
Drs. Carlos E. Starling (à esq.), Marcelo Simão Ferreira,
João Silva de Mendonça, Antonio Carlos Toledo e
Marco Antonio Vitória |
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O 1º Congresso Mineiro de Infectologia, realizado de 4 a 6 de novembro em Belo Horizonte, Minas Gerais, reuniu renomados profissionais da infectologia brasileira e representantes de importantes sociedades médicas. Temas variados fizeram parte da programação científica do evento, tais como o controle de infecções hospitalares, doenças endêmicas e infecção pelo HIV, febres hemorrágicas, imunizações em adultos, bactérias multirresistentes, prática profissional atual do infectologista, doenças infecto-parasitárias, aids: passado, presente e futuro e tratamento de hepatites virais. O principal enfoque foi dado a três grandes temas atuais da infectologia: infectologia hospitalar, HIV/aids e hepatites virais.
Segundo o presidente do evento, Dr. Antonio Carlos de Castro Toledo Jr., uma das razões para a realização deste 1º Congresso Mineiro foi a comemoração dos mais de 20 anos da fundação da Sociedade Mineira de Infectologia. “Em Minas Gerais, existem seis residências médicas em infectologia e três cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado. Com esta projeção da infectologia no Estado e a comemoração dos 20 anos de fundação da Sociedade Mineira de Infectologia, a Diretoria da Sociedade Mineira de Infectologia resolveu promover o 1º Congresso Mineiro de Infectologia”, conta Dr. Toledo.
Além dos infectologistas, estiveram presentes ao evento profissionais de outras especialidades médicas. “Nosso principal objetivo foi promover atualização, não só aos infectologistas, mas também a outras especialidades. A infectologia tem a característica de ser uma especialidade com áreas de atuação muito amplas. Cerca de 20% dos participantes do congresso eram de outras áreas, tais como clínicos gerais, médicos do Programa de Saúde da Família e hepatologistas, além de outros profissionais de saúde, como enfermeiros, farmacêuticos e assistentes sociais. Este é um evento científico de atualização e troca de experiências entre diferentes especialidades e sociedades que estão envolvidas na assistência ao paciente portador de doença infecciosa”, ressalta o médico.
Um apoio que contribuiu para a realização do congresso foi o da Sociedade Brasileira de Infectologia. “A Sociedade Brasileira de Infectologia vê com muito bons olhos a realização de congressos regionais, especialmente porque permitem a participação de colegas que não tenham condições, por diversas razões, de comparecer aos congressos nacionais”, diz Dr. João Silva de Mendonça, Presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia e Diretor do Serviço de Moléstias Infecciosas do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo.
Entre os destaques do evento, Dr. Mendonça ressaltou a mesa-redonda sobre co-infecção entre HIV/aids e doenças endêmicas. “Foi abordada a co-infecção HIV/aids na qual foram destacadas doença de Chagas, leishmaniose, infecções fúngicas e parasitoses intestinais, ou seja, doenças endêmicas que ainda são freqüentes no Brasil e que acometem pacientes portadores de HIV/aids”.
O mestre pela USP de Ribeirão Preto, Dr. Aércio Sebastião Borges, participou da mesa referida pelo Dr. João Mendonça e comentou as apresentações. “A mesa Doenças Endêmicas e a Infecção pelo HIV foi de extrema importância, sendo abordadas a apresentação clínica e as dificuldades diagnósticas e terapêuticas das principais doenças endêmicas associadas à aids no nosso meio. Na palestra sobre a doença de Chagas vimos suas formas de reativação e a resposta muito ruim ao tratamento; quanto à leishmaniose, destacou-se a prevalência da co-infecção e o empenho nas medidas de controle. Também discutimos as parasitoses intestinais associadas à infecção pelo HIV, a grande variedade de agentes envolvidos e as dificuldades em se estabelecer o diagnóstico etiológico na prática clínica. Em minha apresentação, mostrei a nossa casuística, no serviço de infectologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia, e a alta freqüência com que encontrarmos pacientes portadores de aids e infecções fúngicas. Nestes pacientes, a apresentação clínica é completamente diferente, mais agressiva e por isso é fundamental que se faça o diagnóstico precocemente, para obtermos um bom resultado com o tratamento. Em relação à terapêutica destas micoses, as opções são basicamente as mesmas utilizadas em pacientes não infectados pelo HIV, porém a resposta pode ser diferente. O paciente HIV positivo, além de apresentar a doença de forma muito mais grave e disseminada, não tem uma resposta imune adequada para auxiliar o tratamento”, detalha Dr. Aércio.
