Parceria Inédita Promove Estágio de Alunos da
Unifesp/EPM no HSPE em São Paulo


Por Cynthia de Oliveira Araujo


Rita Miyazawa Martins (da esq. para a direita),
Rhavana Pilz Canônico, Patrícia Bandeira Moreira Rueda Germano,
Bianca Ribeiro Pereira da Silva, Dra. Maria Goretti Sales Maciel,
Prof. Dr. Marco Tullio de Assis Figueiredo, Beatriz Thaisa Watanabe,
Matheus Castro e Heloisa Regina Russo.

Em uma iniciativa inédita, alunos da Disciplina Eletiva de Cuidados Paliativos da Unifesp/EPM realizaram estágio na Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE), em São Paulo.

Conforme explica o Prof. Dr. Marco Tullio de Assis Figueiredo, Professor da Disciplina de Cuidados Paliativos, Chefe do Ambulatório de Cuidados Paliativos da Unifesp/ EPM e um dos Sócios Fundadores da International Association for Hospice and Palliative Care, o intuito da parceria foi proporcionar aos alunos a oportunidade de aprenderem na prática o que descobriram com a Disciplina, já que o Hospital São Paulo não dispõe de leitos para os pacientes fora de recursos de cura.

Para conseguir esse intento, o Prof. Dr. Marco Tullio e a Dra. Maria Goretti Sales Maciel, coordenadora do Programa de Cuidados Paliativos do HSPE, lutaram por quase um ano para conseguir a anuência da direção do hospital. Após a autorização do Superintendente, da Diretora e do Centro de Ensino do HSPE, as alunas puderam enfim iniciar os estágios que ocorreram em janeiro deste ano. “A nossa intenção é manter essa parceria por muito tempo, enquanto não dispusermos de leitos próprios no Hospital São Paulo ou até mesmo um imóvel adaptado para esse tipo de internação de pacientes”, diz o Prof. Dr. Marco Tullio.

O estágio foi executado em tempo integral de sete a dez dias e só foi permitido para os períodos de férias dos alunos, ou seja, nos meses de janeiro, fevereiro e julho, mas foi suficiente para que as estagiárias tivessem o contato necessário com os pacientes. “A nossa idéia foi estimular o interesse de alunos nos cuidados paliativos. Constatamos que quanto mais cedo eles têm contato com práticas humanitárias, maior a chance de despertar para esta área mais adiante, quando já forem profissionais”, ressalta a coordenadora do Programa de Cuidados Paliativos no HSPE, Dra. Maria Goretti, que também é presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos.

TEORIA E PRÁTICA MÉDICA

Para o Prof. Dr. Marco Tullio, o mais importante dessa parceria que concilia a parte teórica da disciplina com a prática médica em um hospital, é que tanto em medicina como em enfermagem a prática é complementar e essencial para a formação do futuro profissional. “É muito fácil distinguirmos nos congressos e artigos científicos os profissionais que somente falam dos quepraticam qualquer área do conhecimento.Os segundos o fazem com propriedade e simplicidade, tornando o conhecimento acessível a todos. Os primeiros convencem muito pouco e não se fazem entender. Da mesma forma, por melhor que seja um curso teórico, sem a experiência prática ele cai no esquecimento. Quando os alunos têm oportunidade de ter uma experiência prática, eles se transformam”, destaca Dra. Maria Goretti, que resume: “Um curso teórico acrescenta. Um curso teórico + prático transforma. E é de transformações que precisamos”.


Dra. Maria Goretti Sales Maciel

LIÇÕES DE VIDA

Várias lições os alunos podem tirar de um estágio como esse. “Primeiramente, eles aprenderão a desmistificar a morte, e em segundo, a conhecer a si mesmos quanto à capacidade de dar de si a outrem, sem nada exigir em recompensa. Esses conhecimentos serão da mais elevada importância na moldagem da cultura profissional deles, com uma forte ênfase na atitude e procedimento humanista e compassivo”, comenta o Prof. Dr. Marco Tullio. Na opinião da Dra. Maria Goretti, as estagiárias tiveram oportunidade de ver antes de tudo os pacientes como pessoas e não como doentes, simplesmente, o que é muito importante. “As escolas só nos ensinam a ver doentes e doenças. O final da vida é um período de muitas aquisições e enriquecimento, desde que se tenha condições para isso. Acredito que elas conseguiram perceber este aspecto e diminuíram o medo de se aproximar de pessoas que estão próximas de sua morte, como o fazem muitos profissionais da saúde. Viram também a importância da equipe trabalharno sentido de propiciar aos pacientes esta oportunidade de VIDA”, enfatiza a médica.

