Ênfase no Diagnóstico Precoce e Opções Terapêuticas mais
Conservadoras em Evento Científico
Por Luciana Rodriguez

Dr. Antônio Figueira Filho (à esq.),
Dr. Ézio Novais Dias e Dr. Ruben Orda |
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Realizados de 11 a 14 de novembro, o 13º Congresso Mundial de Mastologia e o 2º Congresso Brasileiro de Oncomastologia reuniram no Centro de Convenções de Pernambuco especialistas de vários países e representantes de diversas comunidades científicas direcionadas ao combate do câncer. Presidido pelo mastologista Prof. Dr. Antônio Figueira Filho, o evento reuniu cerca de 1,5 mil médicos, que apresentaram mais de 200 trabalhos em mesas-redondas, conferências, painéis e simpósios-satélites. “Esta é uma excelente oportunidade para o intercâmbio de conhecimentos, principalmente entre brasileiros e estrangeiros. Foram apresentados resultados obtidos pela Escola Latino-Americana de Mastologia, conferências sobre a formação do mastologista no Brasil e um simpósio do Instituto Europeu de Oncologia”, conta o especialista.
A programação científica do evento englobou recentes avanços no combate ao câncer de mama e novos desafios. Controvérsias no diagnóstico do câncer de mama, hormonioterapia, prevenção e redução do risco do câncer de mama, o papel da ultra-sonografia no diagnóstico e estadiamento do câncer de mama, é hora de se abandonar o tamoxifeno na adjuvância na pós-menopausa? E marcação de linfonodo sentinela axilar com azul patente foram alguns dos temas abordados no primeiro dia do evento. Na seqüência do congresso, outros importantes temas foram palestrados, tais como a formação do mastologista no Brasil, novidades em carcinoma in situ da mama, terapia de reposição hormonal e câncer de mama, evolução no tratamento cirúrgico do câncer de mama passado, presente e futuro, terapia sistêmica neo-adjuvante do câncer de mama e reconstrução mamária.
Ainda durante o 13º Congresso Mundial de Mastologia foi realizado, nos dias 11 e 12 de novembro, o III Encontro Brasileiro de Entidades Filantrópicas em Câncer de Mama. O Encontro colocou em debate empreendimentos filantrópicos e os desafios contemporâneos. Além disso, as políticas públicas e incentivos para a prevenção do câncer de mama foram amplamente discutidos.
A Prática Hospitalar esteve presente no evento e conversou com alguns especialistas sobre suas respectivas apresentações. Confira a seguir o comentário de cada um deles.
TAMOXIFENO X INIBIDORES DE AROMATASE EM ADJUVÂNCIA
“O tamoxifeno é o medicamento mais utilizado na adjuvância, desde que o receptor estrogênico seja significativamente positivo. São necessários, no entanto, critérios e cuidados na administração do tamoxifeno, especialmente para proteger a paciente de eventuais efeitos colaterais. O uso desta droga como adjuvante é reservado principalmente nas fases primárias do câncer de mama, estádios clínicos I e II. Os critérios para utilização do tamoxifeno são indicados através de uma avaliação imunoistoquímica. É importante verificar se há alguma alteração ginecológica significativa, especialmente em relação ao endométrio, antecedente de doença tromboembólica, hepatopatias e retinopatias. Elegendo a paciente de acordo com estes critérios, ela deverá ao longo do uso da medicação ter uma severa vigilância, controlando os alvos de efeitos colaterais do tamoxifeno, ou seja, o aparelho geniturinário, fígado, a mácula retiniana através de avaliação oftalmológica, função hepática e crase sangüínea.
Nas mulheres pré-menopausadas, as quais menstruam normalmente, o uso de tamoxifeno pode acarretar efeitos colaterais verificados no climatério e na menopausa como calores, ressecamento e diminuição da lubrificação vaginal e também tem sido relatado, apesar da pequena incidência, a diminuição da libido. Quanto à ablação ovariana, permanece o questionamento para realização em mulheres jovens, particularmente naquelas que ainda pretendem engravidar. A indicação do tamoxifeno para doença metastática revela-se eficiente, mesmo que a doença metastática não tenha cura e o objetivo é a melhora na qualidade de vida e aumento na sobrevida global.