Durante a mesa febres hemorrágicas, o Professor Titular de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Universidade Federal de Uberlândia/MG, Dr. Marcelo Ferreira Simão, falou sobre o hantavírus. “Esta mesa expôs problemas que fazem parte de nossa realidade, como a dengue, a febre amarela e as hantaviroses. A hantavirose é atualmente uma das doenças emergentes mais importantes. Trata-se de uma patologia que em países como Brasil, Chile, Paraguai, Uruguai e Argentina tem alta taxa de mortalidade, podendo chegar a 40% a 50%. Desde que o vírus da doença foi descoberto em 1993, nos últimos anos têm sido descritos cerca de 60 a 90 novos casos por ano no Brasil, o que evidentemente não reflete nossa realidade, pois pode haver mais casos não diagnosticados. É uma doença transmitida por roedores que produz uma pneumonia muito grave que pode levar a um edema pulmonar e à morte.”

Dr. Marcelo Ferreira Simão |
Já foi definida a realização do 2º Congresso Mineiro de Infectologia na cidade de Uberlândia, MG. A segunda versão do evento será presidida pelo Prof. Dr. Marcelo Simão Ferreira. “A proposta é que esse evento aconteça de dois em dois anos nas cidades do interior de Minas Gerais, onde temos importantes faculdades de medicina”, adianta Dr. Toledo.
SIMPÓSIOS-SATÉLITES
Dois simpósios-satélites fizeram parte da programação do 1º Congresso Mineiro de Infectologia, um da Bristol-Myers Squibb e outro da Schering-Plough.
O simpósio da Bristol-Myers Squibb, “Novo inibidor de protease na terapia anti-retroviral”, contou com a participação dos Profs. Drs. Marcelo Simão Ferreira, João Silva de Mendonça e Unaí Tupinambás e do coordenador Prof. Dr. Antonio Carlos Toledo. Os temas abordados foram, respectivamente, o papel do atazanavir na terapia anti-retroviral, atazanavir e perfil lipídico e mecanismos de resistência ao atazanavir. “O simpósio foi muito feliz porque destacou em primeiro lugar os resultados favoráveis dos ensaios terapêuticos que autorizaram a comercialização do atazanavir. Em segundo lugar, mostrou que este inibidor de protease tem ação vantajosa no sentido de não ocasionar os mesmos efeitos sobre os lípides sangüíneos presentes na maioria dos outros inibidores de protease. Além disso, foi colocada em discussão a resistência, mostrando que nos pacientes que nunca utilizaram terapêutica anti-retroviral o perfil de resistência não segue as mesmas regras dos outros inibidores de protease. Nas investigações pré-comercialização do atazanavir, um estudo comparou o produto com um não-inibidor de protease, o efavirenz, e outros dois trabalhos compararam com os inibidores de protease, o nelfinavir, lopinavir e ritonavir. Os dados permitem observarmos exatamente como o atazanavir se comporta em relação aos lípides e constatou-se que ele tem um comportamento mais favorável, pois as alterações lipídicas são poucas ou inexistentes se comparadas com o que sucede com outros medicamentos”, destaca Dr. João Mendonça.
O Dr. Unaí Tupinambás, mestre e doutor em Medicina Tropical pela Faculdade de Medicina da UFMG e médico assessor da Rede Nacional de Genotipagem do Ministério da Saúde, também comentou o simpósio. “Temos que pensar na possibilidade de um resgate terapêutico diante de uma falha terapêutica e estudos mostram que a mutação gerada diante do atazanavir felizmente não gera resistência cruzada. Sendo assim, poderíamos fazer o resgate terapêutico. O mais importante em terapia anti-retroviral é a utilização correta do medicamento por parte do paciente. Sabemos que os anti-retrovirais têm o mesmo nível de eficácia, são similares, mas ainda temos muito abandono de tratamento devido aos efeitos colaterais. Temos que alertar e orientar os pacientes sobre esta questão, porque o uso correto dos medicamentos evita a falha terapêutica.”

Dr. Fernando Ruiz |
No último dia do evento foi realizado também o simpósio da Schering-Plough, que teve a participação dos Drs. Fernando Ruiz e Fernando Gonçales. O Dr. Fernando Gonçales debateu sobre o tratamento atual da hepatite C, com ênfase para o novo protocol Ideal, da Schering-Plough, que vai comparar os dois interferons peguilados. O simpósio destacou um estudo epidemiológico de prevalência de pacientes com hepatite C, pólos de aplicação do interferon peguilado e a experiência dos palestrantes com a droga. “Criamos a partir de uma política da Secretaria Estadual de Saúde um pólo de aplicação de interferon peguilado no Conjunto Hospitalar de Sorocaba há aproximadamente dois anos. É um tratamento feito em dose fracionada por quilo de peso, de modo que uma ampola pode ser utilizada por mais de um paciente. Em termos de saúde pública isso é extremamente importante, pois temos que levar em consideração o fator econômico e existe um benefício muito grande no sentido de compartilhar a dose, pois barateia o tratamento. Na pesquisa de satisfação houve aprovação de mais de 95% por parte de usuários e pessoal de enfermagem. Apresentei também uma pesquisa de satisfação dos usuários desses pólos de aplicação compartilhada para termos uma idéia de como o paciente vê esse tratamento”, relata Dr. Ruiz.