Novas Tendências no Tratamento do Câncer foram Destaques da
III Conferência Nacional de Câncer



Por Luciana Rodriguez


Dr. Roberto de Almeida Gil (à esq.), Dr. André A. Jr. G. de Moraes,
Dra. Lucilda Cerqueira de Lima, Dr. Fernando Medina da Cunha, Dr. José Carlos do Valle,
Dr. Sebastião Cabral eDr. Gilberto Luis Santos Salgado


Em mais uma edição da Conferência Nacional de Câncer (CNC), importantes representantes da oncologia brasileira e internacional estiveram reunidos e puderam compartilhar experiências e adquirir novos conhecimentos. Realizada pelo terceiro ano consecutivo, entre os dias 18 e 20 de novembro último, em Campinas, a Conferência foi marcada pela interação com a Philadelphia International Medicine (PIM) e pela presença de renomados especialistas estrangeiros, alguns deles através de videoconferências.

A III CNC promoveu uma ampla discussão sobre sarcoma de partes moles, neurooncologia, tumores de cabeça e pescoço, linfomas, tratamento suportivo e cânceres de mama, próstata, pulmão e gastrointestinais. “Em relação à neurooncologia foram abordados grandes avanços, inclusive a possibilidade de cirurgias guiadas por neuronavegação. A neurocirurgia tem evoluído muito nos últimos anos no Brasil e por esta razão houve um importante debate sobre quando, como e quais os benefícios da indicação da radiocirurgia, uma nova técnica da radioterapia que em muitas situações tem substituído com vantagens as cirurgias convencionais. Essa técnica consiste na aplicação de doses elevadas centradas no tumor por planejamentos computadorizados tridimensionais de alta precisão, poupando todo o tecido neurológico normal em torno do alvo e destruindo a lesão. É uma técnica que está sendo desenvolvida desde a década de 50, mas nos últimos anos, com os métodos de imagens mais sofisticados e com os programas de computação, que permitem a fusão dessas imagens, têm sido alcançados grandes resultados”, conta a radioterapeuta do Centro de Oncologia Campinas, Dra. Ludmila Siqueira.


Dra. Ludmila Siqueira


Diversas conferências sobre câncer de mama aconteceram ao longo dos três dias da CNC. Segundo o oncologista clínico do Centro de Oncologia Campinas, Limeira e Instituto de Oncologia de Piracicaba e presidente do Centro de Estudos e Pesquisas Oncológicas de Campinas, CEPOC, Dr. Fernando Medina da Cunha, um dos pontos ápices do evento foi a mesa sobre Câncer de Mama, que debateu sobre a Herceptina - quando parar? A última palestra dessa mesa foi proferida pelo Dr. Keven Fox, da University of Pennsylvania Medical Center, EUA, que finalizou com o tema Onde estamos na adjuvância de câncer de mama, trazendo importantes dados sobre a quimioterapia adjuvante. O chefe do Serviço de Oncologia Clínica da Santa Casa de Belo Horizonte e presidente do Simpósio Mineiro de Oncologia, Dr. Sebastião Cabral, também ressaltou a importância da escolha do tema herceptina. “Hoje temos muitas dúvidas sobre quando parar com esta droga e para nós brasileiros não está bem estabelecido quando utilizar a herceptina, além de nos deparamos com o problema de disponibilização da droga através do SUS ou convênios”, afirma Dr. Cabral.

Dr. Keven Fox colocou em discussão todas as possibilidades de bloqueios hormonais, inclusive combinações. Na verdade, ainda hoje existem grandes estudos prospectivos em andamento avaliando a hormonioterapia prolongada na adjuvância. Outra questão colocada pelo especialista foi o uso de taxanos, que são drogas bastante utilizadas, mas que em relação à doença avançada estão aparecendo os primeiros resultados sugerindo que pode ser benéfica na adjuvância. Neste aspecto, os especialistas europeus são muito mais conservadores. A Dra. Rosalba Torrisi, do Instituto Europeu de Milão, destacou que seu grupo de trabalho não tem indicado o uso adjuvante de taxanos, pois estão sendo aguardados novos resultados de um estudo. “Foi uma polêmica interessante, com pontos de vista diferentes, da qual tivemos resultados muito positivos”, completa Dra. Ludmila.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO

Com o tema Novas Tendências no Tratamento do Câncer, o evento resgatou o que tem sido feito nos últimos anos e apontou tendências futuras. “Há três anos a CNC mostrou uma grande tendência na quimioterapia, inclusive as drogas alvo-dirigidas, e hoje estamos vendo os resultados do que foi apresentado naquela época. Nessa III CNC foi apresentada pela primeira vez uma técnica, criada pelo Dr. Umberto Veronesi do Instituto Europeu de Milão, a chamada radioterapia intra-operatória. O Prof. Fabrício Brenelli fez uma apresentação sobre esta técnica que está em fase de estudo randomizado de 1.200 pacientes que estão em seguimento há cinco anos. Trata-se de uma técnica que possibilita à mulher com tumor inicial de câncer de mama fazer a cirurgia e radioterapia em um único dia, sem internação. Componentes da equipe de radioterapia do COC acompanharam este trabalho em Milão durante seis meses e trouxeram a técnica para o Centro de Oncologia Campinas. “Nossa perspectiva é que esta tecnologia seja amplamente utilizada e que consiga auxiliar o tratamento, especialmente daquelas mulheres que trabalham e moram longe dos centros de tratamento”, relata Dra. Ludmila.

Fizeram parte da programação científica do evento algumas apresentações sobre opções terapêuticas como a do oncologista clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Dr. Sérgio Daniel Simon, que apresentou recentes resultados de estudos clínicos com fulvestranto no tratamento de câncer de mama avançado. “Dois estudos fase III, um americano e outro europeu, mostram que a atividade de fulvestranto é similar à do anastrozol em mulheres com câncer de mama avançado que falharam com hormonioterapia primária com tamoxifeno. Os dois estudos apontam equivalência entre as duas drogas em termos de eficácia. Iniciamos há um ano o tratamento com fulvestranto em 39 pacientes nos quais a taxa de resposta foi bastante alta e os resultados muito bons, com baixíssima toxicidade; inclusive esta é a grande vantagem dessa droga. Fulvestranto bloqueia grande parte das células tumorais e impede seu crescimento e, na prática, temos um grande número de pacientes com doença estável e respostas objetivas”, ressalta Dr. Simon.


Dr. Sérgio Daniel Simon


Outros estudos clínicos foram colocados em discussão durante a conferência. Foram expostas as vantagens e desvantagens de novas drogas, entre as quais foram bastante ressaltados os inibidores da aromatase. “A literatura mundial mostra que praticamente está definido ao mundo inteiro que após cinco anos de tamoxifeno está autorizado o uso de inibidores da aromatase. Muitos trabalhos apontam que quando o uso de tamoxifeno causa muitos efeitos colaterais são indicados inibidores da aromatase, principalmente na pré-menopausa”, afirma Dr. Cabral.

1º SIMPÓSIO COC - PIM

Para o Dr. Medina, a parceria com a Philadelphia International Medicine (PIM), um dos maiores e mais importantes conglomerados de hospitais e universidades dos EUA, possibilitou um maior aprendizado da atividade médica na área do câncer. “Tenho certeza de que foi cumprida a missão da Philadelphia International Medicine junto ao Centro de Oncologia Campinas”, diz Dr. Medina. O 1º Simpósio COC - PIM interagiu profissionais brasileiros e estrangeiros, que compartilharam experiências e falaram sobre suas realidades. A participação de especialistas do Instituto Europeu de Oncologia, Milão, na Itália, elevou ainda mais o nível do evento. “Foi muito importante a participação dos palestrantes internacionais e muito bons os trabalhos apresentados pelos oncologistas brasileiros. Cada um enfrenta uma realidade diferente e obviamente os problemas no momento em que administramos um tratamento não são os mesmos dos americanos e europeus. Por isso precisamos adquirir novos conhecimentos, para criarmos nosso próprio caminho”, conclui o oncologista.