Os inibidores da aromatase tem sua indicação também após a determinação dos receptores estrogênicos e quando presentes, sua utilização na adjuvância é reservada para as mulheres pré-menopausadas, sendo que os efeitos colaterais dos inibidores da aromatase não abrangem principalmente o aparelho genital feminino.
É importante que os oncologistas e mastologistas tenham ciência das indicações da hormonioterapia com perfeita consciência, sempre controlando os efeitos colaterais seja do tamoxifeno ou dos inibidores de aromatase.”

Dr. Mário Mourão Netto
Diretor do Departamentode Mastologia do Hospital do Câncer A. C. Camargo - SP.
Doutor em Medicina pela FMUSP.
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NOVIDADES EM CARCINOMA IN SITU DA MAMA
“Uma das abordagens da mesa sobre carcinoma in situ foi quanto à classificação no sentido de avaliarmos o prognóstico da paciente em relação a cada subtipo histológico e em relação às condutas a serem adotadas, que diferem em cada caso. A classificação que utilizamos atualmente é de alto grau e baixo grau ou com comedocarcinoma e não-comedocarcinoma, com subdivisões.
Quanto aos fatores de risco para recidiva local, no carcinoma ductal in situ temos tido cada vez mais cirurgias conservadoras e diagnóstico precoce. Sabemos, no entanto, que no carcinoma ductal in situ existem fatores de risco importantes, entre os quais a questão do componente intraductal extenso, por exemplo o de alto grau, tumores que têm potencial muito grande de invasão, ou seja, fatores prognósticos e preditivos muito ruins, de modo que estas pacientes certamente terão uma necessidade maior de serem submetidas a cirurgias mais radicais do que tumores de baixo grau e sem componente intraductal extenso.
A cirurgia tem um papel fundamental. Há alguns anos não falávamos em cirurgias conservadoras, mas hoje estamos cada vez mais realizando cirurgias mais conservadoras e com resultados muito interessantes. Temos condições de fazer um controle local locorregional com estas cirurgias e muitas vezes somente a cirurgia é suficiente para solucionarmos o problema, sem a necessidade de terapias adicionais.
No carcinoma ductal in situ, a técnica para fazer o linfonodo sentinela é bastante fácil, sendo recomendável que pacientes especialmente com tumores de alto grau que têm potencial maior de microinvasão sejam submetidos ao estudo do linfonodo sentinela.
A maior dificuldade no tratamento de carcinoma in situ começa pelo diagnóstico precoce, pois 90% dos casos são feitos pela mamografia e posteriormente as pacientes devem realizar o screening mamográfico, mas em nosso país há um número muito pequeno de mamógrafos. Além disso, para a aplicação adequada da técnica cirúrgica temos que considerar a radioterapia que faz parte da rotina no carcinoma ductal in situ, ou seja, haverá necessidade de um local com serviço de radioterapia adequado após a cirurgia conservadora.
Quando um ginecologista ou clínico detecta uma mamografia alterada, ou suspeita para carcinoma in situ, deve encaminhar o paciente para o especialista, pois desta maneira o tratamento poderá trazer muito mais benefícios ao paciente.”

Dr. Diógenes Basegio
Presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia.
Professor Titular da Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo - RS.
Presidente da Escola Brasileira de Mastologia.
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BIOLOGIA DO CÂNCER DE MAMA
“Durante a mesa com o tema “A história natural do câncer de mama” procurei mostrar como a doença evolui da fase inicial até a de metástases, na qual poderá comprometer órgãos distantes. Na evolução do tratamento do câncer de mama, a princípio, o mais importante era a cirurgia, depois a cirurgia associada à quimioterapia ou hormonioterapia e, atualmente, sabe-se que existem vários outros fatores que interferem no resultado final.
Anteriormente, com a cirurgia e a quimioterapia, procurava-se eliminar até a última célula, mas hoje sabemos que quando há metástases isso é praticamente impossível. Sendo assim, com a procura do equilíbrio entre o tumor, o organismo e os fatores produzidos por eles, é possível aumentar a sobrevida e novas substâncias vêm sendo lançadas com este objetivo.