RICA EXPERIÊNCIA

E dessa experiência inédita não só as estagiárias aprenderam boas lições. Os profissionais envolvidos e os pacientes também tiveram seus próprios aprendizados. “A experiência foi excelente segundo o depoimento das alunas (ver box) e também de acordo com a avaliação da Dra. Maria Goretti, preceptora das alunas”, comemora o Prof. Dr. Marco Tullio, que acrescenta: “Essa experiência é importantíssima, pois é a única oportunidade que os alunos têm para serem expostos ao lado humano dessas duas profissões – a medicina e a enfermagem”.


Dr. Marco Tullio de Assis Figueiredo


Já para a Dra. Maria Goretti, a experiência é rica para todos. “Tenho a sensação de que quando damos uma aula e falamos de cuidados paliativos, a maioria fica se questionando como pode acontecer tudo aquilo na prática. Ao ter contato com esta prática, os olhos dos alunos se abrem para um leque de possibilidades. É muito bonito e gratificante presenciar esse deslumbramento”, revela a paliativista.

CRESCENTE INTERESSE

O crescente interesse pelos cuidados paliativos no Brasil, segundo o Prof. Dr. Marco Tullio, está ocorrendo porque os profissionais da área da saúde em seu íntimo não estavam satisfeitos com seus desempenhos profissionais, excessivamente voltados para o materialismo científico da medicina e da enfermagem. “Quase sem exceção, todos aqueles que tiveram ocasião de conviver com os cuidados paliativos adotaram-no como um novo modo de compreender sua própria vida particular. Eles descobriram que o ser humano é capaz de ser BOM,” relata o professor.

Na opinião da médica Dra. Maria Goretti, o interesse nasce da necessidade de rever as práticas dos profissionais de saúde. “A formação tecnicista e a prática distanciada do paciente traz um desgaste muito grande para estes profissionais. E muito mais estresse. A falta da verdade, a pouca habilidade para se ter uma conversa franca com o paciente e sua família, o medo constante do não saber o que fazer são fatores que abalam estes profissionais. Os cuidados paliativos têm boas respostas para este tipo de problema. E os alunos da área de saúde sofrem um grande impacto. Eles escolheram uma profissão que implica cuidar do outro. E têm uma formação muito diferente. É um conflito às vezes muito difícil de resolver”, adverte ela.

MATÉRIA OBRIGATÓRIA

A Disciplina Eletiva de Cuidados Paliativos na Unifesp/EPM teve início em 1998, logo no primeiro ano de funcionamento dessa nova modalidade de ensino nas universidades federais do Brasil. Desde lá, o Professor Dr. Marco Tullio já obteve grandes conquistas, como criar o Ambulatório de Cuidados Paliativos da Unifesp/ EPM, que vem auxiliando uma centena de pacientes e ensinando diversos profissionais a aprenderem a lidar com esses pacientes fora da possibilidade de cura.

O crescimento dos cuidados paliativos, em todo o mundo, dependerá sempre, e cada vez mais, da instituição do ensino obrigatório na graduação universitária, acredita o Prof. Dr. Marco Tullio, que tem feito disso seu trabalho diário desde 1994. “Infelizmente, a Unifesp/EPM é a única entre as 135 escolas médicas do Brasil a ter ensino na graduação, embora em caráter eletivo, apesar de anualmente as novas turmas de alunos colocarem em suas sugestões apelos para que a disciplina venha a ser obrigatória. Nota-se que os alunos que freqüentam as disciplinas eletivas são do 1º, 2º e 3º anos, alunos dos anos pré-clínicos, que ainda não entraram em contato com o ser humano doente!”, ressalta o professor.

A Dra. Maria Goretti concorda com o professor e acrescenta: “Acreditamos na inclusão dos cuidados paliativos como matéria básica e obrigatória no ensino de profissionais da área de saúde. Talvez ainda demore alguns anos. Mas, como paliativista, saberemos esperar nossa hora”, finaliza ela.

