Eletronterapia Intra-Operatória no Carcinoma Inicial
de Mama: Padronização de Técnica
Adaptada à Realidade Brasileira


Prof. Dr. Alfredo Carlos S. D. Barros1 - Dr. Felipe Eduardo Andrade1
Dr. Eduardo Martella2 - Dr. Carlos Roberto B. Montenegro2
Edílson Lopes Pelosi3 - Cecília Kalil Haddad3
1Mastologista do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo.
2Radioterapeuta do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo.
3Físico do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo.



Prof. Dr. Alfredo Carlos S. D. Barros


O tratamento do carcinoma mamário nos seus estádios iniciais sofreu uma profunda modificação a partir da comprovação do acerto da cirurgia conservadora (quadrantectomia) defendida por Veronesi, em 1981(1). Desde então a ressecção segmentar da mama, seguida de radioterapia externa, na dose de 50 Gy na mama e mais 10 Gy de reforço no leito operatório, passou a ser a conduta preferencial para casos de diagnóstico precoce (T até 3 cm) de carcinoma infiltrativo de mama, com enorme benefício para a qualidade de vida, auto-imagem e auto-estima das mulheres.

O único ponto vulnerável do procedimento conservador é a maior possibilidade de recidiva local (RL), a qual ocorre em geral entre 5% e 10% dos casos(2,3) e representa um fator de agravamento prognóstico.(4)

Visando à redução do risco de RL, a radioterapia é considerada obrigatória nas cirurgias conservadoras, e a sua omissão em alguns protocolos de pesquisa levou a incremento das recorrências.(5,6)

No entanto, a radioterapia convencional através de fótons tem de ser administrada fracionadamente para evitar toxicidade local, levando-se em média cinco a seis semanas para completar as aplicações, o que é complicado em termos práticos e logísticos, especialmente para moradoras de outras localidades que procuram um centro de referência em grandes cidades. Além disso, essa técnica obriga a uma criteriosa análise do momento (“timing”) em que a radioterapia deve ser administrada em cada caso, para não interferir com a quimioterapia adjuvante.

RACIONALIDADE DA RADIOTERAPIA
INTRA-OPERATÓRIA NA CIRURGIA CONSERVADORA

O seguimento após ressecção segmentar da mama para tratamento de carcinomas iniciais evidenciou que cerca de 90% dos casos de RL ocorrem no mesmo quadrante do tumor primário e surgem nos primeiros anos de acompanhamento, sendo produto de tumores residuais.(6-9)

Os outros casos de RL “a priori” podem ser considerados como segundos tumores primários. Ou seja, a radioterapia da mama inteira não deve ser necessária, e a irradiação de tecidos considerados sãos, da mama homolateral ou inclusive da oposta por contaminação, pode, teoricamente, ser até um fator favorecedor da indução de novos cânceres, devido a possível dano genético. A radioterapia definitivamente não pode ser empregada como técnica de prevenção primária de câncer em tecido são, porque além de não atuar terapeuticamente, pode apresentar, ao contrário, ação indutora de carcinogênese.

O mais importante fator de risco para RL pós-quadrantectomia, dissecção axilar e radioterapia (QUART) é o comprometimento microscópico das margens da ressecção, que chega a duplicar a sua chance.(10,11) Por isso, foram introduzidas técnicas de avaliação intra-operatória das margens cirúrgicas(12,13) que permitem mais segurança nas cirurgias conservadoras, tornando até menos importante a radioterapia complementar nestes casos. A propósito, em seguimento de 20 anos, Veronesi e col.3 verificaram que o risco relativo para RL eleva-se apenas para 1,1 quando as margens cirúrgicas estiverem livres e a radioterapia for omitida.

Considerando-se todos estes fatos, existe base racional para a radioterapia localizada só na área adjacente ao tumor primário. E o procedimento intra-operatório, em dose única, passou a ser aventado quando se estabeleceu o cálculo de equivalência de doses, entre a dose total fracionada e a dose única diretamente no tecido.

