Medicina Hiperbárica:
Importância do Tratamento
Dr. Ivan Silva Marinho
Infectologista. Médico Hiperbaricista do Hospital São Camilo.

Dr. Ivan Silva Marinho |
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A medicina hiperbárica tradicionalmente dedica-se ao estudo e ao tratamento de doenças decorrentes do mergulho e do trabalho em situação de pressurização.
Oxigenoterapia hiperbárica (OHB) é uma modalidade terapêutica que pertence à medicina hiperbárica e consiste na respiração de oxigênio puro a 100% intermitentemente, a pressões maiores que a pressão atmosférica ambiente no nível do mar, com o paciente colocado no interior de uma câmara hiperbárica. As câmaras são de paredes rígidas, hermeticamente fechadas e resistentes a pressões.
A pressão máxima de 3 Atmosferas Absolutas (ATA) para tratamentos clínicos corresponde a um mergulho de 20 metros de profundidade.
Este recurso terapêutico tem sido utilizado em várias patologias e em diversos países, inclusive no Brasil.
HISTÓRICO
Em 1967 foi fundada nos EUA a “Undersea and Hyperbaric Medical Society”, inicialmente para estudar a troca de dados da fisiologia e medicina do mergulho comercial e militar. Em 1976 foi criado o Committee on Hyperbaric Oxygenation, responsável pela revisão anual dos vários estudos clínicos e experimentais que comprovem a eficácia da OHB, pela definição dos protocolos de tratamento e pelas normas de segurança dos procedimentos.
No Brasil, o marco histórico da oxigenoterapia hiperbárica ocorreu em 15 de setembro de 1995, quando o Conselho Federal de Medicina emitiu a Resolução CFM n 1.457/ 95 sobre as indicações clínicas atualmente reconhecidas da oxigenoterapia hiperbárica.
NOSSO SERVIÇO
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Desde setembro de 1995 o Hospital e Maternidade São Camilo mantém o Serviço de Medicina Hiperbárica na Unidade Santana. Em maio de 2004 foi inaugurado um novo serviço na Unidade Pompéia, hospital avaliado pelo Instituto Qualisa de gestão de acordo com as diretrizes da Organização Nacional de Acreditação (ONA) e certificado como acreditado pleno nível II.
O diferencial do novo serviço foi criado em conformidade com os requisitos do Manual Brasileiro de Acreditação Hospitalar no que tange aos princípios de segurança, infra-estrutura, recursos humanos, manuais, normas, rotinas e procedimentos descritos, análise de indicadores de desempenho e qualidade e planejamento para implementar os ciclos de melhoria. E o tratamento fundamentado em protocolos clínicos consagrados na literatura específica da área. Uma equipe multiprofissional, composta por médicos hiperbaricistas qualificados, infectologista e intensivistas está à frente do serviço e conta com o apoio de enfermeira estomaterapeuta, nutróloga e equipe de otorrinolaringologia.
O grande diferencial do serviço do Hospital e Maternidade São Camilo Pompéia é o trabalho desenvolvido na busca pela qualidade. Modificando os procedimentos, a equipe conseguiu mensurar os indicadores de resultados e, com isso, buscar uma excelência na prestação do serviço. Um dos indicadores que demonstram este bom resultado é a taxa de desistência que, nos últimos dois meses, foi de 0%. Normalmente, a taxa de desistência do tratamento é muito grande, superando 10% em alguns serviços. A grande maioria dos pacientes desistentes o faz logo no início em virtude do medo de ficar preso na câmara (claustrofobia). A redução do patamar de desistência ocorreu graças a um Programa de Humanização, criado para amenizar os desconfortos do tratamento e fazer com que as respostas terapêuticas aumentassem. Na primeira parte do programa é realizado um trabalho de conscientização. Por meio de entrevista e folhetos, o paciente é informado sobre o que é o tratamento, quanto tempo dura uma sessão, possíveis efeitos adversos, e principalmente os benefícios da medicina hiperbárica.
Seguindo uma tendência mundial, o ambiente onde foi instalado o serviço de câmara hiperbárica ganhou um aspecto alegre, com cores leves, iluminado, equipado com TV e DVD (o que permite que o paciente assista a um filme ou programa que quiser durante a sessão) e, ainda, com flexibilidade de horários, para que o paciente se sinta bem durante o tratamento. Ainda como proposta de humanização, sempre na primeira sessão, principalmente para os pacientes que se mostram ansiosos ou claustrofóbicos, os médicos reduzem a pressão da câmara para 2 ATA e até a duração da sessão se for necessário. Este procedimento ajudou na melhora da taxa de desistência.
Além disso, a parceria com a equipe de otorrinolaringologia permite que o paciente com antecedente de doença otológica seja avaliado para descartar riscos de trauma otológico e tratar eventuais patologias existentes. Nos casos em que o otorrinolaringologista não recomenda o tratamento, as sessões são suspensas até a liberação após tratamento do problema otológico. Este procedimento reduziu a taxa de barotrauma para 4,7%, enquanto a literatura clínica considera uma média de incidência de barotrauma superior a 10%.
