nicotina desenvolve dependência facilmente entre jovens através de sua ação no Sistema Nervoso Central e esta pode ser duradoura.(18,19) Outro aspecto relevante é que a presença de outras substâncias contidas na fumaça do cigarro, como o alcatrão e o monóxido de carbono, também podem levar a problemas de saúde precocemente na vida do ser humano.(20,23)

O hábito de fumar é considerado comportamento anti-social na adolescência (inadequado para a idade).(24) A dependência da nicotina, assim como o hábito de fumar, são classificados como problema de saúde no Código Internacional de Doenças (CID-10)(25) e pelo DMS IV,(26) oferecendo riscos do uso persistente ou por toda a vida.(24} Esta substância é uma droga potente, possui grande capacidade de causar dependência e abstinência,(26,29) com propriedade de relaxamento.(27,29)

Baseado na relevância deste tema, este trabalho de revisão aborda tabagismo entre adolescentes, com ênfase em medidas preventivas, pois é nessa faixa etária que se observa maior vulnerabilidade quanto à iniciação do tabagismo.(30,31)

INFLUÊNCIA PARA A INICIAÇÃO DO TABAGISMO

É na adolescência que ocorre a maior exposição aos comportamentos de risco, dentre eles o consumo de tabaco entre outras drogas, devido à própria característica dessa faixa etária, que apresenta contradições próprias da idade e grande influência dos seus pares,(32-34) tornando-os vulneráveis.(31,35) As influências importantes para o hábito de fumar dos adolescentes são: o tabagismo dos pais com suas atitudes, a da mídia, da escolaridade e desinformação, redução da auto-estima e auto-imagem, dos ídolos, do contexto social, da prevalência de fumantes no meio em que vive, da experimentação, da venda ilegal e do próprio efeito farmacológico da nicotina.(24,36-45)

Adalbjarnardottir & Rafnsson (2001) em um estudo longitudinal sobre o início do uso de drogas (incluindo o tabaco), entre adolescentes escolares com 15 anos de idade, observaram que em relação ao tabagismo a influência de amigos teve maior significância aos 14 anos de idade, sendo muito maior quando comparada à dos pais.(37) Aos 17 anos, estas influências foram menores e as razões de risco tenderam a se igualar.(3) Isto se deve provavelmente à função social do cigarro entre os adolescentes, pois é um motivo de agregação entre os seus pares.(39,46,47)

Machado Neto & Cruz (2003), entre adolescentes escolares de Salvador (Bahia), observaram que o risco do adolescente fumar estava associado ao tabagismo dos pais, sendo que o da mãe apresentava maior associação em relação ao do pai, assim como quando ambos fumavam este risco era muito maior,(45) seguindo a mesma tendência quanto aos sexos (tabela 1). Na população estudada, houve evidência de que a influência de amigos é muito significativa na determinação desse hábito entre adolescentes.(48) Coincidindo com dados de outros países(37,44,49) e se diferenciando de dados encontrados por outros autores brasileiros(50,51) (tabela 2).







PREVALÊNCIA DO TABAGISMO

O fumo é primeira substância psicoativa consumida pelos adolescentes(36,52) e a segunda no consumo entre as drogas mais freqüentes. Nos EUA, esta prevalência do consumo dessa droga nos últimos 30 dias (uso corrente) pode ir de 14,5% a até 64,1% da população jovem e 90% dos tabagistas adultos iniciaram seu vício em idade igual ou inferior a 18 anos.(53-58) Na Europa, a prevalência do tabagismo entre adolescentes e jovens é maior que no Brasil, sendo o consumo do tabaco mais freqüente no sexo masculino,(49) e na França foram encontradas as maiores taxas de prevalência, 33% dos do sexo feminino e 35% dos do sexo masculino (fig. 1).(49)




A América Latina apresenta as seguintes prevalências do consumo do tabaco: Costa Rica 28,4% entre adolescentes de 12 a 18 anos,(59) na Ilha de Páscoa 50%,(60) no Chile variou entre 10% e 64%, conforme idade, sexo dos adolescentes escolares e período de realização do estudo.(52,59,61,62) Fuentealba et al. (2000), no Chile, detectaram maior freqüência no tabagismo entre o sexo masculino e na faixa etária de 19 a 25 anos, e menor consumo nas idades de 12 e 18 anos.(52)

No Brasil, a prevalência dos fumantes, em áreas urbanas, encontra-se em torno dos 39%, podendo variar conforme o sexo, a faixa etária, a escolaridade, a ocupação(63) e a Unidade da Federação (UF). No Brasil variou de 1%(64) até 37,9% dos adolescentes escolares,(30,42,45,51,65-68) havendo variação ou não conforme o sexo em cada estudo, como visto na tabela 3.





