
Dr. Sérgio Cimerman |
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Entre os dias 2 e 4 de dezembro o Brasil será sede de um dos mais importantes eventos internacionais na área de infectologia. Com promoção da Asociación Panamericana de Infectología, o 2º Congresso de Infectologia do Cone Sul acontecerá em São Paulo, no Centro de Convenções Rebouças e contará com a participação de renomados pesquisadores da América Latina em diversas áreas. O evento internacional terá como objetivo a atualização dos principais temas da infectologia, com ênfase no diagnóstico e tratamento das patologias infecciosas. O Dr. Sérgio Cimerman, um dos pesquisadores e especialistas brasileiros com larga experiência na área, é o presidente do congresso. Em entrevista à Prática Hospitalar, ele ressalta a importância de o Brasil sediar um evento como esse no mundo globalizado em que vivemos, no qual múltiplos fatores levam ao aparecimento e à disseminação de novos agentes infecciosos e doenças. Leia a seguir os principais destaques da entrevista.
Prática Hospitalar - Qual a importância das doenças infecciosas no mundo globalizado?
Dr. Sérgio Cimerman - No mundo globalizado, as doenças infecciosas merecem um lugar de destaque devido às constantes viagens empreendidas pelas pessoas a trabalho ou em férias. Nos dias atuais já temos até um ramo da infectologia que estuda as doenças de viagem, denominado Medicina dos Viajantes, com vários serviços públicos engajados no problema e com ambulatórios bastante específicos. O aconselhamento pré-viagem se faz necessário em decorrência de doenças como a malária ou a diarréia dos viajantes, por exemplo, que necessitam de medicações específicas e também o emprego de vacinas para outras patologias dependendo do local a ser visitado.
P. H. - Como os países da América Latina devem se proteger contra o bioterrorismo?
Dr. Cimerman - Constituem medidas fundamentais na luta contra a ameaça das armas biológicas a investigação de meios de diagnóstico rápidos e fiáveis, de novos antibióticos e vacinas para o tratamento e prevenção das afecções com maior probabilidade de ser utilizados, bem como a preparação e o treinamento do pessoal cujas funções sejam enfrentar situações dessa natureza. O emprego de armas biológicas deve ser considerado crime contra a humanidade e um Manual da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) estabeleceu uma lista de 39 agentes patogênicos, incluindo bactérias, rickéttsias, vírus e toxinas que podem ser usados como armas biológicas. Entre as doenças com maior probabilidade dessa utilização estão a varíola, o carbúnculo, o botulismo, a peste, a tularemia e as febres hemorrágicas víricas.
P. H. - Qual deve ser a postura dos infectologistas em situações emergenciais?
Dr. Cimerman - Em primeiro lugar, não atemorizar a população. Tentar descobrir o agente causal da doença e a terapia de escolha. Minimizar efeitos colaterais e complicações que as doenças desconhecidas podem provocar no organismo humano. Além disso, deve haver precaução com o uso indiscriminado de antibióticos que podem levar a uma resistência. Em suma, temos a obrigação de servir a população com orientação geral nos vários meios de comunicação de massa para evitar pânico e temor como foi observado no caso da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), por exemplo.
P. H. - Na América Latina, qual a posição do Brasil no combate à aids?
Dr. Cimerman - O Brasil ocupa um lugar de destaque na questão do combate à aids, apresentando notoriedade na distribuição gratuita de medicação anti-retroviral, além de vários outros aspectos importantes, como a respeitabilidade de profissionais altamente capacitados no manejo clínico e terapêutico dos pacientes; um programa de aids extremamente bem organizado e distribuído por funções, com recursos financeiros para diagnóstico e dispensação de exames como contagem de células linfocíticas CD4/CD8 e mensuração da viremia plasmática. O programa tem uma página na Internet que merece ser visitada (www.aids.gov.br), tanto pelo público leigo como pelos meios de comunicação, especialistas da área e profissionais de saúde, pela riqueza de informações disponíveis durante a navegação.
P. H. - Quais os principais avanços na área?
Dr. Cimerman - O tratamento contra a aids evoluiu muito na última década, com avanços na terapia de anti-retrovirais, sobretudo com inibidores de protease, proporcionando melhoria da qualidade de vida e diminuição de infecções oportunistas e internações hospitalares. Em relação às outras doenças notamos características de progresso no que tange às novas vacinas.