Com base em princípios de radiobiologia (modelo linear quadrático de curva de sobrevida celular e modelo de impactos múltiplos) foi estimado que uma dose única de 20-22 Gy diretamente nos tecidos é equivalente a 60 Gy divididos em 30 frações de 2 Gy cada, em técnicas tangentes à mama, podendo a técnica intra-operatória ser administrada através de feixes de elétrons emitidos por aceleradores lineares ou de braquiterapia parcial da mama através de um sistema de implantes de irídio.(14-16) Os quadros 1 e 2 sumarizam dados que justificam a radioterapia intra-operatória em termos de racionalidade e vantagens.

A EXPERIÊNCIA DO INSTITUTO EUROPEU DE ONCOLOGIA
COM RADIOTERAPIA INTRA-OPERATÓRIA

O Instituto Europeu de Oncologia em Milão foi o primeiro centro a utilizar a eletronterapia intra-operatória para o câncer de mama. Neste serviço, o feixe de elétrons é administrado através de um aparelho dedicado, um acelerador linear de dimensões reduzidas, móvel, com braço mecânico robotizado que facilita a colocação do colimador na área desejada.(17) A aplicação é feita em uma sala do bloco cirúrgico geral, especialmente blindada contra vazamento de radiação.

Como experiência fase 1 foram testados diferentes níveis de dose e aprovada a radiação em dose única de 21 Gy sem efeitos tóxicos importantes, com apenas 10% de reações locais leves, como vermelhidão, edema, dor ou infecção.(14)

Em estudo fase 2, em 237 casos, com follow-up média de 19 meses, foram verificados quatro (1,4%) cânceres de mama ipsilaterais (Recorrência? Segundo tumor?).(17)

No final do ano 2000 foi iniciado um “clinical trial” (fase 3) com pacientes acima de 48 anos, tumores unifocais medindo até 2,5 cm, axila livre clinicamente e livre pelo exame do linfonodo sentinela, tratadas através de quadrantectomia, comparando a eletronterapia intra-operatória com a radioterapia externa convencional. Esse estudo ainda está em andamento, mas seus resultados preliminares são entusiasmadores, com menos RL no grupo de RT intra-operatória e com excelente tolerância ao tratamento.(18)

APRESENTAÇÃO DE TÉCNICA ADAPTADA À
REALIDADE BRASILEIRA

Aparelhagem e Sala de Cirurgia
A maior dificuldade para a reprodução da técnica empregada em Milão é a indisponibilidade do módulo de radioterapia portátil, que é extremamente caro.

Sendo assim, procuramos no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, realizar as cirurgias dentro da própria área do Serviço de Radioterapia. Operamos em uma sala cirúrgica contígua à sala do acelerador linear, com transferência da paciente anestesiada no momento da radioterapia, ou inclusive na mesma sala de aplicação de radioterapia, o que tem sido mais prático.

Para evitar o movimento de pessoas estranhas realizamos o procedimento em horário que o Serviço não está sendo utilizado para a rotina, aos sábados ou durante a semana, no final da tarde.

A sala empregada recebe previamente um processo de desinfecção completa (limpeza terminal), seguida de interdição. A limpeza terminal é feita com cloro orgânico a 0,5% associado a detergente e limpeza do mobiliário com álcool a 70%, exceto a mesa acrílica do acelerador, que deve ser limpa com detergente não-iônico e depois protegida com campo estéril impermeável, para evitar contaminação.

Adota-se todo o cuidado padronizado para prevenção de infecções, como em centro cirúrgico tradicional, com restrição de entrada de pessoal, uso obrigatório de gorro, máscara, propés e roupa cirúrgica para circulantes, e avental e luvas cirúrgicas devidamente esterilizados para a equipe cirúrgica. Uma equipe de enfermagem treinada acompanha os procedimentos.

A sala de radioterapia está equipada com os recursos necessários para uma anestesia segura, como aparelho de ventilação, gases canalizados, monitor cardíaco, oxímetro e capnógrafo. Além disso, um sistema de filmagem e transmissão direta de imagem permite que durante os minutos de administração da radiação, em que só a paciente permanece na sala, o anestesista monitorize em ambiente ao lado os dados vitais da paciente e controle a anestesia.