As estagiárias e futuras paliativistas contam sobre a experiência


Bianca (à esq.), Rita, Patrícia, Heloisa, Rhavana
e Beatriz fizeram parte do primeiro grupo de alunas da Disciplina Eletiva de Cuidados
Paliativos da Unifesp/EPM a realizar estágio na Unidade de Cuidados Paliativos do HSPE.


“A oportunidade de conhecer a equipe e o trabalho da Dra. Goretti foi única. Este estágio me mostrou a verdadeira atuação do profissional de saúde quando o paciente está sendo assessorado pela equipe de cuidados paliativos. A visão da “boa morte”, para muitos, está relacionado à sedação ou ao isolamento social (UTI), mas para os paliativistas está presente na humanização, respeito pelo próximo e pelos familiares. É muito gratificante ver a face serena do paciente na sua partida, ao invés de uma expressão sofrida e dolorosa.”
Beatriz Thaisa Watanabe
4º ano de Enfermagem


“Sobre o estágio vivenciado na enfermaria de cuidados paliativos do HSPE supervisionado pela Drª Goretti, tenho muito a dizer, principalmente do contato com os pacientes. Foi mais que um estágio, foi uma experiência de vida que ficará gravada na minha memória, pois presenciei momentos únicos que foram muito emocionantes. Entrar em contato com pacientes de cuidados paliativos e presenciar o processo de morrer deles, vendo que estes eram assistidos com dignidade e preparados para ter uma “boa morte”. Ver na prática aquilo que sonhamos ver acontecer aos pacientes que se encontram fora de possibilidade de cura. Foi uma oportunidade única.”
Bianca Ribeiro Pereira da Silva
3° ano de Enfermagem


“Quando principiei na Liga de Cuidados Paliativos organizada pelos estudantes da UNIFESP, ainda encontrava-me no 1º ano da graduação e o desconhecimento acerca de quaisquer técnicas e procedências ligadas à área fazia-me temerosa, levando-me a atenção redobrada com relação a todos os acontecimentos. No entanto, o estágio nos cuidados paliativos me mostrou que nem tudo naárea da saúde são apenas técnicas e que na vida existem procedimentos mais humanos e, por vezes, mais efetivos durante a aplicação do cuidado. Assim, aprendi que um sorriso e uma palavra amiga podem trazer efeitos terapêuticos expressivos quando demonstrados com sinceridade e afeto.”
Heloisa Regina Russo
2º ano de Enfermagem


“Se tivesse que resumir a semana de estágio em uma palavra, essa seria emoção. Muito mais que reconhecer clinicamente os estágios da morte ou controlar a dor, deveras importante, pude reformular minha visão de morte, passando a contemplá-la como um ato sublime. E essa reconstrução se refletiu imediatamente no meu atendimento aos pacientes.
Sem dúvida, julgo a experiência fundamental para a minha formação acadêmica e pessoal. Infelizmente, ainda não há espaço curricular para o conhecimento prático em Cuidados Paliativos. Sinto-me privilegiada pela oportunidade.”
Patrícia Bandeira Moreira Rueda Germano
4º ano de Medicina


“O estágio no HSPE foi muito importante para meu crescimento profissional e pessoal, pois pude presenciar atitudes dos profissionais da saúde que não estou acostumada a presenciar em outros locais em que já estagiei. O carinho com que são tratados os pacientes é o que mais me impressionou e me motiva a continuar trabalhando nessa área, que ainda é pouco conhecida pelos profissionais da saúde no Brasil.”
Rita Miyazawa Martins
3° ano de Enfermagem

“Tive o privilégio de realizar o estágio antes de algo em minha casa acontecer: a morte de minha bisa, em fevereiro deste ano, um mês após o estágio. Parece que foi tudo programado. Minha espiritualidade estava profundamente aguçada durante a passagem pelo estágio e a minha visão sobre a morte mudou muito. Enfrentar a morte em minha casa foi muito tranqüilo. Com o estágio, entendi melhor o que são os cuidados paliativos. A luta para que todos os profissionais conheçam o sentido dos cuidados paliativos aumentou muito, porque se deparar com a morte lenta e freqüente é se deparar com a própria vida. Aprendemos a viver melhor, cada momento. Se os profissionais aguçassem uma visão plena da morte, creio que os pacientes seriam mais bem tratados.”
Rhavana Pilz Canônico
4º ano de Enfermagem
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