Hepatites, Infecções Genitais e HIV em Ginecologia
e Obstetrícia são Destaques de
Jornada em Ribeirão Preto



Por Cynthia de Oliveira Araujo



Prof. Dr. Geraldo Duarte (à esq.), Profa. Dra. Silvana Maria Quintana,
Dra. Silvia Nunes Szente Fonseca e Dr. Newton Osborne.


Entre os dias 9 e 12 de março foi realizada em Ribeirão Preto, SP, a 14ª Jornada de Ginecologia e Obstetrícia da Maternidade Sinhá Junqueira, um tradicional e importante evento científico da região, que contou com 800 profissionais de mais de 80 municípios de todo o Brasil.

Dentre eles 75 professores das principais universidades do país, além de um convidado internacional, Dr. Newton Osborne, da Howard University, de Washington, nos Estados Unidos. “Ribeirão Preto já é uma referência nacional quando o tema é medicina. O intercâmbio entre as experiências que os médicos trazem de seus consultórios e o conhecimento de grandes especialistas fizeram com que a Jornada de Ginecologia e Obstetrícia da Maternidade Sinhá Junqueira crescesse e se tornasse uma das maiores e mais importantes do Brasil”, ressalta Dr. Luiz Alberto Ferriani, Diretor Clínico da Maternidade Sinhá Junqueira e presidente da Jornada.

No amplo programa científico, as aulas abordaram a visão global da saúde e aspectos do bem-estar da mulher, da puberdade à menopausa. Dentre os vários temas ligados à saúde gestacional de mães e seus bebês, estavam as infecções.

A mesa coordenada pela Dra. Silvia Nunes Szente Fonseca, responsável pelos Serviços de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital São Francisco, Maternidade Sinhá Junqueira e Mater, em Ribeirão Preto, SP, discutiu as hepatites A, B e C, infecções genitais em adolescentes e o estado atual da infecção pelo HIV em gestantes.

HEPATITES A, B E C

Na primeira apresentação sobre hepatites A, B e C, a Profa. Dra. Silvana Maria Quintana, Professora Doutora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo – USP, abordou a importância da prevenção das hepatites no período pré-natal. “As hepatites estão entre as infecções, seja na fase aguda das hepatites A, B e C ou nas pacientes portadoras ou com infecção crônica pelos vírus B e C que acompanhamos durante o período pré-natal. A importância da prevenção deve-se ao fato de serem doenças infecto-contagiosas que podem evoluir desfavoravelmente e podem apresentar transmissão vertical, isto é, da mãe para o filho durante a gestação e no momento do parto”, relata a médica, que também trabalha no Setor de Gestação de Alto Risco com ênfase nas infecções incidentes no ciclo gravídico-puerperal e é responsável pelo Setor de Terapia com Laser de CO2 e Cirurgia por ondas de radiofreqüência desse departamento.


Dr. Newton Osborne, convidado internacional
da 14ª Jornada de Ginecologia e Obstetrícia
da Maternidade Sinhá Junqueira,
em Ribeirão Preto, SP.



A hepatite A, conforme explica Dra. Silvana, é considerada uma infecção da infância e não se observa associação com cronicidade. É uma infecção que se resolve em 100% dos casos; entretanto, a ocorrência de hepatite A na vida adulta pode ser mais grave e apresentar complicações, embora raras, como hepatite fulminante, que pode evoluir com óbito em um pequeno percentual de casos. “A novidade nesse assunto é que anteriormente não se considerava a possibilidade de transmissão sexual para vírus A e atualmente foi possível observar esta via de transmissão, assim como a transmissão vertical. A maioria das vacinas disponíveis utiliza vírus atenuado e não são rotineiramente recomendadas durante a gestação”, alerta a médica.

No caso do vírus B, a Profa. Dra. Silvana diz que é possível observarsua evolução para formas crônicas, como hepatite B crônica, cirrose e hepatocarcinoma. Por isso, ela enfatizou durante sua apresentação a importância de se fazer o screening (rastreamento) da gestante para hepatite B em todo pré-natal. “É fundamental que seja pesquisado durante o pré-natal o antígeno de superfície do vírus B (HBsAg) para todas as gestantes, com o objetivo de realizar a profilaxia no recém-nascido, ou seja, é preciso saber qual grávida tem o vírus B para administrar vacina e imunoglobulina para o recém-nascido imediatamente após o nascimento. Certamente essa é a melhor maneira de evitar que estas criançastornem-se portadoras crônicas do vírus B edesenvolvam hepatocarcinoma na infância. Ao ocorrer transmissão vertical, a chance da criança se tornar portadora crônica do vírus B é de até 70% se não forem administradas a vacina e a imunoglobulina”, ressalta Dra. Silvana, que completa: “A vacina é altamente eficaz, capaz de induzir formação de anticorpos em 97% dos casos, produzida através de engenharia genética e que se necessária também pode ser administrada durante a gestação”.