A radioterapia intra-operatória é executada por meio de feixes de elétrons gerados em aceleradores lineares, com energias de maior uso prático entre 6 e 12 MeV. A principal vantagem de usar feixe de elétrons é a característica da curva de porcentagem de dose profunda. Ela permanece uniforme e cai rapidamente com a profundidade, isto é, tem uma região de platô e uma queda brusca conforme aumenta a profundidade. O tempo de administração de radioterapia varia de caso para caso, sendo em média de sete minutos.

As curvas de isodose variam com energia, tamanho de campo, profundidade e são específicas para cada equipamento devido a diferentes sistemas de colimação.

Existe no feixe de elétrons a chamada contaminação de raios X, proveniente de interações por elétrons nos colimadores e no tecido. Na curva de dose profunda a porcentagem relativa à dose máxima desta contaminação é da ordem de 1% a 4%, dependendo da energia e é determinada quando a curva se estabiliza paralelamente ao eixo das abscissas.

A distribuição da dose dos feixes de elétrons pode ser alterada devido à presença de heterogeneidades, tais como osso, pulmão, cavidades de ar. No tratamento de mama por eletronterapia intra-operatória é utilizado um disco de chumbo, para proteção do gradeado costal e pulmão, que altera a distribuição da dose do feixe, principalmente com os elétrons retroespalhados; esse efeito é minimizado utilizando-se alumínio e praticamente eliminado quando se emprega uma camada de silicone, ficando assim um bloco com três materiais com número atômico crescente: silicone, alumínio e chumbo.

O serviço de Física participa da equipe multidisciplinar envolvida no tratamento nos seguintes aspectos:
- Dosimetria inicial: (seis energias para cada um dos sete cones).
- Calibração dos feixes.
- Medidas de perfil de feixe.
- Medidas de dose profunda.
- Controle da qualidade do equipamento e dos acessórios.
- Cálculo da dose monitor a ser aplicada em cada tratamento.
- Estudos de radiobiologia.

Seleção de Pacientes
Temos oferecido a radioterapia operatória como projeto de pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética, com assinatura de consentimento pós-informação, para casos de carcinoma ductal infiltrativo de mama menores do que 3 cm, NO e pNO (LS), em pacientes com mais de 40 anos, sem comprometimento de pele, sem componente intraductal extenso, com lesão imagenológica circunscrita pela mamografia, ultra-sonografía e ressonância magnética e com comprovação de margens cirúrgicas livres durante a cirurgia.

Técnica Cirúrgica
1. Quadrantectomia clássica mediante incisão preferencialmente circular, com remoção de pele e monitorização de margens cirúrgicas.

2. Biópsia radioguiada de linfonodo sentinela.

3. Na área de incisão mamária é feito um descolamento de pele ao nível do tecido celular subcutâneo, de aproximadamente 3 cm de cada lado.

4. Na superfície posterior da área a ser irradiada coloca-se um disco triplo, de silicone, alumínio e chumbo, para proteção profunda (figura 1). O diâmetro deste disco deve ser 2-3 cm superior ao diâmetro do cone colimador dos feixes. Preparamos um conjunto especial em que os discos vêm acoplados (alumínio anteriormente e chumbo posteriormente) com lâmina de silicone superficialmente, com perfurações que proporcionam a fixação do disco ao músculo peitoral maior por pontos de sutura, para que o mesmo não deslize e saia do lugar durante o procedimento (figura 2).



Fig. 1. Disco de chumbo e alumínio, revestido por silicone.


Fig. 2. Introdução do disco protetor sobre o músculo peitoral maior.


5. Aproximação do tecido a ser irradiado na frente do disco, por meio de pontos separados (figura 3).



Fig. 3. Aproximação do parênquima a ser irradiado na frente do disco.


6. Usando-se uma agulha e régua mede-se em milímetros a espessura do parênquima que vai ser irradiado. Introduz-se a agulha na superfície anterior penetrando-a até o disco colocado posteriormente, marca-se a extensão da agulha e mede-se em régua. Essa mensuração é importante para cálculo da profundidade da dose (figura 4).



Fig. 4. Mensuração com agulha da espessura do tecido a ser irradiado.


7. Afastamento de pele e introdução do colimador (figuras 5 e 6).



Fig. 5. Introdução do cone colimador.


Fig. 6. Preparação final para a eletronterapia intra-operatória.