Uma outra abordagem da mesa-redonda foi sobre biologia molecular, especialmente angiogênese. Além disso, houve apresentação sobre os receptores hormonais que estão intimamente envolvidos no tratamento do câncer de mama. Foram ressaltados também todos os fatores de risco da doença e as possibilidades terapêuticas.
Nosso principal objetivo é conseguir fazer o diagnóstico de câncer de mama em fases iniciais. No Brasil, encontramos dificuldades neste aspecto, pois precisamos de mamografias de boa qualidade periodicamente. Além disso, os recursos disponíveis na rede pública para o tratamento são insuficientes. Embora a incidência de câncer de mama tenha aumentado no mundo inteiro, a mortalidade teve uma redução nos países desenvolvidos, mas no Brasil a mortalidade também tem aumentado, pois o diagnóstico é feito em fase avançada.”

Dr. Carlos Ricardo Chagas
Doutor em Medicina pela UFRJ. Chefe da Mastologia da Santa Casa de Misericórdia do RJ.
Professor de Mastologia e Ginecologia do Curso de Graduação da Santa Casa.
Coordenador da Câmara Técnica em Mastologia do Cremerj. Presidente da Regional do RJ.
Presidente do Próximo Congresso Brasileiro de Mastologia. |
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Simpósios-Satélites
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Durante o 13º Congresso Mundial de Mastologia foram realizados o Simpósio da Escola Latino-Americana de Mastologia, que teve como tema Falsos-negativos no diagnóstico do câncer de mama e o simpósio-satélite da Pfizer: Uso seqüencial de inibidores de aromatase no tratamento adjuvante do câncer de mama (os resultados do estudo IES 031 com exemestano) palestrado pelo Dr. Charles Coombes.
Além disso, a Novartis realizou um simpósio que colocou em discussão o tema Novidades no tratamento do câncer de mama, com a participação do Dr. Ruffo Freitas Jr., que falou sobre Hormonioterapia neo-adjuvante: como e quando; do Dr. Alfredo Barros, que abordou a Hormonioterapia adjuvante estendida prolongada na pós-menopausa e do Dr. Marcelo Oliveira Santos, que debateu sobre o Uso de bisfosfonatos para prevenção de perda de massa óssea em mulheres com câncer de mama.
Segundo o Dr. Marcelo Oliveira, oncologista clínico e chefe do serviço de oncologia do Hospital Santa Catarina-SP, a preocupação da comunidade científica oncológica em relação às complicações ósseas, ou seja, a perda de massa óssea verificada nos exames de densidade mineral óssea das pacientes, foi o foco de sua apresentação. “O advento de alguns protocolos que recomendam o uso dos inibidores de aromatase faz com que o processo de perda de massa óssea se acelere, gerando o aparecimento de complicações como microfraturas ou mesmo fratura de coluna e fêmur, levando a uma piora na qualidade de vida dos pacientes. Em nossa prática clínica utilizamos o ácido zoledrônico (Zometa), que com apenas duas doses anuais de 4 mg consegue auxiliar essas pacientes no sentido de melhorar a densidade mineral óssea, proporcionando conseqüentemente melhora na qualidade de vida e evitando complicações de fraturas, dor e dificuldade de locomoção”, conta o médico.
Já a palestra do Dr. Ruffo Freitas destacou a endocrinoterapia neo-adjuvante no câncer de mama. “A endocrinoterapia é feita em mulheres pós-menopáusicas e que apresentam tumores com receptores de estrogênio positivo. Os estudos iniciais comparando letrozol ao tamoxifeno mostraram que houve redução no tamanho do tumor e melhor resposta clínica no grupo que usava letrozol. Ademais, a taxa de mulheres que conseguiram a conservação mamária com letrozol foi superior à do tamoxifeno. Foi observado que mulheres com superexpressão do HER-2 ou HER-1 apresentavam uma resposta muito maior, 88% com letrozol versus 21% com tamoxifeno. Além disso, as mulheres com quantidade menor de receptores hormonais no seu tumor somente respondiam ao letrozol, enquanto as mulheres com uma quantidade maior de receptores hormonais também respondiam aos dois agentes”, ressalta Dr. Ruffo.
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