Os médicos infectologistas, Dr. Ivan Silva Marinho e Dr. José Ribamar Carvalho Branco são os responsáveis pelo serviço, que conta ainda com a atuação dos médicos hiperbaricistas Dr. Eduardo Vinhaes e Dra. Patrícia Cadecaro e Dra. Kátia Conde Intensivista. Até hoje, mais de 1.600 pessoas já foram atendidas no serviço de medicina hiperbárica dos hospitais Camilianos de São Paulo.
O TRATAMENTO
Pode ser realizado tanto em câmaras monoplace quanto multiplace. No tipo monoplace, coloca-se um único paciente dentro da câmara pressurizada com oxigênio a 100%, e o paciente respira o oxigênio diretamente na câmara. No tipo multiplace, colocam-se dois ou mais pacientes e a câmara é pressurizada com ar comprimido, enquanto os pacientes respiram oxigênio a 100% via máscara ou capuz de acrílico.
O emprego de oxigênio puro em câmaras hiperbáricas provoca múltiplos efeitos terapêuticos, como proliferação de fibroblastos, neovascularização, osteogênese, lise de bactérias e fungos, entre outros.
A oxigenoterapia hiperbárica é indicada, como tratamento principal ou coadjuvante, em inúmeras patologias agudas ou crônicas, de natureza isquêmica, infecciosa, traumática ou inflamatória.
PRINCIPAIS INDICAÇÕES DE OXIGENOTERAPIA HIPERBÁRICA RECONHECIDAS
PELO CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (RESOLUÇÃO CFM N. 1.457/95)
1. Embolias gasosas;
2. Doença descompressiva;
3. Embolias traumáticas pelo ar;
4. Envenenamento por monóxido de carbono ou inalação de fumaça;
5. Envenenamento por cianeto ou derivados cianídricos;
6. Gangrena gasosa;
7. Síndrome de Fournier;
8. Outras infecções necrotizantes de tecidos moles: celulites, fasciites e miosites;
9. Isquemias agudas traumáticas: lesão por esmagamento, síndrome compartimental, reimplantação de extremidades amputadas e outras;
10. Vasculites agudas de etiologia alérgica, medicamentosa ou por toxinas biológicas (aracnídeos, ofídios e insetos);
11. Queimaduras térmicas e elétricas;
12. Lesões refratárias: úlceras de pele, lesões pé diabético, escaras de decúbito, úlcera por vasculites auto-imunes, deiscências de suturas;
13. Lesões por radiação: radiodermite, osteorradionecrose e lesões actínicas de mucosas;
14. Retalhos ou enxertos comprometidos ou de risco;
15. Osteomielites;
16. Anemia aguda, nos casos de impossibilidade de transfusão sangüínea.
COMO É O TRATAMENTO
O tratamento é realizado em sessões diárias com a duração de 120 minutos com pressão variando de 2 a 3 ATA. O número de sessões varia de acordo com a patologia e o quadro clínico do paciente. Nas lesões agudas, o número de sessões varia de 10 a 30, sendo no máximo de 90, e nas crônicas, de 30 a 60, podendo chegar a 180 sessões.
O custo do tratamento é relativamente baixo, se comparado ao custo médio/dia de um paciente internado na terapia intensiva, que pode chegar a um valor correspondente a cerca de 10 a 20 sessões de OHB. Se levarmos em consideração que no paciente tratado com OHB há redução do tempo de internação, do consumo de antibióticos e do número de procedimentos cirúrgicos, verificaremos uma diminuição substancial no custo total do paciente tratado com OHB.
Outro marco importante foi a realização do Fórum de Segurança e Qualidade em Medicina Hiperbárica realizado em outubro de 2003 em São Paulo, organizado pela Sociedade Brasileira de Medicina Hiperbárica, quando foi elaborado um documento sobre as Diretrizes de Segurança e Qualidade em Medicina Hiperbárica.
A literatura médica sobre o assunto registra trabalhos bem-feitos com estudos demonstrando resultados positivos. Faglia et al., em 1996, publicaram um artigo de destaque, randomizado e duplo-cego, onde foram estudados 35 pacientes com pé diabético tratados com OHB e 33 com ar sob pressão. Estes autores demonstraram que o índice de amputações foi de 8,6% (3/35) nos pacientes tratados com OHB e de 33,3% (11/33) no grupo controle (p = 0.016).
No Brasil, recentemente teses de mestrado e doutorado foram defendidas na Universidade de São Paulo e na Universidade de Ribeirão Preto tendo como tema a oxigenoterapia hiperbárica, o que demonstra a importância que o tema tem adquirido no meio acadêmico.
REFERÊNCIAS
1. Feldmeier JJ, Chairman and Editor. Hyperbaric Oxygen 2003: Indications and Results: Tha Hyperbaric Oxygen Therapy Committee Report. Kensington, MD: Undersea and Hyperbaric Medical Society, 2003.
2. Faglia E et al. Adjunctive systemic hyperbaric oxygen therapy in the treatment of diabetic foot ulcer. A randomized study. Diabetes Care 1996;19:1338-1343.
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