A coordenadora da mesa, Dra. Silvia Fonseca, concorda com a palestrante: “A hepatite B adquirida da mãe pela criançamanifesta-se como doença muito grave na infância, por isso é importante que seja prevenida”, diz a médica pediatra da USP - SP, especializada em doenças infecciosas pediátricas e mestre em epidemiologia hospitalar pela Universidade de Yale. Segundo ela, a boa notícia é que as maternidades do país estão começando a vacinar os recém-nascidos contra hepatite B. “Espero que isto logo ocorra em todo o país, pois assim quem sabe não teremos no futuro adultos suscetíveis a esta terrível infecção, que pode levar à hepatite crônica, cirrose, câncer de fígado e à morte”, declara.

O vírus C também pode evoluir para forma crônica e cirrose não se observando a associação com hepatocarcinoma. A hepatite C tem transmissão preferencialmente parenteral, sendo muito comum em usuários de drogas EV, mas também é possível a transmissão sexual e vertical. “Ao se detectar os anticorpos contra o vírus C indica-se a pesquisa do RNA viral e a quantificação da carga do vírus. A transmissão vertical só ocorre se a paciente tiver o vírus, pois nem sempre quem tem anticorpos também tem o vírus, e a transmissão vertical do vírus C”, adverte Dra. Silvana.

INFECÇÕES EM ADOLECENTES

Na segunda apresentação da mesa, o conferencista internacional, Dr. Newton Osborne, abordou várias infecções genitais que ocorrem não somente em adolescentes, mas durante toda a vida das mulheres. O médico fez um painel de várias infecções adquiridas por via sexual, enfatizando a importância de uso do preservativo, e alertou os especialistas presentes quanto ao fato de os adolescentes estarem tendo uma vida sexual ativa cada vez mais precoce.

HIV EM GESTANTES – ESTADO ATUAL

O Prof. Dr. Geraldo Duarte, Professor Titular do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e Coordenador do Setor de Moléstias Infecto-Contagiosas em Ginecologia e Obstetrícia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP, fez a última apresentação da mesa e falou sobre as novidades a respeito das intervenções que reduzem a transmissão do vírus da imunodeficiência humana tipo 1 (HIV-1) da mãe para o filho, também chamada de transmissão vertical. “O conhecimento mais detalhado dos fatores predisponentes da transmissão vertical instrumentaliza a equipe de saúde sobre “o que, como e quando fazer” para reduzir esta forma de disseminação do HIV-1”, enfatizou o professor.

De acordo com o Prof. Geraldo, se não for implementada nenhuma intervenção, a taxa de transmissão vertical pode chegar a 25% em nosso meio. “Se utilizarmos todos os conhecimentos e recursos que temos, pode ser reduzida para 2% a 3%. Vale a pena investir!”, alerta o professor. E quais seriam estes “conhecimentos e recursos?” Na realidade, para ele, o mais importante é o emprego do conjunto de todas as intervenções, incluindo assistência pré-natal, uso de anti-retrovirais, diagnóstico e tratamento adequados das outras infecções, nutrição correta, assistência adequada à resolução da gravidez, evitando-se condutas invasivas sobre o feto ou sobre a câmara amniótica e tempo prolongado de corioamniorrexe, e a indicação da cesárea nas condições que demandam este tipo de intervenção. Além disso, a amamentação natural está formalmente contra-indicada, o que exige esforços na busca de recursos para o aleitamento artificial seguro.

O Prof. Geraldo também comenta que se o médico não sabe qual paciente é portadora do HIV-1, não é possível ajudá-la. “Precisamos trabalhar com a gestante no sentido de fazer com que ela perceba que saber da condição de portadora pode ajudá-la em todos os sentidos. Hoje levamos a mensagem de que o teste não é obrigatório, mas um direito da grávida, que a meu ver, a mulher não pode abrir mão”, afirma. Adicionalmente ressalta: “Informar a mulher sobre o direito de saber se ela é portadora do HIV-1, do vírus da hepatite do tipo B e do vírus da hepatite do tipo C é importante e fundamental”.

Quando indagado sobre o reconhecimento internacional do Brasil no controle e tratamento dos pacientes infectados pelo vírus HIV, o Prof. Geraldo é bastante positivo: “Só não é melhor por nosso comodismo de não publicarmos os nossos dados fora do país. Os grandes pesquisadores sabem da nossa capacidade no Brasil, mas nos criticam por não publicarmos todos os nossos resultados em revistas especializadas e de circulação internacional. O programa brasileiro de apoio à gestante portadora do HIV-1 é um dos melhores do mundo”, finaliza ele.

A próxima Jornada já está marcada, anote.



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