Nas hepatites virais observam-se resultados bem melhores do que anteriormente se notavam com monoterapia de alfa-interferon. Os interferons peguilados em combinação com a ribavirina vieram para contribuir para uma resposta clínica virológica sustentada em grande parte dos pacientes.
Nas doenças parasitárias, apontaram novas drogas para tratamento de endemias tropicais como a leishmaniose, com a administração de miltefosina de modo oral e com boa resposta de cura para o paciente.
Outro avanço foi sem dúvida alguma com o uso da nitazoxanida em várias verminoses intestinais, principalmente naquelas associadas a aids, como a criptosporidiose, isosporíase, blastocistose e giardíase. Em patologias fúngicas, as equinocandinas são um diferencial a mais no manejo dos pacientes.
P. H. - Qual o principal objetivo do 2º Congresso de Infectologia Cone Sul da Asociación Panamericana de Infectología (API)?
Dr. Cimerman - O objetivo é estabelecer um intercâmbio científico entre todos os profissionais da América Latina e se possível auxiliar no fomento de novos recursos em pesquisas de ponta na área de infectologia. E também promover novas relações de amizade com todos os serviços de infectologia distribuídos nas várias localidades do continente e com isso contribuir para a formação de jovens médicos residentes, que podem vir a adquirir experiências que não se encontram nos atuais locais de trabalho, como por exemplo manejar patologias não usuais no meio em que atuam.
P. H. - Qual a importância de um evento como esse ser realizado no Brasil?
Dr. Cimerman - A importância está em recolocar o Brasil em uma posição de destaque na infectologia latino-americana, visto que temos a maior quantidade de médicos infectologistas que, seguramente, detêm projetos importantes de pesquisa em parcerias com muitos centros internacionais. Também é importante destacar o congraçamento da especialidade, com trocas de informações que possam auxiliar nossos pacientes.
P. H. - Qual o papel da API para os profissionais que atuam na América Latina?
Dr. Cimerman - A API vem desenvolvendo um papel de integração entre os profissionais que atuam na área da infectologia por toda a América Latina. Fornece bolsas de estudos a jovens médicos para o desenvolvimento de estudos em programas colaborativos, sobretudo na Espanha. Tem também um papel de participação científica nos principais congressos da especialidade, organizando simpósios com os mais variados temas de importância para os profissionais latino-americanos. A API hoje tem participação efetiva dentro do programa oficial da Infectious Diseases Society of American (IDSA) e da International Society for Infectious Diseases (ISID) e com membros que participam ativamente em diversas comissões científicas. A API tem promovido o desenvolvimento de vários comitês de estudo e pesquisa que têm merecido grande destaque no mundo, como o das hepatites virais, resistência bacteriana, aids e publicações científicas. Vale ressaltar que ao longo dos tempos o Brasil tem tido um lugar de destaque na API, com a participação dos Drs. André Villela Lomar, seu ex-presidente, Roberto Focaccia, Flávia Rossi, entre muitos outros colegas brasileiros.
P. H. - E qual a importância da Revista Panamericana de Infectología?
Dr. Cimerman - Tivemos a grata satisfação de sermos nomeados por aclamação para desenvolver o trabalho de Editor-Chefe da Revista Panamericana de Infectología. A revista foi totalmente reformulada em seu corpo editorial e em sua periodicidade, contando atualmente com quatro números por ano. A publicação está disponível na internet gratuitamente em sua totalidade, com o objetivo de difundir os trabalhos latino-americanos de expressão dos mais diversos pesquisadores. Contamos com vários revisores, que compreenderam o espírito da revista e estão encaminhando suas críticas e sugestões de modo rápido, proporcionando aos autores maior agilidade na aprovação ou não do artigo submetido. O caminho é árduo para uma indexação na base de dados LILACS e Scielo, porém esforços não serão medidos para o alcance desse objetivo maior, que é ter qualidade de artigos científicos e poder de indexação.
P. H. - Gostaria de deixar alguma mensagem aos colegas?
Dr. Cimerman - Espero encontrar todos os colegas infectologistas no 2º Congresso de Infectologia do Cone Sul, que será realizado em São Paulo, para que se possa trocar idéias sobre novos projetos de pesquisas, discutir novas opções de diagnóstico e tratamento nas mais diversas patologias infecciosas. A Comissão Científica presidida pelo Dr. André Villela Lomar tem se esmerado em poder proporcionar a todos os congressistas o que de melhor temos de assuntos na Infectologia, com inúmeros convidados estrangeiros da América Latina, que virão para abrilhantar o conclave científico.