Congresso Interdisciplinar de Dor
da Universidade de São Paulo


Entrevista com a Dra. Lin Tchia Yeng
Diretora Técnica da Divisão de Medicina Física do Instituto de Ortopedia e Traumatologia e Responsávelpela Reabilitação do Centro de Dor do Hospital das Clínicas.


Por Flávia Lo Bello



Dra. Lin Tchia Yeng


Com o tema “Novas Aquisições e Perspectivas Futuras”, será realizado no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, SP, de 12 a 14 de maio, o Cindor USP 2005 - Congresso Interdisciplinar de Dor da Universidade de São Paulo, em que serão apresentados os avanços e perspectivas futuras na prevenção, diagnóstico e tratamento de dores crônicas e agudas. O evento é uma realização dos profissionais do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP que integram o Centro de Dor e a Divisão de Medicina Física do Instituto de Ortopedia e Traumatologia.

Uso da toxina botulínica na dor e na cefaléia; dor em idosos; dor orofacial; alívio da dor e qualidade de vida; atividade física em pacientes com dor crônica; fibromialgia; LER/DORT; lombalgias e técnicas especiais de acupuntura são alguns dos temas que serão abordados no evento. Além das conferências, também ocorrerão simpósios, entre os quais o de Saúde Mental, de Afecções Relacionadas ao Trabalho, da Sociedade Brasileira de Medicina Física e Reabilitação e, ainda, o Simpósio da Sociedade Médica de Acupuntura de São Paulo. Paralelamente ao Congresso, acontecerá a Expo Arte-Dor 2005, na qual serão expostas obras de arte produzidas por pessoas com dor crônica.

A diretora técnica da Divisão de Medicina Física do Instituto de Ortopedia e Traumatologia e responsável pela reabilitação do Centro de Dor do Hospital das Clínicas, Dra. Lin Tchia Yeng, concedeu uma entrevista à Prática Hospitalar e relata com mais detalhes como será a segunda edição do evento.

Prática Hospitalar - Quais serão os principais destaques do Cindor USP 2005?
Dra. Lin Tchia Yeng -Vários são os destaques do Cindor 2005. Entre eles, a apresentação de levantamento sobre procedimentos analgésicos baseados em evidências, críticas aos modelos das intervenções, críticas dos métodos de investigação, estado atual, perspectivas futuras e resgate de procedimentos no tratamento do doente com dor, avaliação funcional, laboratorial e clínica de doentes com dor, avanços na técnica de anestesia no tratamento da dor, avaliação e procedimentos na área de saúde mental no doente com dor, avaliações epidemiológicas e críticas aos modelos de levantamento de dados epidemiológicos, medicina alternativa no tratamento da dor, uso de avanços na área de medicação transcutânea e pós no tratamento da dor.

P. H. - Qual o público-alvo do evento?
Dra. Lin - O público-alvo do evento são os profissionais da área de saúde, incluindo médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, políticos de saúde, alunos das escolas ligadas a temas de interesse em saúde e as pessoas que poderão visitar a Expo Arte-Dor 2005. Durante o Congresso será comemorado o 25º ano do Centro de Dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em que será apresentada uma retrospectiva histórica da sua exploração, do seu desenvolvimento, do estado atual e das perspectivas futuras.

P. H. - O que será abordado quanto às novidades terapêuticas?
Dra. Lin - Durante o evento serão apresentadas novas tendências referentes aos doentes com dor, incluindo os avanços que ocorreram no desenvolvimento de novos fármacos analgésicos antiinflamatórios hormonais, avanços nas áreas dos psicotrópicos, dos neurolépticos, dos anticonvulsivantes, movimentos de novos métodos de liberação de agentes farmacológicos, dos novos conceitos a respeito de técnicas psicoeducativas e de reabilitação nos doentes com dor e os avanços na área de neuroestimulação do córtex cerebral. Dentre estas técnicas, reforçar-se-ão avanços no esclarecimento sobre o uso de toxina botulínica e de estimulação magnética transcraniana e estimulação do córtex cerebral no tratamento da dor.

P. H. - Que enfoque será dado em relação à dor do paciente oncológico?
Dra. Lin - Quanto ao tratamento do paciente com dor por câncer, atenção especial será destinada aos avanços observados na área dos inibidores de reabsorção óssea, das técnicas de tratamento da dor com uso de radioisótopos, métodos de reabilitação física localizados especialmente para o tratamento do paciente com doença oncológica avançada, da apresentação de resultados de novos ensaios com o uso de novos fármacos e novos métodos de reabilitação e neuroestimulação. Além disso, resultados e pesquisas com o uso de venenos de animais peçonhentos, medicamentos analgésicos surgindo de plantas e uso de bloqueios anestésicos serão ressaltados.

P. H. - Quais serão os assuntos direcionados aos ortopedistas?
Dra. Lin -As afecções musculoesqueléticas relacionadas ao trabalho (AMERT) – LER/DORT, e também os sintomas pós-cirúrgicos nos pacientes com problemas de coluna.

P. H. - Qual a situação atual do Brasil no tratamento da dor e como analisa a evolução do país nesta especialidade ao longo dos últimos anos?
Dra. Lin - Estamos, por meio de ações na comunidade científica, universidades, centros, sociedades regionais e de especialidades, Sociedade Brasileira de Neurologia, Dor, Reumatologia, entres outros, alertando a população a procurar sempre os profissionais dessas áreas. No Brasil não há formação universitária em dor. A educação é falha nesse ponto. A dor é a primeira causa de afastamento do trabalho, por isso é fundamental o profissional saber reconhecer e tratar o problema.

A situação melhorou bastante em termos de evolução com as criações das Ligas de Dor da Faculdade de Medicina e Enfermagem da USP - Hospital das Clínicas, e também a dor está se tornando uma disciplina optativa no curso. O lançamento de livros, revistas e tudo o que é publicado na imprensa ajudam a obter maior conhecimento sobre o assunto, por parte de médicos e dos próprios pacientes.

P. H. - A preocupação do especialista brasileiro quanto à dor de seu paciente é tão grande quanto a dos especialistas norte-americanos ou mesmo europeus? No Brasil, pode-se dizer que a dor é considerada o 5° sinal vital?
Dra. Lin - A preocupação ainda não é a mesma, mas estamos conscientizando os profissionais brasileiros a terem esse pensamento de preocupação com os seus pacientes, assim como os próprios pacientes. Quanto à dor ser considerada o 5º sinal vital, está se tentando criar esse tipo de conceito. Há a necessidade de uma campanha de conscientização em relação a esse aspecto.

P. H. - Quais as tendências futuras em relação ao tratamento da dor no Brasil?
Dra. Lin -Menos invasão, exames que possam comprovar alterações funcionais do sistema nervoso e ajudando a entender melhor como funcionam os procedimentos. Há também a ênfase em medicamentos tópicos com menores efeitos colaterais. Além disso, há o incentivo da implantação de técnicas cognitivas comportamentais que possam mudar o pensamento do paciente (de não ficar parado e enfrentar a dor de uma maneira ativa).