8. Realização de radiografia para confirmar a posição do colimador em relação ao disco, isto é, assegurar que não existe possibilidade de parte do feixe de elétrons atingir a parede torácica (figura 7).



Fig. 7. Radiografia para confirmação do ajuste do cone sobre o disco.


9. Após os minutos de aplicação da radioterapia é desfeita a sutura do parênquima e retirado o disco.

10. Fechamento da ferida operatória segundo costume, após hemostasia e drenagem.




REFERÊNCIAS

1. Veronesi U, Saccozzi R, Del Vecchio M, Banfi A, Clemente C, De Lena M et al. Comparing radical mastectomy with quadrantectomy, axillary dissection, and radiotherapy in patients with small cancers of the breast. N Engl J Med 1981;305(1):6-11.
2. Fisher B, Anderson S, Bryant J et al. Twenty year follow up of a randomized trial comparing total mastectomy, lumpectomy and lumpectomy plus irradiation for the treatment of invasive breast cancer. N Engl J Med 2002;347(16):1233-1241.
3. Veronesi U, Cascinelli N, Marian L et al. Twenty year follow up of a randomized study comparing breast conserving with radical mastectomy for early breast cancer. N Engl J Med 2002;347(16):1227-1232.
4. Barros ACSD, Teixeira LC, Nisida AC, Pinotti M, Pinotti JA. Prognostic effects of local recurrence after conservative treatment of early infiltrating breast carcinoma. Tumori 2002;88:377-379.
5. Fisher B, Anderson S, Redmond CK et al. Reanalysis and results after 12 years of follow-up in a randomized trial comparing total mastectomy with lumpectomy with or without irradiation in the treatment of breast cancer. N Engl J Med 1995;333:1456-1461.
6. Holli K, Saaristo R, Isola J, Joensuu H, Hakama M. Lumpectomy with or without postoperative radiotherapy for breast cancer with favourable prognostic features: results of a randomized trial. Br J Cancer 2001;84:164-169.
7. Clark RM, Wilkinson, RH, Mahoney LJ et al. Breast cancer: a 21 year experience with conservative surgery and radiation. Int J Radiat Oncol Biol Phys 1982;8:976-979.
8. Schnitt SJ, Conolly JL, Harris JR et al. Pathologic predictors of early recurrence in stage I and II breast cancer treated by primary radiation therapy. Cancer 1984;53:1049-1957.
9. Veronesi U, Luini A, Del Vecchio M et al. Radiotherapy after breast-preserving surgery in women with localized cancer of the breast. N Engl J Med 1993;328:1587-1591.
10. DiBiase SJ, Komarnicky LT, Schwartz Gf et al. The number of positive margins influences the outcome of women treated with breast preservation for early stage breast carcinoma. Cancer 1998;82:2212-2220.
11. Fowble B. The significance of resection margin
status in patients with early-stage invasive cancer treated with breast-conservation therapy. Breast J 1998;4:126-31.
12. Cox CE, Pendas S, Ku NNK et al. Local recurrence of breast cancer after cytological evaluation of lumpectomy margins. Am Surg 1998;64:533-538.
13. Barros ACSD, Pinotti M, Ricci MD et al. Immediate effects of intraoperative evaluation of surgical margins over the treatment of early infiltrating breast carcinoma. Tumori 2003;89:42-45.
14. Veronesi U, Orecchia R, Luini A et al. A preliminary report of intraoperative radiotherapy (IORT) in limited stage breast cancers that are conservatively treated. Eur J Cancer 2001;37:2178-2183.
15. Veronesi U, Gatti G, Luini A et al. Intraoperative radiation therapy for breast cancer: technical notes. Breast J 2003;9:106-112.
16. Pawlik T, Bu Chholz TA, Kuerer HM. The biologic rationale for and emerging role of accelerated partial breast irradiation for breast cancer. J Am Call Surg 2004; 199:479-492
17. Veronesi U. Garri G, Luini A, et al. Full dose intraoperative radiotherapy with electrons during breast-conserving surgery. Arch Surg 2003; 138:1253-1256.
18. Orechia R, Ciocca M, Lazzari R, et al. Intra-operative radiotherapy with electrons (ELIOT) to the breast. Breast 2003; 12:S10
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