A Mulher e o Câncer
Dra. Carla Ismael
Presidente da Sociedade Franco-Brasileira de Oncologia

Dra. Carla Ismael |
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O câncer é a segunda causa de morte no Brasil, seguida apenas pelos acidentes cardiovasculares. O câncer de mama é o de maior incidência em mulheres no país e também o responsável pelo maior número de óbitos.
Quando se observa o índice de mortalidade pelo tumor de mama no mundo, a taxa vem diminuindo, mostrando que após longas décadas em que as curvas de mortalidade por esse tumor permaneciam estáveis, finalmente agora observa-se um declínio. Mas atenção! No nosso país ainda não se chegou a esses resultados, ou seja, a curva de mortalidade pelo câncer de mama permanece estável, pois a incidência aumentou.
Como compreender tudo isso? A resposta é relativamente simples, pois a doença continua chegando ao médico em estádio avançado, ou seja, numa fase em que a cura é muito difícil, pois o tumor já se apresenta com doença a distância, visível de imediato ou não. São várias as explicações para isso, porém a mais provável é a falta de diagnóstico precoce, feito através do exame mamográfico seguido pela core-biópsia, ou a retirada da área suspeita com exame histopatológico. Com a mamografia feita de forma rotineira a cada ano nas mulheres pós-menopausa, ou após 50 anos (quando ocorre a maior incidência da doença), é possível detectar alterações mínimas, como microcalcificações ou lesões pré-tumorais, o que permite uma cirurgia mínima com máximo potencial de cura.
Nossas mulheres continuam a procurar o médico com tumores muito grandes para fazer tratamento cirúrgico que preserve a mama, na grande maioria dos casos com doença em outros locais.
Precisamos mudar esse quadro urgentemente e para tal é necessária a união de todos, do Governo, das secretarias de saúde estaduais, a parceria com a sociedade civil, com a criação de “redes” de atendimento com aparelhagem mínima para dar atendimento a essas mulheres, mamógrafos, biópsia com histopatologia, encaminhamento para centros de tratamento mais complexos quando necessário. Utopia? Não, cabe a nós essa mudança e se cada um se propuser a dar uma pequena contribuição, isso será possível. A ação local pode se espalhar como “ondas”, vindo a se refletir em todo o país.
Existem modelos que já foram ou estão sendo implantados em diversas regiões. Dois importantes exemplos são o projeto de Santa Catarina, na cidade de Florianópolis, da Secretaria Municipal de Saúde em conjunto com a Universidade Federal de Santa Catarina, com a realização obrigatória da mamografia para cada mulher no seu aniversário de 50 anos, e a parceria público-privada na cidade de Porto Alegre, onde o melhor hospital da cidade, em conjunto com uma ONG (Instituto da Mulher) se propõe a realizar exames mamográficos para toda a população sob risco.
Há outras iniciativas a citar, como da FIRJAN na cidade do Rio de Janeiro. Entretanto, o maior resultado ocorrerá quando juntarmos todas essas iniciativas num mesmo fórum, para que se possa trocar experiências e somar esforços para o combate ao inimigo comum: o câncer, um vilão que quando diagnosticado a tempo é passível de cura total.
III Congresso Franco-Brasileiro de Oncologia

O III Congresso Franco-Brasileiro de Oncologia, a ser realizado no Rio de Janeiro, de 25 a 27 de novembro de 2004, propõe-se a dar a sua contribuição nessa guerra: faremos no dia 27/11/04, Dia Nacional de Combate ao Câncer, um Fórum durante todo o dia, onde se juntarão essas forças, os secretários de saúde estadual e municipal, os presidentes das sociedades de câncer e mastologia, FIRJAN, entidades civis e ONGs de pacientes, representantes da Casa Civil e legislativa, para juntos encontrarmos um caminho único a ser trilhado.
Os temas abordados no evento serão Câncer de Mama, Câncer de Cólon, Tubo Digestivo, Câncer de Pulmão, Hematologia Oncológica, Radioterapia. Entre os critérios para a seleção dos temas, destaque para Tumores mais freqüentes no Brasil, Tumores com maior índice de mortalidade,
Áreas onde existem novos estudos e tratamentos.
No caso do câncer de mama, as maiores controvérsias atuais a serem debatidas no evento serão o Tratamento Sistêmico Hormonioterápico, com os resultados dos estudos com os inibidores da aromatase, papel atual do tamoxifeno, o uso das novas terapias, quando integrá-las, como transportar os resultados de trabalhos muito animadores para a prática do dia-a-dia. Outras grandes controvérsias que merecerão destaque no evento serão Terapia Adjuvante/Neo-Adjuvante no Câncer de Pulmão, Timing da introdução de novos compostos.
Entre as novidades terapêuticas, o congresso destacará Moléculas Antiangiogênicas, tratamentos combinados com moléculas-alvo e resultados de trabalhos randomizados. As novidades diagnósticas serão Pet Scan, Ressonância/mama e Novas técnicas de radioterapia.
Teremos como diferencial em relação às outras versões do evento a presença de médicos franceses. Momentaneamente temos 360 médicos inscritos vindos da França que participarão do curso “Femme et Cancer”, que acontecerá de 22 a 25 de novembro, com 48 professores confirmados. O nosso III Congresso Franco-Brasileiro inicia-se no dia 25, portanto em conjunto com o Curso. Essa integração é inédita e mostra que os nossos esforços para aumentar o intercâmbio França-Brasil não têm sido em vão.
A nossa expectativa em relação ao público é bem otimista, pois temos desde oncologistas clínicos de renome, radioterapeutas e cirurgiões a pesquisadores de base, cientistas que já estão inscritos e com trabalhos importantes.
O evento trará também para discussão no seio da comunidade médica as pacientes, pois teremos o Fórum “Mulher e Câncer” com a participação da sociedade civil, dos secretários de Saúde Municipal e Estadual, do Conselho da Mulher, dos presidentes de Sociedades como a Brasileira de Oncologia Clínica, a de Cancerologia e a de Mastologia, da FIRJAN, das associações de pacientes (AMUCC, Realizar, Instituto da Mama), para tentar mudar a situação de mortalidade no país, aumentando as ações de prevenção.
Tudo isso será finalizado com chave de ouro com a peça “Mulher”, no próprio Hotel Meridien.
A nossa expectativa pós-evento sem dúvida será uma mudança da nossa sociedade médica, com os laços bem mais estreitados com a França, sociedade civil, com ações efetivas de prevenção, com projetos a curto, médio e longo prazo.
Essa foi a forma que nós, representantes da Sociedade Franco-Brasileira de Oncologia, encontramos para dar nossa parcela de contribuição para a mudança do atual quadro no Brasil, que acreditem, pode ter solução, que depende de todos nós.
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