Dr. Artur Katz
“Agora que estou aqui, aonde estou?”
(Now that I am here, where am I?)
Janis Joplin (1943-70)


Neste número de Prática Hospitalar, dedicado à oncologia, temos o privilégio de contar com a contribuição de experientes especialistas, abordando relevantes temas (câncer de mama, pulmão, estômago, entre outros) e destacando os recentes avanços de suas respectivas áreas de atuação. Destaca-se, no início deste novo século, o advento de novas técnicas propedêuticas e terapêuticas e o desenvolvimento de procedimentos minimamente invasivos, tais como as técnicas cirúrgicas de localização de linfonodo sentinela, cirurgias laparoscópicas e radioterapia intra-operatória. Do ponto de vista farmacológico, as terapias dirigidas contra alvos moleculares vêm ganhando espaço nas publicações e congressos médicos e buscando definir seu real espaço e utilidade.

Dentre os anticorpos monoclonais, o rituximab e o trastuzumab, já utilizados há alguns anos, têm suas respectivas indicações reconhecidas pela comunidade médica. O cetuximab e o bevacizumab, recentemente aprovados pelo FDA, ainda não estão comercialmente disponíveis em nosso país. Já os inibidores da tirosina-quinase do receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR), gefitinibe e erlotinib estão progressivamente conquistando terreno no tratamento dos pacientes portadores de carcinoma de pulmão não-pequenas células. Para o inibidor da tirosina-quinase do c-kit, imatinib, as indicações no tratamento da leucemia mielóide crônica GIST são hoje consideradas consagradas; outras medicações vêm sendo avaliadas.

Por outro lado, no terreno da quimioprevenção, tema abordado em um dos artigos deste número, o progresso vem sendo extraordinariamente lento, a ponto de em dados momentos ser completamente imperceptível. Tal morosidade deve-se não somente às dificuldades inerentes a esta área, mas também à gritante desproporção entre os recursos destinados às pesquisas que avaliam a prevenção do câncer em comparação aos montantes destinados aos estudos que avaliam o tratamento de doenças já estabelecidas e avançadas.

Assim, neste início de século, ainda que sejam inquestionáveis os evidentes avanços citados acima, antes de podermos comemorar as glórias alcançadas devemos nos perguntar se já somos capazes de responder positivamente às seguintes questões:

- Estamos conseguindo de-finir com precisão quais são os indivíduos que estão sob maior risco de desenvolver uma determinada neoplasia?

- Dispomos de estratégias eficazes para preveni-las?

- Somos capazes de diagnosticá-las precocemente?

- As estratégias atualmente disponíveis de prevenção, detecção e diagnóstico precoce têm sido capazes de reduzir a incidência e mortalidade determinadas por estas doenças?

- Estamos sendo capazes de consistentemente curar os indivíduos portadores de tumores avançados e/ou disse-minados?

- Podemos manter sob longo controle neoplasias avançadas, de maneira a torná-las doenças verdadeiramente crônicas?

- A medicina moderna e seus recursos diagnósticos e tera-pêuticos de ponta estão ao alcance de todos aqueles que deles necessitam?

Infelizmente ainda não podemos responder afirmativamente à maior parte destas perguntas. Conseqüentemente, por mais que tenhamos avançado na última década, estamos ainda relativamente distantes da conquista definitiva de nossos objetivos. São ainda modestos os impactos que nossos recentes avanços proporcionam na redução de incidência e mortalidade das principais neoplasias.

É necessário que reconheçamos estas limitações e as transformemos em estímulo para prosseguirmos nesta longa jornada.

Agora que já chegamos até aqui, muito ainda temos a caminhar...


Dr. Artur Katz
Oncologista Clínico do Centro Paulista de Oncologia
e do Hospital Albert Einstein.
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