Quanto à experimentação do cigarro, Machado Neto & Cruz (2003),(45) em Salvador (BA), observaram que 46% dos adolescentes experimentaram o cigarro, sendo esta freqüência de 53,3% para o sexo masculino e 41% para o feminino, semelhante à encontrada em outros Estados brasileiros.(36) Dos estudantes que experimentaram, a prevalência foi de 20,4%, sendo maior para o sexo masculino (27%) em relação ao sexo feminino (14,6%).(45) Quanto à idade de experimentação, foi observado neste último estudo realizado em Salvador (BA) que quanto mais precoce a experimentação do cigarro, maior é a prevalência do tabagismo nessa faixa etária, coincidindo com outros estudos realizados.(37,45) Isto se deve, possivelmente, à capacidade da nicotina (com seu efeito relaxante, miorrelaxante e euforizante),(29,69) poder causar dependência e síndrome de abstinência no cérebro ainda em desenvolvimento.

Um outro aspecto curioso que pode reforçar a capacidade de dependência da nicotina é que a maioria dos adolescentes de Salvador (BA) (1998) que fumava usava diariamente o cigarro (46,2%), e que essa freqüência aumentava à medida que aumenta a idade do adolescente.(48) Dados do CDC (1992) mostraram que 49,9% dos indivíduos entre 12 e 21 anos fumavam o cigarro inteiro, aumentando essa freqüência com a idade. Vinte e dois por cento dos adolescentes fumavam regularmente (nos últimos 30 dias), aumentando essa freqüência com a idade, chegando a 34,5% entre as idades de 18 a 21 anos.(53) Isto possivelmente se deve às propriedades da nicotina já citadas, podendo ter-se como evidência que nos EUA (1994), entre jovens de 10 a 18 anos de idade, onde a freqüência da sensação de relaxamento e de calma foi entre 30% a 75,4%, de acordo com o uso do cigarro em intensidade, duração e freqüência.(19) No Brasil foram encontrados 9% de dependentes do tabaco, variando conforme sexo, idade e região do país (fig. 2).(66)





PREVENÇÃO DO TABAGISMO ENTRE ADOLESCENTES

É importante esta abordagem, pois campanhas eficazes diminuem a freqüência do tabagismo, principalmente entre jovens. Em Salvador (BA) foi observado que há evidência de que há um ambiente propício para tomadas de medidas preventivas nessa faixa etária.(70) Entre escolares de Salvador (BA), a maioria dos adolescentes não achava “elegante” (bonito) fumar; mesmo entre fumantes, apenas 20% acham bonito fumar.(70) A maioria dos adolescentes não achava as campanhas contra o fumo eficazes e sugeria principalmente mais campanhas informativas nas escolas e a proibição da venda do tabaco a menores (sendo também opinião dos adolescentes fumantes), vindo em último lugar as campanhas na mídia.(70) Nos EUA há a mesma tendência, os adolescentes não achavam bonito fumar, preferiam estar entre não-fumantes, têm consciência que o tabaco causa problemas de saúde e pode viciar.(71)

Também se sabe que a escola é um importante canal no desenvolvimento de ações de prevenção, promoção da saúde e para o controle do tabagismo, voltada para crianças e adolescentes,(36,72-74) principalmente quando os professores estão devidamente treinados para lidar com esse problema.(75,76) Há estudos mostrando a eficácia da informação na prevenção do tabagismo e do consumo de outras drogas quando os professores estão aptos e informados para lidar com esse problema entre adolescentes.(75,76)

Então, pode-se inferir que com o fato de proibir a venda a menores de 18 anos e incrementar as informações sobre o tabaco utilizando linguagem adequada para a idade e treinamento daqueles que lidam com os adolescentes, o sucesso na prevenção desse mal é atingindo. Se nos basearmos em dados recentes, a influência da mídia é menos eficaz, pois na Inglaterra foi observado que apenas 1% dos adolescentes buscavam informações neste veículo de comunicação, sendo mais freqüente buscá-las entre pais compreensivos, seus pares e confidentes.(77) Logo, se houver difusão destas idéias positivas entre os próprios adolescentes, poderemos diminuir o consumo dessa substância tabela 4.




CONCLUSÃO

O conhecimento do status do tabagismo entre adolescentes na sua freqüência, quanto às suas determinantes psicossociais (amigos, relações com os pais, tabagismo dos pais, entre outros) e da opinião do adolescente quanto às campanhas preventivas (com informação e medidas de restrição de consumo dessa substância) pode guiar a aplicação dessas medidas de forma mais eficaz e com melhor aproveitamento dos recursos técnicos e financeiros neste sentido. Outra conclusão importante é que se os pais compreendem seus filhos e mantêm um diálogo constante, os riscos de consumo de substâncias psicoativas são reduzidos, inclusive o do tabaco.


Trabalho realizado no Centro de Enfermidades Respiratórias e Curso de Pós-Graduação em
Medicina e Saúde do Departamento de Medicina da Faculdade de Medicina da Bahia - UFBA.


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